terça-feira, 23 de junho de 2026

Atlas de Lugares em Extinção


Travis Elborough (2026). Atlas de Lugares em Extinção. Lisboa: Quetzal.

Não há nada neste livro que não se encontre nas páginas da Wikipedia. Ou, temo e suspeito, num qualquer resumo de IA sobre o tema. Mas sou uma pessoa algo antiquada, e não me é desagradável passar uma tarde primaveril a aproveitar o sol, uma cerveja bem fresquinha e um livro pouco profundo sobre o tema sempre interessante de espaços que se desvanecem.

O livro recorda-nos as cidades perdidas do passado, que em muitos casos mal deixaram traços das civilizações que as construíram. Olha para desvanecimentos da história recente, e mostra-nos como os efeitos da ação humana, entre o aquecimento global e os projetos de engenharia, estão a gerar novas geografias de desaparecimento.

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Obsession

Vim parar a este filme sob influência de Backrooms. Li, algures, que este teve um impacto diminuído por ter saído em simultâneo com Obsession para os cinemas, sendo ambos considerados como obras que quebram o padrão e trazem ao grande ecrã as estéticas digitais. Como Backrooms é um filme que não sai da cabeça, quanto mais se pensa nele mais fascina, fui espreitar o seu aparente concorrente.

Obsession não é tão radical na sua estética como Backrooms. Apropria-se de algumas estéticas nostálgicas e faz uso das sonoridades suaves levemente dissonantes que vêm do vaporwave ao horror core. Os carros e casas parecem ser dos anos 80, mas não como anacronismos, dado que a modernidade da internet, telemóveis e IA estão presentes no filme. É um dos indícios do uso de códigos visuais que os conhecedores do vídeo nas redes socias reconhecem muito bem. Como história, não é especialmente inovador, é uma variante do clássico enredo dos desejos concedidos que se revelam maldições. Vê-se como um cruzamento entre The Monkey's Paw, talvez a mais célebre história desta vertente do terror, e o meme da overly attached girlfriend levado a extremos gore (e diga-se que a atriz que desempenha o papel de monstro/vítima incorpora muito bem o ar de alegria inquietante deste meme). 

A história segue os desamores da pós-adolescência, com uma teia intricada que une quatro amigos que trabalham numa loja de música. Aqui, já toparam dois arcaísmos da estética das nostalgias, a história de crescimento dos jovens adultos e a loja de música como ícone atemporal que evoca um mundo onde o comércio era local e não dominado por multinacionais. Um dos jovens, Bear, está claramente apaixonado por Niki, uma rapariga muito independente. Esta está casualmente envolvida com Ian, o melhor amigo de Bear, sem que este desconfie. A compor o círculo está Sarah, filha do dono da loja, amiga de todos, e claramente apaixonada por Bear. Entre jovens tímidos e ainda a descobrir o mundo, há muitos sentimentos não ditos, e momentos de falta de coragem para dizer o que se sente. 

Parece uma típica comédia romântica, até à introdução do elemento sobrenatural, na forma de um produto colecionável que garante um desejo. É vendido em lojas esotéricas, e a maior parte dos que o compram nem sequer o usa, em mais um aceno às estéticas digitais do consumo de objetos icónicos que foram concebidos para ser mostrados mas não, realmente, usados (as Kodak Charmera são o exemplo mais recente dessa tendência). Amargurado  pela sua falta de coragem em assumir os sentimentos, Bear dá uso ao amuleto dos desejos, e fica logo surpreendido quando a reação da sempre distante Niki se transforma numa busca de proximidade imediata. A partir daí as coisas começam a correr de maneira estranha, até descambarem numa progressiva espiral de violência obsessiva. O desejo parecia inócuo, fazer a rapariga amar o rapaz, mas a personalidade da rapariga fica esmagada pelo efeito mágico, e o amor torna-se numa obsessão que ascende a extremos de violência, até um final quase irónico e muito infeliz. 

Para além das estéticas da nostalgia entrecruzadas com a modernidade tecnológica, o outro elemento que coloca este filme com um pé firme no terreno do momento contemporâneo é a sua temática. A história do desejo amaldiçoado é uma nada subtil metáfora para as relações tóxicas, amores obsessivos e desiquilibrados. É uma visão muito contemporânea que assenta no castigo que o rapaz sofre por estar a viver a sua fantasia de ser plenamente adorado por uma rapariga, embora com imensas nuances. Os rapazes não são machos tóxicos, há uma preocupação constante com o respeito mútuo, enquanto é muito sublinhada a perda de identidade das relações tóxicas de excessiva co-dependência. O horror não é a maldição dos desejos concedidos (algo que até é levado de forma muito leve por todos os que conhecem a história do objeto que os concede, chega a haver uma linha de apoio ao cliente que, como todas as linhas de apoio ao cliente, é disfuncional). Está, sim, na diluição da personalidade individual numa relação amorosa obsessiva.

Este filme é claro terror da geração millenial. Não é perfeito, tem momentos de tédio e outros de claro overacting, mas consegue um crescendo de tensão que explode num final portentoso, com gore q.b.. Uma nota especial para Inde Navarrette, que protagoniza a infeliz Niki. Começa de forma distante e discreta e acaba por levar todo o filme nos seus braços, com um desempenho alucinante que oscila entre o absurdo, o inquietante e o verdadeiramente arrepiante, num trabalho brilhante. 



domingo, 21 de junho de 2026

URL

Art by Ralph Reese for the cover of Metal Hurlant 79, Sept 1982.: Retrofuturos. 

The Film That Attacks You: É sempre bom redescobrir Un Chien Andalou, um filme que ao vê-lo pensamos que hoje seria demasiado provocador para ser feito. No entanto, na fímbria criativa com IA que se pode encontrar nalgumas redes sociais (pensem Instagram artístico e o espaço muito bizarro que se apelida de TikTok borderlands), vejo continuamente vídeos que mantém o espírito e estética de estranheza experimental do surrealismo. 

Leituras da Semana (#113 // Mai 04 2026): Ainda em rescaldo de ter tido o blog nomeado para os prémios da ESFS, um agradecimento ao João Campos pelo elogio, e uma pequena correção: aos vinte anos ainda não se tem juízo. Aliás, começo a pensar que nem aos cinquenta. Quanto à nomeação, sinceramente continuo sem lhe dar uma tremenda importância. Não por a achar pouco importante, bem pelo contrário (é uma honra, sei isso muito bem), mas, lá está: os neurodivergentes vêm o mundo de outras formas. Por isso, se acharem estranho não estar a celebrar alegria aos cinco ventos, não é por desvalorizar a nomeação, ou não me sentir feliz com ela. É mesmo porque a minha forma de reagir é vastamente diferente da dos neuronormativos. 

Um Olhar Sobre a Comic Con 2026: Confesso, bastou-me ir à Comic Con uma vez, na sua segunda edição, para perceber isto: "a Comic Con Portugal se apresenta como um grande espelho do nosso tempo: um tempo guiado pela superficialidade, pelo ruído constante e pela ilusão de que quantidade é sinónimo de qualidade. O evento vende‑se como celebração da cultura pop, sim, mas rapidamente se percebe que essa “cultura” é reduzida a um conjunto de estímulos rápidos, fotografáveis e esquecíveis. De facto, tudo é pensado para o impacto imediato, para a partilha nas redes sociais, para a validação instantânea e raramente para a reflexão, para o aprofundamento ou para o respeito pelas raízes do que ali deveria ser celebrado: a banda desenhada". Análise inesperadamente certeira e contundente do Vinhetas sobre o vazio conceptual de um evento que vê a cultura pop e os seus fãs como gado para ser ordenhado. 

Franco Storchi: Opera espacial. 

The era of AI malaise: Uma boa síntese para aquela falta de pachorra que já se começa a sentir quando se ouve falar de IA. Sabem do que falo, daqueles cansativos discursos de como a IA é a nova revolução industrial e de como vamos todos ficar desempregados, porque a IA é capaz de fazer tudo. E na realidade, vemos que as ferramentas de IA são de facto brilhantes nalgumas áreas específicas, mas a realidade anda muito longe do hype dos deslumbrados, com estes discursos reveladores de falta de cultura, e, enfim, falta de noção do que é a complexidade das relações humanas e do mundo em que vivemos

Introducing talkie: a 13B vintage language model from 1930: Ok, podemos dizer que retro-IA é uma cena

How are subsea cables repaired?: Um mergulho profundo (piada não intencional) na infraestrutura dos cabos submarinos, e nos métodos para a sua manutenção. 

A K-Pop Teaser Allegedly AI-Cloned Their Gobelins Student Film: ‘Niccolò’ Co-Director Speaks Out: Na era da IA, a linha que separa inspiração de imitação é cada vez mais ténue. Mas é este o caminho, usar os meios legais para punir o plágio. 

My AI Matchmaker Let Me Down: Quando queremos quantificar algo tão complexo e fluído como as relações humanas para serem geridas por algoritmos, os resultados são sempre deprimentes.

Meta Axes Contractors Who Had to Review Explicit Video From Smart Glasses: Para a Meta, o problema não é a óbvia invasão de privacidade que os seus produtos permitem. É haver quem se atreva a falar disso. 

Los viejos chips nunca mueren: las empresas que fabricaban chips "aburridos" están montándose en el dólar: Chips baratos, que se compram ao quilo (não é piada) e de usos muito restritos, mas omnipresentes e essenciais para a eletrônica do dia a dia

So, About That AI Bubble: Aqui, dou a mão à palmatória. O uso de llms para programação é de facto útil, e pode estar aqui o verdadeiro sentido para a adoção da IA. Mesmo no seu sentido mais generalista, como percebo quando em formação mostro a professores que nunca sonhariam em programar uma linha de código que conseguem, com ajuda da IA, criar recursos pedagógicos personalizados e adaptados às suas realidades, e os vejo entusiasmados com isso. 

New report tracks Russia’s growing combat ground robot fleet: A inovação na robótica militar não vem só do lado ucraniano. 

Las dos caras emocionales de la IA: en EEUU lanzan cócteles molotov a sus creadores, en China los niños bailan con robots: E porque é que isto acontece, perguntam-se? Simples. Por cá, no mundo ocidental, a IA está a ser vendida como uma máquina de plágio, um desenrascador académico, enfiado sem utilidade perceptível em muitos produtos, gerador de slop para as redes sociais. E ainda temos que levar com o brilhozinho nos olhos dos executivos e CEOs que se arrogam de declarar, com baba de apetites a escorrer do canto dos lábios, que a IA chegou para nos desempregar a todos e cumprir, finalmente, o seu sonho húmido de se livrarem dessa massa fedorenta que são os trabalhadores. Ainda se admiram de estarmos a rejeitar a IA e querermos guilhotinar os seus empresários? Por outro lado, o que vejo vindo da China é o oposto. Também há slop, claro, mas vejo novas ideias e uma vontade de experimentar e aplicar, de criar coisas novas. A visão é otimista e cheia de uma energia que nós por cá, enredados na teia tóxica das ideias neoliberais, já há muito perdemos, porque a noção de economia como motor social desfez-se em prol do sacrossanto valor acrescentado para o acionista. 

It’s Illegal in China to Lay Someone Off to Replace Them with AI, Court Finds: Digam-me lá outra vez, que é incompreensível que os chineses olham para a IA como algo positivo, enquanto nós a estamos a rejeitar? E, também, que é incompreensível a nossa rejeição da IA? 

Impactos da IA no trabalho intelectual e nos serviços públicos: Sim, já sabemos. A adoção de IA está a servir aquele velho sonho do capitalismo mais ganancioso, que é o de se livrar de trabalhadores. E como é que está a correr? Vejamos o exemplo do ministério da educação: "o ministro da Educação Fernando Alexandre anunciou uma redução de 50% nos quadros de pessoal do Ministério, graças à introdução de sistemas de IA para realizar várias tarefas". Como é que isto está a funcionar na realidade? Simplesmente grande parte dos serviços com que lido deixaram de dar resposta atempada às questões. 

Beyond Lovable and Mistral: 21 European startups to watch: Indicadores da soberania digital europeia. 

Steinar Lund: Mais opera espacial. 

A Year of Magical Thinking: A acintosidade social que sentimos no dia a dia, discursos de ódio que proliferam, e agora o regresso da violência política, com tentativas (infelizmente!) malfadadas de atentado ao presidente americano, talvez sejam um indicador que, como sociedade, estamos a ficar fartos do alardear ostentativo de impunidade dos plutocratas, bilionários desavergonhados e políticos que fomentam o ódio. Agem e comportam-se como se estivesse acima de todas as leis, e têm o dinheiro para se safar com isso. Como é possível não nos cansarmos destes destratamentos? 

Your Next Dog May Live Longer: É o drama de quem vive com cães. Sabemos que as suas carinhosas vidas são fugazes, e diga-se eu sou daqueles que seria tentado a experimentar este tipo de terapias, se garantisse um prolongamento saudáve vida das minhas companheiras caninas. 

Pay-To-Play: Rich People Are Hiring Themselves Orchestras To Conduct: Caros amantes da música clássica, estão a ver aquilo que todos fazemos quando nos entusiasmamos a ouvir uma das nossas sinfonias favoritas? Aquele gesticular sem sentido com se estivéssemos no papel de maestros? Pois, se forem muito ricos, podem fazer o mesmo, mas com uma orquestra a sério e não com o gira discos/leitor de cds/leitor de mp3/stream de música. 

Am…am I “alternatively influential” ?...: Confesso que… isto faz-me sentido. Ando há anos nas redes e blogs a mostrar o que faço. Não posso dizer que tenha tido um estrondoso sucesso, mas tenho tido boas surpresas, convites para dar formação, falar em eventos, e até o desafio de criar pequenos livros sobre robótica. É curioso, porque o que vou publicando não se enche de likes e partilhas. Mas de volta e meia, especialmente em contextos informais, há pessoas que me dizem, "sabes, o que tu publicas inspira-me, e vou experimentar com os meus alunos". Ou em eventos de mostra de projetos ser abordado por pessoas que nem conheço, que me querem cumprimentar e falar do que se faz porque viram nas redes alguma coisa minha. A melhor história que tenho destas é, em plena Maker Faire Lisbon, ter um colega de informática a falar comigo, a partilhar o gosto pelo 3D, e a dizer-me "olhe, sabe, já conhece o blog do Artur Coelho, está cheio de ideias e tutoriais para estas coisas". E eu, olho para ele e aponto para o badge que tinha ao pescoço. Imaginem a barrigada de riso. Não sou de todo influencer, nem o pretendo ser, mas é caloroso saber que deixamos uma pequena marca positiva no mundo, especialmente num tempo em que a internet se tornou um espaço tão tóxico. 

El caballo de Troya del catolicismo en España no es el islam: son 35.000 personas en una misa evangélica en el Metropolitano: E por cá, tal como lá. Refilamos contra a ameaça islâmica, quando na verdade a pior ameaça que temos ao nosso sistema democrático é o alastrar dos evangélicos - ultra-conservadores, anti-ciência, e em grande parte liderados por padres vigaristas que vivem vidas de luxo à custa dos dízimos dos fieis. Apesar deste tipo de iniciativa, são discretos mas vão erodindo o tecido social, e são notórios no apoio que dão à extrema direita. E note-se que já estão a chegar às escolas, exigindo que os alunos tenham EMR evangélica. O cancro do retrocesso já está instalado entre nós, e ao contrário do que os direitolos neo-fachos gostam de berrar, este cancro não usa burka. 

A espera e as leituras: Temos ainda muito que evoluir na forma como encaramos a dignidade no inevitável final da vida.

Germany as Europe's leading military power: Não nos é confortável, dada a memória histórica do século XX, mas é inevitável e essencial à estabilidade europeia.

King Charles Takedown Of Trump Was A MASTERCLASS: How Charles III Quietly Filleted Donald Trump in His Own House: Não é muito difícil criticar o boomer bilionário que nos está a infestar a vida. Fazê-lo com esta elegância, não é para todos.

quinta-feira, 18 de junho de 2026

Comics: Deep Cut

Chris Claremont, Edgar Salazar (2015). Wolverine: Deep Cut. Nova Iorque: Marvel.

Sempre vi Chris Claremont como um dos grandes argumentistas de comics do final do século XX, mas essa opinião tem vindo a mudar recentemente. Cresci a ler os seus argumentos para os X-Men clássicos, que revitalizaram os personagens com uma mistura de aventura de super-herói com dramas pessoais quasi-telenovelísticos, tornando-os uma das mais influentes séries da Marvel. Tão influente, que o argumentista foi pago para não trabalhar para outra editora, ao chegar ao fim da sua seminal temporada. 

Entretanto, li os romances da série O'Shea, que me recordo de ver anunciados nas Asimovs que lia religiosamente nos anos 90. Percebi que como romancista era medíocre e estereotipado, que o estilo que lhe tinha servido bem como argumentista não servia para a literatura de FC, mesmo em modo de aventura pulp. Recentemente, Claremont regressou aos seus antigos personagens, com a benção da Marvel, para contar novas histórias ou atar algumas pontas soltas das histórias que criou. Francamente, está a ser uma lição de como no que diz respeito às glórias do passado, o melhor mesmo é deixá-las no passado.

terça-feira, 16 de junho de 2026

Histórias da Terra e do Mar


Sophia Andresen (2002). Histórias da Terra e do Mar. Lisboa: Texto Editora.

Alguns destes contos são alegorias moralistas, inspiradas em fábulas clássicas. Outros, vinhetas de forte impressão visual e emocional. O lado de conto moral deixa-me em busca de significados, mas a sedução com a prosa é imensa. Mais do que simbolismos e parábolas, da procura de sentido lógico, o que fica desta leitura é o prazer das palavras. A escrita é poderosa e fluída, enleva-nos com o seu ritmo e a imagética que desperta na mente durante a leitura.

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Emaranhados

Graças à programação descontraída (vibe coding), tenho conseguido explorar com ajuda da IA ideias e projetos muito acima das minhas capacidades técnicas.





Vale o que vale, não estou a querer fingir que sou artista digital e mestre da programação. Apenas, estou fascinando pela capacidade que a IA generativa tem, nos domínios da programação, de nos permitir desenvolver projetos acima dos nossos níveis técnicos. Faço sempre a ressalva que não deixa de ser necessário aprender a programar, se se quer ir mais longe. Tal como há diferenças assinaláveis entre este tipo de soluções, pensadas unicamente como projetos pessoais, e soluções profissionais, que levam em contra questões de escala e segurança.

Agora, que é divertido experimentar e fazer isto, é. Esse lado é incrível.

domingo, 14 de junho de 2026

URL


Derelict Of Space: Opera clássica. 

5231) Os 100 anos da Ficção Científica: Celebrar o manifesto de Campbell. Não é o único ponto de origem do género literário, mas é um dos mais significativos. E quanto à relevância do género, diria que nada mais certeiro do que isto: "Cientistas podem prever esses usos, mas foi preciso a imaginação (e a pindaíba permanente) de Philip K. Dick para imaginar a história do cara desempregado que quer sair para arrumar emprego e a porta do apartamento está trancada porque ele não pagou o condomínio, e ele a certa altura diz: “Ora que diabo, aqui estou eu discutindo com a maçaneta da porta.” " 

«The Hellbound Heart» chega finalmente a Portugal!: Leio isto, e não sei se é boa ou má notícia. Claro, haver uma tradução de Barker para português, finalmente, é bom. Por outro lado, chega com trinta anos de atraso. A relevância cultural é mínima, e os conhecedores do género já leram a sua obra nas edições em inglês. 

What Is Authorship When Machines Can Write?: Pessoalmente, sou imensamente céptico sobre este futuro anunciado de máquinas criativas. Suspeito sempre que os seus proponentes mais entusiastas têm uma compreensão nula do que é a criatividade e expressão, pregando para aqueles que estão habituados à mediania das culturas comerciais. 

It’s Been A Century Since The Term ‘Scientifiction’ Was Coined: Cem anos do termo, mas muito mais do género. 

The Books That Take Revenge, Centuries Later: Há vinganças que se servem frias. Outras, geladas. 


VAMPIRELLA #29 (Warren, 1973): Terror expressivo. 

Weaponized deepfakes: Uma das mais insidiosas formas de abuso criminal via Inteligência Artificial, pela violência que excerce sobre as pessoas. 

US Air Force tests Anduril semiautonomous combat jet drone without direct pilot control: Avanços na robotização da aviação de combate. 

Pluralistic: It's not a crime if we do it (to nurses) with an app: Começa assim: "If I could abolish one piece of received wisdom about tech policy, it would be this: "Tech moves at the speed of innovation and regulation moves at the speed of government, so regulation will always lag behind tech." (If I could abolish two pieces of received wisdom about tech policy, the other one would be "If you're not paying for the product, you're the product." Decent treatment is not a customer reward program, and "voting with your wallet" only works if you're a billionaire whose wallet is thicker than all the other wallets put together.)" E acaba assim: "The reorganization of the economy around parasitic middlemen and financial gamblers (but I repeat myself) is the real reason that we can't regulate tech."  É por estas que Cory Doctorow é o analista que mais vale a pena ler e acompanhar para perceber o turbilhão social e cultural da inovação tecnológica. É sempre brilhante e acutilante. Essencial para pensar na tecnologia com sentido crítico. Claro, se se for um daqueles vendedores de banha da cobra que nos quer convencer que é fantástico despedir pessoas para as substituir por IA mal amanhada, que essas coisas da responsabilidade financeira são um desnecessário atropelo à prosperidade para todos (mas na prática só para os que não sofrem do mal dos escrúpulos) da crypto-defi, ou como se mete um telemóvel entre o serviço e o cliente a empresa já não tem de se sujeitar à legislação económica e social, Doctorow é um perigo. Para a esmagadora maioria, ou seja, nós, que por um lado nos deslumbramos com as potencialidades das tecnologias, mas nos recusamos a aceitar que sejam usadas como instrumento para reverter o progresso social  e económico, que consideram imorali os níveis estratosfericos de concentração de riqueza nas mãos de um punhado de sociopatas enquanto toda a sociedade piora, é leitura essencial. 

Pluralistic: The (other) problem with automatic conversion of free software to proprietary software: Mais uma para a categoria de manhas inesperadas - analisar software para recriar os seus requisitos técnicos, e em seguida criar software para preencher esses mesmos requisitos. Não é cópia ou pirataria, dizem. 

Meta will show parents the topics of their teens' AI conversations: Se por um lado se compreende o cuidado dos pais, por outro há aqui uma enorme invasão de privacidade. E notem, os adolescentes não são passivos. Quando sabem que estão a ser vigiados, o que fazem é mudar para outras redes e serviços mais privados, ou adorar múltiplas contas para escapar à vigilância dos pais. 

THE PEOPLE DO NOT YEARN FOR AUTOMATION: Certeiro. O sonho húmido dos proponentes da IA em tudo esbarra com uma realidade muito óbvia - nem tudo é automatizável numa sociedade, nem é desejável que tudo seja automatizável: "Anyone who’s actually ever run a database knows this. At some point, the database stops matching reality. At that point, we usually end up tweaking the database, not the world. But the AI industry has fully lost sight of this, because AI thrives on data. It’s just software, after all. And so the ask is for more and more of us to conform our lives to the database, not the other way around.". 

El auge de los "maximalistas del silencio": apagar las notificaciones 24/7 ya no es de maleducados, es el nuevo autocuidado tecnológico: Lamento, mas recusar estar sempre disponível e atento a qualquer pedido e notificação não é má educação. Precisamente o oposto, cada vez mais sinto como de extrema rudeza a interrupção imediatista trazida pela constante barragem de pedidos e notificações. Desligá-las não significa recusar interagir com o mundo, ou preguiça, é um modo de controle da nossa sanidade mental num mundo de constantes solicitações. Reservemos as interrupções para quando é realmente importante. 

How Project Maven taught the military to love AI: Um mergulho a fundo na forma como a IA ajuda a despersonalizar o combate, com as óbvias consequências de perda de sensibilidade e responsabilidade. 

Canonical lays out a plan for AI in Ubuntu Linux: Esta é inesperada, dado que a comunidade que sustenta o Linux tem uma certa aversão à IA generativa, pelo menos na forma como as grandes empresas a estão a querer impor. Vamos ver como é que isto se irá desenrolar. 

The Art of Computers | Apple at 50: Foi uma aposta ganha, diria. Grande parte da relevância cultural e, atrevo-me a dizer, mística da Apple é o ter apostado nos artistas e criadores. Não só pelo cuidado na estética e design, mas também como ferramenta.

It runs Doom: AI chatbot edition: Vá, sejamos honestos. O que é que ainda não corre Doom?

Hacer scroll, no comentar y cerrar la app: por qué el usuario silencioso es el gran ganador de las redes sociales: Certíssimo. Porque não vale a pena interagir em redes sociais, sendo como são um palco privilegiado para trolls, descontentes, idiotas chapados, vigaristas e pessoas que estão de mal com a vida. A internet como ágora, espaço de discussão, morreu com o disparo nas redes sociais.


DC Comics House ad for Amethyst: Princess of Gemworld (1982): A personagem é menos interessante do que a promessa. 

Worried About Teens Today? So Were Adults in the 1920s: Apreciei particularmente os perigos de ter jovens desocupados a fazer não se sabe bem o quê, como efeitos perniciosos da introdução da jornada de trabalho de oito horas e o combate ao trabalho infantil. 

Saramago ou o Cânone como Currículo: Certeira, esta crónica. A nossa insistência na leitura obrigatória de alguns autores como parte do currículo da escolaridade obrigatória não se deve a uma genuína vontade de preservar a sua memória e dar a conhecer a sua obra às novas gerações, mas a uma mais serôdia vontade de marcar leituras. Não se incentiva a ler para cultivar o gosto, mas sim para se poder afirmar que se leu. E eu, confesso, não conheço melhor maneira de destruir o gosto pela leitura do que obrigar a ler livros específicos para em seguida testar conhecimentos em provas e testes. Já agora, confessem lá, leram mesmo os livros obrigatórios que tinham de ler no secundário, ou leram as versões resumidas para estudar, porque sabiam que o que importava era responder às perguntas dos professores? A crónica vai mais longe, e mostra como é que noutros países se lida com isto. Sim, há leitura obrigatória (o que faz sentido). Não, não tem de ser obrigatoriamente o autor X ou Y, lê-se de uma lista de clássicos essenciais. 

Instead of Losing Democratic Elections, What If We Just Stopped Having Them Altogether?: O texto  é absurdamente irónico. O problema, é que há por aí muito boa gente a querer mesmo propor isto, a afirmar que a democracia representativa clássica é ineficiente e que precisa de ser "modernizada" para o século XXI. 

Millionaire Big Game Hunter Trampled to Death by Elephants: Menos um milionário, menos uma ameaça para a natureza. Não vejo aqui grande perda para a humanidade. 

Ukrainian instructors now teaching Germany’s army how to fight: Como não poderia deixar de ser, é o que faz sentido. Os militares ucranianos distinguem-se pela sua argúcia e capacidade para enfrentar com sucesso um inimigo mais poderoso. O front ucraniano é um viveiro mortífero de novas estratégias e armas, com especial destaque para drones e soluções robotizadas. Faz todo o sentido que a defesa europeia aprenda e incorpore as lições sangrentas que esta guerra está a ensinar. 

El café no solo te despierta: la ciencia apunta ahora que también mejora el ánimo (incluso descafeinado): Adoro quando a ciência confirma o que o meu corpo já sabe. 

‘The damage is done’: global oil crisis has changed fossil fuel industry for ever, IEA chief says: Escrever direito por linhas tortas, será? A corrente (e estúpida) aventura trumpista no Irão, com a disrupção tremenda nos fluxos comerciais de petróleo com tremendos impactos na ecnomomia global (e lucros astronómicos para as petrolíferas, que isto das guerras é sempre uma oportunidade de megócio), poderá ser o que irá, finalmente, despertar para a necessidade de acelerar a transição energética? 

Abril: Passei este 25 de abril fechado em casa, ou engripado ou com covid (nos dias de hoje, vale tudo). Mas partilho desta sensação. Os media descartaram estas manifestações públicas como rodapé, as redes sociais tradicionais idem. Onde reparei que a Avenida da Liberdade se tinha enchido, e bem cheia, foi no fediverso, através das partilhas de muitos que foram para lá, e mostraram que nos dias do resvalar do extremismo de direita e nocivos pacotes laborais, as pessoas não estão desatentas. 

sexta-feira, 12 de junho de 2026

Backrooms

Provavelmente a sensação mais estranha deste filme foi chegar ao final e aperceber-me que o tinha visto numa sala anódina, vazia, só com um espetador. E sair do cinema para me deparar com a estética de centro comercial que inspira as backrooms. Se isto fosse em amarelo, sentir-me-ia como tendo caído por entre os interstícios da realidade:

O filme explora as estéticas que são bem conhecidas pelos frequentadores dos lados mais underground das redes sociais - backrooms, vaporwave, nostalgia dos anos 90, com alguns recortes de dreamcore e tiktok far lands. Se estes termos vos são desconhecidos, este filme vai-vos parecer uma monumental seca, um filme de terror muito simples que passa a maior parte do tempo a levar-nos para recantos estranhos e levemente surreais. Se estiverem dentro destes temas, a sessão é passada em busca do manancial de referências visuais a estas estéticas digitais, como um imenso e interminável meme. 

Backrooms traz a estética de arrepio luminoso e surreal destas vanguardas visuais das redes sociais para o grande ecrã, e desenrola-se tal como aqueles vídeos curtos que nos caem nos feeds quando a noite já vai profunda e o nosso doomscrolling para combater o tédio e o cansaço que não nos deixa dormir deixa o algoritmo sugerir-nos vídeos verdadeiramente estranhos. Visões inquietantes de bem iluminadas anónimas arquiteturas interiores intermináveis que, ao olhar mais atento, não fazem sentido, uma extrapolação de iluminação florescente do conceito de não-lugar. Imagética utópica em tons sépia intrigante pela sua frieza. Ou vídeos que são uma colisão expressiva de cores e efeitos estroboscópicos, um assalto aos sentidos sem qualquer lógica. E, nalguns, criaturas que oscilam entre o horror visceral e uma normalidade que depressa desaba perante o olhar mais atento. 

Não sendo as estéticas prevalentes entre os feeds que alimentam o doomscrolling dos normies, têm mostrado que o vídeo nas redes sociais pode também ser espaço de experimentação crua, intrigando precisamente pela forma como desconstroem o sentido. 

É algo que funciona muito bem nos limites temporais dos vídeos curtos das redes sociais. Tenho visto alguns mesmo muito bons. A questão que esta longa metragem coloca é se a estética tem a capacidade de ser ampliada para as necessidades narrativas do cinema. E aí, saí da sala com as minhas dúvidas.

Como sequência de cenas estranhas e inquietantes, Backrooms funciona tal e qual como a estética de onde parte. O problema está na necessidade de lógicas narrativas do cinema clássico, de motivação para as ações da história e dos personagens, que não se coaduna com a lógica memética da sua base. Aqui o filme acaba por se tornar mais uma espécie de misto de horror psicológico com filme de monstros, mas não muito convincente. A nova estética da internet colide com a tradição narrativa do grande ecrã, e apesar das intenções, este não é o filme que faz a ponte com sucesso entre estes dois mundos visuais.

Os momentos mais arrepiantes do filme são precisamente aqueles onde menos acontece, onde o olhar da câmara se perde na imensidão labiríntica dos espaços modernistas interiores de cores quentes e iluminadas com luzes fluorescentes que rebrilham. Quando há o diálogo entre personagens, ou os monstros se revelam, perde-se o brilho memético.

Se perceberem as referências da cultura visual digital que forma a base deste filme, vão apreciá-lo, apesar do sentimento de alongamento excessivo de algo que é na sua essência uma longa colagem de memes.  Se não as conhecem, poderão achar intrigante como variante do terror clássico, onde o sentimento de estranheza e os maiores arrepios de medo vêm não das criaturas, mas do vazio dos espaços banais.

Atualizando, alguns dias depois de ter escrito este texto:

O curioso é que não tendo sentido este filme como uma obra fenomenal, a verdade é que persiste na minha memória. A não linearidade da história mostra-se uma forma intrigante de transferir a lógica de narrativa curta, vinda da internet e das linguagens pensadas para responder aos fluxos de doomscrolling. É profundamente pós-modernista, quer o realizador tenha lido a fundo Baudrillard, quer não. 

Persiste especialmente a sensação residual de estranheza dos backrooms. Há aqui algo a observar. O espaço do medo deixou de ser a noite, tão milenar; para trás fica a escuridão gótica de decadência que nos foi legado pelo século XIX; o terror urbano de estéticas de colapso social com zombies ou outras criaturas deixa de ser o fator que assusta. O novo horror é o vazio da arquitetura interior, transmutado nestes espaços que só se percebe que desafiam a lógica ao segundo olhar, cheios de brilhante luz artificial e artefactos banais que ganham um contexto inquietante. O novo inferno é o centro comercial vazio, o prédio de escritórios anódino, as infindas salas de espera da medicina, a uniformidade da arquitetura suburbana. Ou seja, a modernidade global, advinda da uniformização da cultura corporate. Os backrooms são a versão moderna da burocracia kafkiana, vastos desertos de realidade paralela cuja banalidade sedutora é o seu elemento mais assustador.

Um último pormenor de nota. Tem-se discutido a surpresa que é o sucesso deste filme, contrastando com o insucesso de propriedades intelectuais já estabelecidas, cujas novas estreias cinematográficas não atingem o sucesso esperado. Do meu ponto de vista, isto é um excelente sinal. A aposta recursiva de repescagem de ideias, personagens e estéticas que já foram de vanguarda mas agora são constantes repetições está a mostrar os seus limites. A paciência dos públicos tem o seu limite, e o cansaço de ver, rever e rever novamente as mesmas personagens e histórias de sempre está a revelar-se. Isso permite que, finalmente, as novas ideias que estavam sufocadas por um olhar mediático seduzido pelo marketing corporate consigam conquistar o seu merecido espaço. 

É o que faz sentido, cada época ter os seus ícones culturais.  Não faz sentido cultural este constante remisturar de personagens e narrativas nascidas nos anos 80, nem o argumento de nostalgia é suficiente para defender isto. Para perceberem o ridículo que é ainda estarmos a celebrar Star Wars ou outras propriedades intelectuais como novidade de vanguarda, imaginem que estaríamos a fazer o mesmo com personagens como Zorro, RinTinTin ou o Mascarilha. Até foi tentado, as maquinarias das indústrias culturais tentaram estes relançamentos, mas sem sucesso. 

Backrooms, e outras obras similares, mostram que a renovação de ideias na cultura pop está, finalmente, a tornar-se visível para o grande público. 


quinta-feira, 11 de junho de 2026

README: A Bookish History of Computing from Electronic Brains to Everything Machines


W. Patrick McCray (2025). README: A Bookish History of Computing from Electronic Brains to Everything Machines. Cambridge: MIT Press.

Pode parecer contra-intuitivo, olhar para a história da computação sobre a perspetiva dos livros. Afinal, computação é tecnologia, intersectada com impactos sociais, e temos o hábito de pensar mais nos elementos tecnológicos do que na literatura. O que McCray demonstra é o oposto. O venerável livro, como objeto e como meio de arquivo e divulgação de informação, tem sido um companheiro fundamental da evolução da computação. 

A grande razão é a nossa sede de conhecimento, e mesmo nos dias em que o livro como objeto físico se dissolve no digital, continua a ser o meio primordial e privilegiado para concentrar e sintetizar informação, mesmo em campos tecnológicos onde sabemos que o tempo que medeia entre escrever, editar e publicar um livro pode significar que quando chega aos leitores, já está desatualizado sobre a vanguarda da tecnologia que aborda. Mas há algo mais profundo em jogo - primeiro, o livro enquanto analista de grandes tendências. Da minha experiência a ler antigos livros de futurismo tecnológico, é muito interessante perceber que se as tecnologias mudam, a grande novidade futurista de hoje está amanhã obsoleta e esquecida, as tendências estruturais onde as melhores análises tecnológicas se inserem parecem estar continuamente presentes. Se antigamente se falava de computadores inteligentes com misto de deslumbre e preocupação, hoje   fazemos exatamente o mesmo, trocando computadores por inteligência artificial, dando um exemplo muito óbvio de ideias estruturais que se mantém apesar da forma como a tecnologia evolui.

McCray constrói a sua análise bibliográfica de forma cronológica, olhando para as várias etapas da evolução da computação através de obras-charneira que lhes foram contemporâneas. As surpresas começam logo no princípio, no final dos anos 40, tempo do surgimento dos primeiros livros que procuravam explicar o que era o computador para o público em geral. McCray olha em particular para um livro que na ânsia de procurar uma metáfora acessível  que facilitasse a compreensão rápida da essência do mundo da computação, nos legou uma ideia que se tornou perene. O livro foi o Giant Brains de Edmund Berkeley, e não é difícil fazer o salto conceptual  de ter sido a obra que estabeleceu na consciência global uma metáfora tão pervasiva que se hoje pedirem a um qualquer gerador de imagens por IA que mostre como é a IA, sai de certeza uma imagem de uma espécie de andróide de cérebro digital.

Este livro leva-nos a redescobrir outros autores e pensadores fundamentais. Norbert Wiener, que na sua visão de cibernética teve a preocupação de temer o potencial desumanizador da sua visão tecnológica nas mãos de tecnocratas. Joseph Weizenbaum, talvez o primeiro grande crítico da tendência humana para confiar em excesso e atribuir uma falsa humanidade ao output dos computadores. Ted Nelson, o controverso ícone contra-cultural que viu no computador um extraordinário elemento capacitador e libertador do potencial humano.

Mergulha também na importância dos manuais técnicos, coligindo o conhecimento essencial sobre os novos campos da tecnologia, e tornando-se obras de charneira ao permitir disseminação e acesso ao conhecimento. Toca no desenvolvimento da tecnologia de representação textual em ecrãs com o desenvolvimento do LaTex. 

Termina com uma nota algo amarga. Todo o livro foca-se em obras que descreveram ou alicerçaram a revolução computacional, quer entre a visão explicativa, crítica ou pedagógica.  Termina com uma ideia de colapso ideológico, descrevendo na perfeição a bolha da internet nos anos 90, rodeada do hype de autores como George Gilder ou Esther Dyson, que propalaram uma visão de otimismo comercial que colapsou quando a realidade económica não correspondeu às visões de prosperidade digital imediata.

Se  o livro termina aí, não deixa de se questionar sobre o corrente momento, com o impacto das tecnologias de Inteligência Artificial, com aquele sentimento de medo e deslumbre com algoritmos aparentemente capazes de simular consciência e sentido textual, recordando-nos que a história da construção automática de textos antecede a IA e das problemáticas de alucinações, plágio e fraude trazidas pela geração de texto.

Como bibliófilo que sou, não consigo terminar esta leitura sem a perceber como um elogio ao papel do vetusto, mas sempre eficaz, livro. Quer como meio de transmissão de conhecimento, mantendo-se relevante e essencial mesmo na nossa contemporaneidade onde há tantas outras formas de o fazer. Quer, também, como elemento de prestígio, inscrevendo a computação na profunda tradição simbólica do livro.

terça-feira, 9 de junho de 2026

Astra Lost in Space


Kenta Shinohara (2025). Astra Lost in Space, Vol. 1. Palmela: Devir.

Peguei neste livro por curiosidade, dado ser rara a edição por cá de mangá focado na ficção científica. Não esperava muito dele, é shonen e por isso não seria de almejar histórias complexas e intrigantes. Não há nada de errado com isso, claro, seria ridículo da minha parte desprezar este género pela sua simplicidade, quando é apenas uma questão de segmentação de leitores, e este não é o meu segmento. Apesar disso, arrisquei, mais que não seja para conhecer um pouco de FC leve que escapa ao ónus dos mechas.

O livro não desiludiu. A história é obviamente simples. Estamos num futuro onde a humanidade se espalha pelo espaço, graças a naves capazes de velocidades superlumínicas (mas não perguntem o "como", vai além do âmbito do género). Um grupo de adolescentes parte para outro planeta, onde deveria ficar durante uma semana num programa escolar de sobrevivência na natureza. Mas, na superfície do planeta, são engolidos por uma misteriosa esfera que os deposita na órbita de outro planeta, convenientemente próximos de uma nave abandonada. Sobrevivendo a este primeiro ordálio, os adolescentes descobrem-se a uma distância inusitada do seu planeta, demasiado longínqua para uma viagem de regresso. Terão de se unir, cooperar e encontrar soluções para sobreviver, aproveitando os recursos planetários que encontrarão pelo caminho.

A história é clássica, misturando FC pura com o típico enredo de grupo de adolescentes que tem de aprender a conhecer-se. O foco principal está nas relações e nas histórias de cada um dos personagens, mas o lado de exploração de planetas alienígenas e quase-Hard SF está bem montado. Sem ser uma excelente leitura, acaba por se tornar interessante e divertida.

domingo, 7 de junho de 2026

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Science Fiction Monthly #8 (1974) - Interior Artwork by Mike Trim: Naves espaciais à antiga. 

Dark Horse, The Latest Comics Publisher To Do Marvel's Job For Them: Diga-se, contrariando o tom do artigo, que até faz muito sentido que seja uma editora da concorrência a reeditar o material mais clássico e de nicho da Marvel. Recordem-se que a Marvel foi adquirida pela Disney, ou seja, deixou de ser uma real editora para se tornar uma plantação de conteúdos. Serve para alimentar o dilúvio de clones e sequelas dos mesmos filmes que sempre, que se tornou a especialidade cultural da Disney. 

Lançamento: Ficção científica capitalista, Michel Nieva: Diria que na sua génese, a FC é um dos géneros literários mais capitalistas, com a sua base de literatura de entretenimento de massas. Algo que se perdeu com a evolução dos tempos, dos gostos e dos media - hoje, na era da distração via streams de vídeos curtos, esquecemo-nos que ler contos em revistas era o entretenimento considerado de baixa qualidade doutros tempos. O livro, obviamente, não será sobre esta relação, mas sim sobre a relação entre o ideário e iconografias capitalistas no imaginário da FC. 

Hollywood’s World Map of California: Ou, o mundo num só estado americano, com o registo das zonas usadas nas filmagens para simular outras partidas do mundo. 

Short Story Review: Richard Wilson’s “Strike” (1953): Ficção científica pró-laboral e sindicalista, vinda dos pulps americanos, é algo deveras inesperado. 

I Survived A Year Inside Stephen King’s Archives: Mergulhar nos arquivos daquele que é sem sombra de dúvida um dos colossos da literatura de terror, para perceber como é que é capaz de ser tão excelente na forma como nos choca. 

What It’s Like to Live With an Experimental Brain Implant: Os saltos da tecnologia de interfaces cérebro-máquina, que abrem novas fronteiras para a qualidade de vida de pessoas com doenças ou traumas incapacitantes. 

Power imbalance: Apesar de não ter ficado tão impressionado com o primeiro livro desta nova série dos autores de The Expanse, tenho esta leitura já na calha. Talvez a tenha desvalorizado, procurando uma variante da série de sucesso, enquanto os autores estão a apostar numa vertente ficcional mais ambiciosa e filosófica. 

All The Science Fiction And Fantasy Novels Reimagining China’s Past May Be Doing Weird Political Things Today: Controlar as narrativas sobre o passado, como forma de controlar as visões do presente e futuro.

Wait, The Simpsons Is Cutting Back on the Opening Couch Gags?!?: Bem, mas a pergunta que se impõem, é como é que os Simpsons ainda existem. Já perderam todo o gume cultural, são pouco mais do que uma carcaça vazia tipo zombie. Ok, percebi. É isso que anima os gestores dos conglomerados de entretenimento, o repetir à exaustão o vazio cultural.


Cover art for Neil Postman’s Amusing Ourselves to Death!: Um clássico actual. 

Google Makes Image Generation a Little Creepier With Personal Intelligence: A sério, sinceramente, digam-me lá que é que se anima perante a possibilidade de gerar fotos falsas a partir de imagens reais? "Um problema que ninguém sabia que tinha", refere certeiro o artigo. 

Mientras Europa debate sobre el coche eléctrico, China está ya en el año 3100: acaba de probar su "camión volador": Um drone de transporte de cargas capaz de levar o mesmo que um avião médio, sem necessitar de piloto. 

Companies Just Learned a Brutal Lesson About Training AI to Do Human Jobs: Ou, os humanos não são idiotas, e sabem que não há razão em colaborar com processos de automatização que são expressamente concebidos para destruir empregos. 

EU Is Rolling Out an Online Age Verification App That Could Become the Global Blueprint: Confesso que me é impossível ver isto com bons olhos. Apesar de confiar na UE e suas instituições, não consigo perceber como é que uma sociedade democrática impõe medidas que são um tremendo rombo na privacidade individual. Ainda por cima, de forma inútil. Implementar este tipo de controle de acesso a redes sociais não vai resolver os problemas que elas causam. Gritamos em coro que há que proteger as criancinhas (e eu, como professor que realmente lida com crianças, compreendo a necessidade de as defender) mas não se ataca a capacidade que as redes sociais têm de disseminar discursos de ódio, misoginia, violência e desinformação. Aquilo que, aliás, é a base do seu lucrativo modelo de negócio, enriquecendo bilionários enquanto empobrecem a sociedade. Afastar as crianças deste charco fétido é boa ideia, mas não tira o cheiro a esgoto que paira no ar. E não acham um pouco ridículo todo este movimento de até uma certa idade, preservar ao máximo a inocência ingénua das crianças, mas deixar que se atirem de chapa para chafurdar no lamaçal assim que sejam mais velhas? 

No one’s sure if synthetic mirror life will kill us all: Fiquemos só pelo conceito - vida sintética que nos espelha. A ciência, a ultrapassar a ficção. 

Ukraine’s military robot surge aims to offset drone risks to humans: A guerra do futuro trava-se nos campos de morte ucranianos, e as linhas estão traçadas - robótica e automatização em trincheiras saturadas de tecnologia mortífera. 

The Problem That Built an Industry: Para quem acha o tema da infraestrutura fascinante, eis um docinho - um olhar para a história do desenvolvimento dos sistemas de reserva de voo, um exemplo de automação altamente benéfica (mesmo que as linhas aéreas se andem a esforçar ao máximo por tratar os passageiros como gado a ser ordenhado), e que antecede, historicamente, a revolução da democratização da computação. Para os que usam a TAP, neste artigo percebem porque é que no email dos bilhetes está sempre referido Amadeus - é o nome do sistema usado pelas associações de linhas aéreas europeias e asiáticas. 

Bee Write Back, a portable jornal: Confesso que tenho um certo fascínio por este tipo de gadgets DIY. 

On Creativity in Digital Art: Como definir a criatividade digital, especialmente na era da IA generativa? Por um lado, o output digital parece-nos criativo na sua diversidade, desde os grafismos generativos às imagens geradas - podemos não gostar, ou perceber que é slop e de baixa qualidade, mas é um indicador de criatividade. O que lhes falta, é a capacidade de ir mais longe. Replicam e remisturam de forma exímia o que já existe, as estéticas que já foram exploradas, experimentadas e intuídas pelos criadores humanos. Mas não conseguem ir além dessa fronteira: “The program does not develop new game-states: it plays the legal moves in the current game. It says ‘Let me tell you about my world’, but rich though that world may be, the telling does not result in any further enrichment. We thus have no reason to say that the machine has any interest in the one feature I have chosen to regard as fundamental to human art-making — the continuous development of the internal representation of the world.”. 

How robots learn: A brief, contemporary history: Um olhar para os projetos que investigam formas de dotar os robots de capacidades de aprendizagem, para uma interação com o mundo natural que seja baseada na experiência e não na análise de conjuntos de regras limitativas pré-estabelecidas.  

There Are Signs of a Massive AI Backlash: A sério que não estavam à espera disto? Pegam numa tecnologia impressionante e usam-na para amplificar os piores vícios do capitalismo, afirmando aos quatro ventos que com a IA as empresas vão poder livrar-se de trabalhadores, incentivando a degeneração cultural do AI slop, ou a displicência da educação em que os trabalhos de aprendizagem são delegados para a IA. Esperavam que as pessoas aceitassem, asininas, este estado das coisas que nos estão a impor? 

Pluralistic: A Pascal's Wager for AI Doomers (16 Apr 2026): Cory Doctorow é brilhante, mas nos últimos tempos está a sê-lo com uma força enorme. Este é um grande desmontar do mito infundado dos medos do emergir da AGI, algo que não está nem perto nem será exequível. E recorda-nos que não vale a pena termos medo da hipótese de futuras entidades artificiais que nos venham dar cabo da vida. É que já vivemos num mundo onde existem entidades artificiais responsáveis por imensos problemas sociais, económicos, laborais, éticos e ambientais (lista não exaustiva), que nos estão a tramar a vida: "the artificial lifeforms that worry me aren't hypothetical – they're here today, amongst us, endangering the very survival of our species. These artificial lifeforms are called "limited liability corporations" and they are a concrete, imminent risk to the human race". 

The End Of The Internet As We Know It: O tremendo desafio trazido pelo uso de IA como forma de encontrar vulnerabilidades nos softwares que usamos no dia a dia. 

 The Tyranny of AI Everywhere: A leitura é bem humorada, mas resume de forma excecional toda a frustração com este patético deslumbre com a automatização e a IA, tantas vezes incorporada sem critério, necessidade, ou sequer o mais elementar bom senso. 

Google’s latest AI update lets robots understand, plan, and act in real environments: Novos modelos de IA para robótica aplicada. 

Why having “humans in the loop” in an AI war is an illusion: Os algoritmos irão sempre reagir a velocidades superiores às humanas, e os operadores depressa cedem à sugestão algorítmica (é um efeito psicológico bem conhecido). No entanto, a solução proposta nesta reflexão é muito pior, o desenvolvimento de sistemas de decisão interna que tornem os robots militares ainda mais autónomos nas decisões de ataque. 

Despidas pela IA: a internet como espaço de perpetuação machista: As implicações pessoais, legais e sociais da vitimização da mulher através do uso de IA para gerar imagens falas de cariz sexual. É trivial fazê-lo, hoje, o impacto psicológico é tremendo, a impunidade de quem faz isto ou desenvolve aplicações que o fazem é total, e estamos a chegar ao cúmulo das vítimas deste tipo de crime terem de provar que as imagens falsas são, de facto, falsas. 

ICE’s Smart Glasses Are a Worst-Case Scenario: Facínoras trauliteiros com acesso a tecnologias que fazem letra morta da privacidade. O que é que poderá correr mal? 

AI company deletes the 3 million OKCupid photos it used for facial recognition training: É sempre interessante ver estas empresas tão contritas e cumpridoras, depois de serem apanhadas. O mal está feito, os dados foram utilizados de forma abusiva.

World models: Modelos com conhecimento do mundo, um dos próximos passos do desenvolvimento da IA.

Meta will record employees’ keystrokes and use it to train its AI models: Sou só eu a achar isto incrivelmente invasivo e abusador, no que respeita à privacidade individual? Claro que nestas coisas, o argumento neoliberal é que o trabalhador não tem direito à privacidade do que faz no contexto laboral face ao patrão.

LLMs+: Uma proposta intrigante, fazer evoluir os LLMs clássicos com os métodos generativos que se usam para imagem e vídeo.

Victim of his imagination. Roger Dean: Medos. 

EEUU intentó arrasar la maquinaria de guerra iraní a base de bombardeos. Un mes después, Irán ya la está restaurando: Pequenos detalhes que mostram o quão inútil está a ser a guerra no Irão, e como a maior superpotência global pode ser travada com uma surpreendente facilidade. E é bem feito, apesar de achar que nesta guerra lançada por genocidas israelitas apoiados com o poder devastador dos facho-patetas americanos contra uma teocracia obscurantista, não há lado certo da trincheira. 

New undersea cable cutter risks Internet’s backbone: Tesouras como armas de elevado impacto. Bem, é algo um pouco mais complicado que isso, mas percebem a metáfora. 

Durante décadas nos hemos contado que el marisco no siente dolor al ser hervido. Nos equivocábamos gravemente: Confesso que nunca consegui cozinhar marisco vivo. Sempre me pareceu errado. Por incrível que pareça, os meus parcos dotes culinários incluem a capacidade de fazer uma saborosa sapateira (truque, que aprendi com a minha mãe: uso camarão e pickles para complementar o recheio, nada daquelas coisas desenxabidas apenas com as entranhas do bicho, pão ralado e ovo na maionese). Quando vou à Ericeira comprá-las vivas, deixo-as horas no congelador. E ultimamente até prefiro comprar já congeladas. A ideia de colocar um ser vivo dentro de um tacho de água a ferver sempre me arrepelou. A menos que nos tornemos totalmente vegetarianos, não podemos escapar à maldição natural de ter de matar o que comemos. Pelo menos, que o façamos de forma humana, sem torturas ou dor desnecessária. 

History Is Running Backwards: Compreendo bem este sentimento. Como adolescente dos anos 90, sempre vi o século XXI como um inevitável desabrochar do progresso científico e social, uma era de desenvolvimento, de paz global, de humanismo e perda de importância das religiões. Estamos em 2026 e acontece o oposto - um peso cada vez maior dos "ismos" mais conservadores e antiquados, a rejeição da ciência mesmo face às mais elementares evidências da sua importância vital, o regresso à geopolítica da violência e competição abandonado a cooperação global. E é melhor nem falar da forma como estamos a correr em direção à catástrofe ambiental. Note-se que ser conservador não é necessariamente mau (não estou, obviamente, a falar dos exageros idiotas dos zelotas metediços que vivem a sua vida cheios de restrições e frustrações, e querem que todos os outros sejam sujeitos ao mesmo ordálio autoimposto). É uma das bases essenciais de uma sociedade saudável, mas quando deixa de funcionar como base e se torna numa finalidade, tudo piora: "tradition is important, but I don’t think of it as something we need to go back to. Rather, I see it as something that each generation pushes forward". 

Mercados de previsão e as apostas até ao fim do mundo: Vale tudo no mundo das apostas online, até mesmo tentar fazer um trocos com o pior da miséria humana, as catástrofes ambientais ou os jogos sangrentos geopolíticos. 

The Aides Keeping the President in the Dark: Isto parece saído de uma ficção distópica, perceber que o líder de uma superpotência recebe informação muito filtrada e num tom simplista, em parte porque os próprios membros do seu governo não confiam nas capacididades emocionais e cognitivas do seu líder. 

The 1960s Art School Experiment That Redefined Creativity: Mais do que a visão da criatividade como um processo que implica resolução de problemas, recorda que criar não se resume a seguir processos formais e estéticas espartilhadas, vai mais fundo. Cruza intuição com capacidade de colocar questões sobre os problemas a resolver. 

U.S. Air Force Confirms A-10 Thunderbolt II Service Life Extended to 2030: O canhão com asas ganha uma nova vida. 

Some Companies You Probably Love Are Taking Trademarks Too Far: Os exageros dos abusos da legislação sobre propriedade intelectual.

Big Oil Breaks Everything: Essencialmente, isto - " didn’t fully comprehend that there could be a force on this planet so steeped in greed and power that it would sacrifice the earth and its inhabitants for its own narrow interests. But there is, and it’s Big Oil". Negacionismo climático, devastação ambiental, e até a enorme utilidade de guerras para lhes aumentar os lucros.