sábado, 10 de janeiro de 2026
quinta-feira, 8 de janeiro de 2026
Autocracy, Inc.
Anne Applebaum (2024). Autocracy, Inc. Londres: Allen Lane.
Se se presta atenção às voltas do mundo, às questões da geopolítica global e aos contextos por detrás das notícias do dia a dia, é difícil não se sentir que vivemos em guerra. Uma guerra de múltiplas vertentes. Umas, como se vive na Ucrânia e médio oriente, de combate sangrento e destrutivo. Outras, como a que estamos agora a sentir na europa, de desafio às defesas, de adversários que tentam erodir a confiança e testar as defesas, usando dos dronos aos ciberataques e sabotagem. Mas o maior palco da guerra global é informacional, um combate pelo espaço de ideias e controle de percepções que tem um alvo nítido: o liberalismo democrático ocidental, a legalidade e os direitos humanos.
Uma guerra que se faz de teias de influência, com muitos nos países visados a ser coniventes para ganhos políticos ou financeiros. Assenta na desinformação transmitida por redes sociais e media clássicos, e visa acima de tudo proteger os interesses das autocracias, garantir-lhes liberdade de atuação e ausência de críticas, reprimindo os seus cidadãos por meios mais elegantes e eificientes do que os massacres do passado. Tem como efeito colateral primário a erosão da confiança global na democracia e liberalismo social, o que é muito conveniente aos ditatores e estados autocráticos.
Há um pormenor muito incisivo neste livro - os autocratas de hoje não tentam disfarçar a opressão, corrupção, nepotismo e violência dos seus regimes repressivos por detrás de propagandas utópicas. Pelo contrário, assumem isso, usando o seu domínio do espaço informacional para denegrir e desinformar, mostrando que as democracias ocidentais são corruptas e decadentes, transmintindo a imagem falsa mas eficaz que mais vale o governo de um homem forte do que a decadência democrática. Os ingredientes dessa desinformação alicerçam-se no explorar do nacionalismo, sentimento anti-lgbt, racismo, masculinismo tóxico e exacerbar de uns supostos valores tradicionais que são na prática uma máscara mal feita para ocultar os piores abusos. Os espaços digitais amplificam e facilitam estas campanhas, que funcionam como um ruído contínuo que distrai atenções enquanto oa autocratas se asseguram do poder nas suas cleptocracias, enquanto as democracias se esforçam por contemporizar e lidar com o dilúvio tóxico.
Este não é um livro animador, apesar de terminar com uma nota de esperança, mostrando como até nos regimes mais repressivos como o russo ou o chinês há pessoas corajosas que procuram lutar contra este estado de coisas. Mas as barreiras são muitas, o ruído elevado, e sente-se no dia a dia um contínuo resvalar em direção aos obscurantismos contra os quais se ergueram as sociedades democráticas.
terça-feira, 6 de janeiro de 2026
Corpo de Cristo
Bea Lema (2025). Corpo de Cristo. Lisboa: Iguana.
Cruzei-me com este livro na exposição que lhe foi dedicada no festival Amadora BD e, confesso, fiquei com a impressão errada que todo o livro teria sido bordado e não desenhado. Foi esse o primeiro ponto de atração desta obra, a curiosidade de um inusitado tipo de ilustração. O outro ponto estava na forma como a iconografia naif da religiosidade espanhola surgia entre os bordados. Pensei que se tratasse de um livro sobre tradições e costumes, mas, novamente, estava engando.
As tradições e os costumes fazem parte do substrato deste livro, mas o seu grande tema é a coexistência com doenças mentais. Numa história autobiográfica tocante, a autora conta o que foi crescer e viver com os transtornos e delíríos da sua mãe, cuja esquizofrenia foi despoletada por uma combinação de traumas do passado e inadaptação no regresso a Espanha após uma temporada como emigrada. Há uma sublimação da tradição, interpretada pelos bordados da ilustração, também uma referência a um dos talentos da sua mãe. O estilo gráfico é fortemente pessoal, a tocar no naif, embora com um rigor de composição e cor que se equilibra bem com a expressão do traço. As pranchas bordadas são a grande surpresa do livro, por vezes a recordar bordados infantis, outras complexos ex-votos cheios de referências tradicionais.
Um livro que enche o olhar, e desafia a meditar no cruzamento entre a fragilidade da mente humana, as crenças arreigadas das tradições e os traumas de um passado de pobreza que, na Galiza tal como por cá, caracterizou o nosso passado recente.
domingo, 4 de janeiro de 2026
URL
unstable-molecules: Mistérios.
Has 21st Century Culture Lost Its Creativity?: Sim, de todo. É só remakes, reboots, remexer o que já existe, sequelas e imitações, o triunfo do vira o disco e toca o mesmo. A cultura pop como indústria conservadora degenerou numa enorme estagnação cultural, onde se repetem ícones e modelos com mais de cinquenta anos, enquanto praticamente nada de novo chega aos meios populares.
Christopher Nolan Explains Why He Wanted to Make ‘The Odyssey’: Suspeito que o clássico e milenar texto tenha encontrado neste realizador alguém à altura de o levar ao cinema. Sem dúvida que os peplum são divertidos, de tão maus que são, a iconografia de Ray Harryhausen marcante, e a versão da Ilíada por Oliver Stone um bocejo. Vamos ver como se sairá Nolan nestes textos estruturais da nossa herança cultural.
Classics of Science Fiction: Rocket Man: Bradbury sempre foi um autor atípico na Ficção Científica, mais preocupado com a poesia das pequenas coisas do que com as especulações futuristas. Legou-nos uma obra tocante, cheia de deslumbres.
The Enduring Influence of the Movie Seven Samurai: Dos westerns clássicos a Star Wars, o filme marcante de Kurosawa tornou-se uma referência central.
Corpo de Cristo: Uma BD bordada. Cruzei-me com este livro na sua exposição de pranchas originais no Amadora BD, e surpreendeu-me a estética, com bordados tradicionais a fazer a banda desenhada.
Robert Heindel’s 1969 cover art for Orion Was Rising, by Rose Palmer: Toques góticos.
Un chiringuito de Málaga tuvo la feliz idea de sacar a pasear a su robot 'Sardinator'. Hasta que se enteró la policía: Uma colisão entre robótica, mau gosto e ordenanças municipais.
Google’s NotebookLM will now do ‘deep research’: Uma adição que torna esta ferramenta ainda mais potente.
AI Could Be the Railroad of the 21st Century. Brace Yourself: Tendo em conta que o modelo económico das vias férras no início era baseado em bolhas de financiamento, há aqui sinais de cautela. No entanto, esta observação é das mais pertinentes que já li sobre IA - "The railroads changed forever the way we think and work. In Time Travel: A History, the author James Gleick suggested that the railroads so warped our sense of time and space that humankind invented the concept of time travel as a reaction to the compression of distance and the invention of time zones".
The Complicated Reality of 3D Printed Prosthetics: A impressão 3D prometia revolucionar as próteses médicas, com a promessa de meios de baixo custo. No entanto, as boas intenções esbarram com as realidades da necessidade de resistência ao desgaste, bem como a ergonomia e conforto de uso.
AI friends too cheap to meter: Destaco isto - "Consider how online radicalization happens: the combination of user agency (proactive search) and algorithmic amplification (recommending related content) leads people to weird places—to micro-cults of internet strangers with their own norms, values, and world-models. No corporate malice is necessary; the ML engineers at YouTube don’t care about users’ political opinions, nor is Steve Huffman at Reddit purposely trying to redpill its base. With a smartphone in hand, anyone can topple down a rabbithole of exotic beliefs, unnoticed and uncorrected by outsiders until it’s too late. AI companions act as echo chambers of one. They are pits of cognitive distortions: validating minor suspicions, overgeneralizing from anecdotes, always taking your side. They’re especially powerful to users who show up with a paranoid or validation-seeking bent. I like the metaphor of “folie à deux,” the phenomenon where two people reinforce each other’s psychosis. ChatGPT 4o became sycophantic because it was trained to chase the reward signal of more user thumbs-ups. Humans start down the path to delusion with our own cursor clicks, and usage-maxxing tech PMs are more than happy to clear the path."
En Microsoft tienen claro que Windows acabará siendo un sistema operativo agéntico. Los usuarios se le han echado encima: Há que justificar o dinheiro que se está a torrar na IA, e isso significa que temos de levar com IA no sistema operativo, quer queiramos quer não. Claramente, Linux é a solução para quem quer fazer computação livre dos delírios das grandes empresas. E sim, tenho a noção da lapalissada que escrevi.
Doomscrolling in the 1850s: O lixo informacional e a proliferação de enviesamento e falsidade não é um problema dos dias de hoje.
Tesla Wants to Build a Robot Army: Das patetices do Musk já andamos fartos. Destaco o artigo pela ligação que faz entre robótica e indústria automóvel, com uma lógica puramente financeira - quanto maior a robotização, maior a automação no processo de fabricação, baixando os custos de produção e aumentando margens de lucro.
The State of AI: How war will be changed forever: É inevitável, e aliás já se verifica, que a IA chegue às aplicações militares. É toda uma caixa de pandora que se abre.
The Prompt Engineer Is the Artist of Our Age: Mais uma interessante achega na discussão de se a IA pode ser uma ferramenta de criação artística. No fundo, é uma discussão acabada, já se percebeu que sim, interessa é definir o como.
In Search of the AI Bubble’s Economic Fundamentals: Mais uma análise que compara o sobreinvestimento em IA com outros momentos históricos onde o desenvolvimento de uma nova tecnologia levou a frenesis de investimento, seguidos de quedas, embora a tecnologia se tenha tornado infraestrutura essencial à sociedade.
A.I. and the Arts — I Use It. No one cares. Should You?: Vamos normalizando o uso de geradores, com uma certa displicência mas também consciência da sua real importância.
Hugging Face CEO says we’re in an ‘LLM bubble,’ not an AI bubble: Certeiro. As vertentes mais úteis da IA em termos sociais e económicos já fazem parte dos ecossistemas industriais. O problema está nos LLMs generalistas, apregoados como revolucionários, que requerem doses inauditas de dinheiro para ser desenvolvidos, e cujo impacto real fica muito aquém do desejado.
Your Laptop Isn’t Ready for LLMs. That’s About to Change: O crescer das aplicações de IA offline.
Raspberry Pi is the new home for Blockly: Diria que está no sítio certo. Poderão não ter os mesmos recursos da Google, mas o compromisso da Pi Foundation com a educação e acessibilidade é imbatível.
some black and white Jeffrey Catherine Jones artwork: Clássicos.
Mercadona crece, pero el modelo del "tendero" está muerto: España ha perdido 142.000 comercios en 10 años: Lá, como por cá - o modelo de negócio das grandes cadeias estrangula os serviços independentes de bairro.
A poucos minutos de Viseu: aldeia histórica beirã está em leilão por um valor inferior a muitos apartamentos de Lisboa: "Queres comprar uma aldeia em Viseu", pergunta-me a minha mãe logo de manhã, em rescaldo desta notícia na televisão. "Só custa um milhão e quinhentos mil euros", diz a sorrir. Bem, e porque não, só me falta um milhão e quatrocentos e noventa mil euros para fazer a compra, retorqui, comentando que é talvez um projetos de turismo rural. "Pois, é muito gira e a aldeia até tem restaurante e forno comunitário. Tem tudo, já esteve à venda várias vezes", exclama. Tudo, menos habitantes, pensei.
Uma movida por Madrid: E não é só por Madrid que se sente esta vitalidade tão ausente das terras portuguesas. Das cidades que vou conhecendo e frequentando, de Santiago a Sevilha (entre viagens de férias, deslocações Erasmus e participação em projetos Maker) sinto isso: as manhãs e os fins de tarde são sempre buliçosos e animados, e por muitos turistas que estejam nas ruas, o espanhol prevalece. Por outro lado, exceto Madrid, durante a tarde não esperem nada de animações. É nas manhãs, e nos anoiteceres, que Espanha vive. Madrid está mesmo aqui ao lado, com uma vitalidade invejável e um património cultural de respeito (mesmo para os geeks, com um museu da robótica), e só não está mais próxima devido à indesculpável ausência de ligações ferroviárias que nos liguem ao país vizinho.
Hay una generación trabajando gratis como documentalista de su propia vida: no son influencers pero actúan como si lo fueran: Na verdade, é uma tendência que sempre estve presente na vida digital, desde que a internet se começou a massificar. O porquê desta tendência é variado. Há quem almeje o sonho de se tornar influencer, outros é por escape criativo, e há aqueles que transformaram a internet no seu diário.
Profissões de antanho: o cauteleiro: "Ele há horas de sorte" é uma recordação de infância, ouvida dos cauteleiros lisboetas.
We can finally hear the long-hidden music of the Stone Age: Explorar o lado acústico da arte rupestre.
En un gesto de incalculable francesidad, Francia ha bautizado al primer cohete lanzado desde sus fronteras como "Baguette One": Leio esta notícia com um misto de divertimento e amargura. Se os franceses, em modo empresa privada que no público já dispõem dos Arianne, lançam uma baguette, e os espanhóis Miúras, nós por cá não lançamos nada. Por mim aplaudiria o lançamento de um chouriço ou outro nome tipicamente português, que significasse que por cá haveria empresas a trabalhar no desenvolvimento de tecnologias de exploração espacial.
12,000-Year-Old Artifact Depicts a Goose Having Sex With a Woman: Se leram o título e pensaram "bem, isto faz-me recordar o mito de Leda e o cisne", não estão errados. Este artefacto mostra que os nossos mitos da antiguidade clássica têm raízes muito mais antigas, ou seja, que há histórias que hoje ainda contamos que têm a sua origem na noite dos tempos. Este nem é o caso mais curioso. Recordo de ver no fabuloso filme que Herzog dedicou à arte pré-histórica um pormenor da caverna de Chauvet, com um desenho rupestre que mostrava uma mulher em cima de um touro. Arrepiou-me, pensei logo no mito grego do rapto de Europa, e em todas as iconografias de jovens a saltar por cima de touros da arte cretense. Na mais banal modernidade, os mitos milenares manifestam-se desde as eras da chamada noite dos tempos.
Los donuts son un negocio tan redondo que el uso de la marca llevaba años en disputa. Para el Supremo está claro: Agruras dos excessos da propriedade intelectual. Podem sempre chamar-lhes toros com açúcar e recheio, é geometricamente rigoroso e sem direitos de autor.
sábado, 3 de janeiro de 2026
quinta-feira, 1 de janeiro de 2026
The AI Art Magazine; Archivio
Feliz Ano Novo!
O mundo não pediu, bem sei, mas cá vai um brinquedo para o ano novo. Podem fazer o gostinho ao dedo (sem segundos sentidos), escolher três músicas diferentes (ou seja, triplo trauma auditivo), e tentem fazer com que a rolha da garrafa de champanhe salte. Cliquem aqui, sem, ou com algum, medo: https://archizer0.github.io/fan2026/
quarta-feira, 31 de dezembro de 2025
terça-feira, 30 de dezembro de 2025
Algoritmocracia
Adofo Nunes (2025). Algoritmocracia. Lisboa: D. Quixote.
Sou, por felicidade, um enorme distraído com as figuras públicas portuguesas. Se fosse mais atento não teria pegado neste livro, visto ter vindo das mãos de um ex-líder de um partido conservador de direita, CDS, cujos valores são diametralmente opostos aos meus. E isso teria sido um erro. Diria até que a leitura começa a valer a pena logo pelo prefácio, um belíssimo exercício de fair play político que nos recorda a importância da discussão, do equilíbrio e do respeito entre diferentes visões políticas para uma democracia saudável. Posso discordar das visões políticas do autor. E irrita-me aquela tendência direitista para meter no mesmo saco do extremismo as boçalidades do pior da direita e o progressismo de esquerda, como se houvesse um equivalente moral entre pregar o ódio, o racismo e a imbecilidade generalizada e lutar por maior igualdade social e económica, pela liberdade pessoal e de género. Uns querem um mundo pior para o seu ganho, nós (porque sim, enquadro-me nas esquerdas à esquerda do PS) queremos um mundo melhor para todos. Considerar isto extremismo é preocupante e um sintoma da acintosidade dos discursos públicos, que é o grande tema do livro.
Quando falo de prefácio, note-se que me refiro ao do autor. O livro tem outro, do punho de Paulo Portas, e ler elogios da parte de um dos mais cínicos praticantes da arte da política que temos por cá, já é esticar demasiado os limites da minha tolerância. Estamos a falar de um clássico exemplo de elitismo português, homem de boas famílias e tradicionalista, que não desdenhou descer às feiras e ser lambuzado pelas velhotas do povoléu para conseguir ascender nas escadarias do poder. É o jogo, bem sei, e é alguém que o sabe jogar muito bem.
Este livro é um profundo alerta para problemáticas que já não são crescentes, são enxurradas culturais que estão a erodir profundamente o edifício da democracia liberal ocidental. Sistema que, não sendo o perfeito, é do melhor que temos e tem garantido uma liberdade e prosperidade genralizadas inagualáveis na história humana. O problema aqui identificado, e também por outros autores, está na extremação do discurso público, na incapacidade de encontrar equilíbrio entre diferentes pontos de vista, porque já se parte para as discussões a partir de premissas radicais que se tornaram surdas aos argumentos contrários. Os resultados estão à vista: o crescimento desmedido da extrema direita, novas gerações que se revêm nos valores negativos do masculinismo tóxico, revanchismo cultural, supremacia racial e retirada de direitos. Como é que foi possível chegar até aqui?
Apesar do tema, o autor tem o discernimento de não culpar unicamente a tecnologia por este mau estado do mundo. As tendências, discursos de ódio, descontentamento, egoísmo e falta de sensibilidade para vida em sociedade sempre estiveram connosco, como franja por vezes mal disfarçada. O que a tecnologia veio fazer foi amplificar estes discursos, torná-los mais visiveis, dar-lhes canais que os media tradicionais não permitiam e que os colocam em pé de igualdade com os discursos mais lógicos e factuais. Essa amplificação trouxe o efeito perverso de lhes conferir uma certa aura de legitimidade, de mero ponto de vista divergente em vez de doudice varrida, misoginia profunda ou rebarbadice assumida.
O algoritmo, ou melhor, as diversas ferramentas algorítmicas que as plataformas mediáticas de hoje, as redes sociais, utilizam para determinar os conteúdos com que os seus utilizadores interagem, é o mais forte instrumento de enviesamento e que de certa forma, permite níveis de controle ideológico com que os mais batidos tiranos totalitários do passado nem sequer conseguiriam sonhar atingir. O que vemos quando acedemos a redes sociais, quaisquer que sejam (com a excessão do Fediverso, não analisado neste livro) é mediado por instrumentos automatizados que determinam o que vemos com base na combinação dos nossos interesses, padrões de comportamento e objetivos empresariais. Não é por acaso que nos leva aos extremos, porque mostrar o que choca é a forma mais fácil de nos captar a atenção. E é essa atenção, medida, controlada, mediada por sofisticados algoritmos, que é a base da corrente economia digital, em que nós, ou melhor, os dados providenciados pelos nossos padrões de comportamento, sustentam fluxos financeiros milionários. Não é difícil perceber que estamos a dar cabo da nossa sociedade e sistema político para enriquecer um punhado de techbros.
Este livro fala muito bem destes mecanismos, com muitos exemplos do quanto as bolhas informacionais e mediação algorítmica têm desempenhado um papel fundamental nos extremismos que correm a nossa sociedade democrática. Algo que começa a nível pessoal, através do consumo de conteúdos, mas que acaba por transvasar para a sociedade, quer pelas atitudes públicas individuais quer pela reação de responsáveis políticos e institucionais, que se sentem obrigados ou a investir recursos de desmontagem de desinformação ou a extremar o seu próprio discurso para não arriscar perder eleitorado (e isso é algo que está a ser notório na política portuguesa, da esquerda à direita). Quando mais gritamos os ecos das nossas bolhas, mais nos convencemos da sua veracidade única, e mais nos afastamos da sã convivência social, que admite e necessita de diferentes pontos de vista, mas não sobrevive a guerras entre supostos donos de verdades únicas.
O livro vai mais longe e toca numa questão que por cá anda adormecida, a da soberania digital. Enquanto nos deixamos levar pela enxurrada de reações, likes e visualizações, não reparamos o quanto esta erosão é provocada pelo sentido de lucro de empresas que não estão sediadas no espaço europeu. Sublinha o perigo de, em nome de uma ideia romântica mas falsa de liberdade de expressão, deixarmos à rédea solta empresas cujo modus operandi toca no âmago de qualquer sociedade - a forma como flui a informação. Fartamo-nos de discutir as consequências, conhecemos as causas, mas não nos atrevemos a tocar na raiz do problema. É sempre bom recordar que, mesmo quando falamos de IA, estes algoritmos não são entidades conscientes independentes que agem de moto próprio. São programados e parametrizados a partir de decisões saídas de decisores humanos. Não há ghosts in the machine ou computers that say no. Há pessoas, executivos e gestores de topo ou intermédios, que tomam decisões implementadas nas ferramentas que nos afetam a todos. É toda um novo conceito de eminence grise, sem que haja eminência mas apenas busca pelo lucro máximo. Algortimocracia é um profundo alerta para todas estas questões.
Só apontaria um problema ao livro (e não, não tem a ver com as questões ideológicas, isto não é uma recensão clickbait). Talvez advindo da dupla condição de advocacia e política do autor, o livro é demasido longo e repete muitas vezes os mesmos argumentos, enquanto explora as suas diversas vertentes. Diria que conseguira expor com profundidade os seus argumentos com metade das páginas, e com isso apenas ganharia força. De resto, não tenho dúvidas sobre a importância desta leitura nestes dias onde assistimos ao esboroar da nossa sociedade através da janela do telemóvel.
segunda-feira, 29 de dezembro de 2025
Code Ecstasy
Finalmente, um tempinho para poder partilhar os registos da visita à Code Ecstasy, exposição de IA generativa e arte digital organizada pela Zabra, no seu espaço de pesquisa e galeria. Obras desafiantes, a mostrar as novas estéticas possíveis com a geração de vídeo e imagem em tempo real, ou o choque estético que a tecnologia permite.
Trabalhos de: @other_realm_ , @sin.rostroz, @___infrarouge, @gameboyjaki e @Guts?. Ide ao instagram descobrir, vale a pena.






