quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

The Gas


Charles Platt (1980). The Gas. Londres: Savoy Books.

Tenho de culpar o Damien Walters, com as suas sugestões de leitura, por ter tropeçado nesta bizarria. Não a teria descoberto de outra forma. Walters partilhou-a como inesperada leitura fora da caixa, e, de facto, é-o. Não é um grande livro, apenas algo de inesperado. Nome menor da FC britânica, Platt esteve envolvido com a lendária New Worlds. Este The Gas... bem, como o qualificar? 

Apesar de ter sido escrito por um autor de FC e ter elementos do género, The Gas é um romance pornográfico, típico material masturbatório escrito a metro para excitação dos leitures num tempo antes da internet, onde era mesmo preciso ler segurando o livro com uma das mãos e imaginar para, enfim, creio que percebem. Hoje, com a proliferação banalizada da pornografia online, cada vez mais a extremar-se para despertar interesses adormecidos pela generalização, este tipo de livros parece-nos algo inocente e peculiar. 

Como descrever este livro? Imaginem a premissa do clássico The Purple Cloud, mas em vez de um gás mortal que se espalha pelo mundo temos um acidente num laboratório que liberta uma nuvem que se espalha por toda a Inglaterra, cheia de uma substância que exacerba o desejo sexual. O resultado é um colapso social, com toda a gente a sucumbir ao desejo desenfreado e meter-se em orgias cada vez mais violentas. Talvez a melhor forma de descrever isto seja imaginar o típico cenário de histórias de zombies, mas com hordes de pessoas esfaimadas por sexo em vez de mortos-vivos. Aliás, há muitas cenas no livro que poderiam ser transportadas para filmes de zombies.

Claro que tudo isto é uma desculpa para se sucederem descrições explícitas de atos amorosos, com uma decadência progressiva nos mais proibidos tabus. Apesar disto, há um romance, uma lógica no livro, uma linha narrativa de merguho na insanidade. Algo que o livro tem aos rodos - à medida que se aproxima do final, as tropelias tornam-se cada vez mais bizarras e as descrições mais insanas. Platt certamente que se divertiu a imaginar o que aconteceria se estudantes de ciência perdessem todas as inibições e usassem as experiências em modo secxual, numa sequência que termina com uma das cenas mais insanas que já li - o colapso de uma catedral usada por bandos de lésbicas enraivecidas de desejo, que se dedicam a torturar homens até à morte. 

É ainda pior do que imaginam, naquele surrealismo da má literatura em que é tão mau que se torna interessante. Não é que o livro seja um mau livro. É algo que ultrapassa a mera qualificação de material masturbatório escrito a metro, com um aceno à ficção científica numa história de apocalipses em versão deboche.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Echi dall'Incubo


Tiziano Sclavi, et al (2025). Dylan Dog: Echi dall'Incubo. Milão: Sergio Bonelli Editore.

Porque é que Dylan Dog se tornou uma das minhas paixões culturais? Não preciso de ir mais longe do que esta pequena pérola literária que é  La Piccola Biblioteca di Babele para demonstrar o porquê. Começa como uma subtil vénia borgesiana, que ganha outros contornos numa fantasia onde as bibliotecas infinitas contêm as minúcias das vidas de todos. Avança para o surreal graças a um musaranho de dentes adiados e apetite pelos pergaminhos, e um monge copista que elimina todo um livro para ocultar os danos provocados pelo roedor. 

Resulta um conto belíssimo sobre memória  e esquecimento, com momentos de pura irrealidade. As pessoas que se desfazem enquanto o rato rói os pergaminhos do incunábulo são um pormenor genial. Termina com um dos mais brutais pontos finais. Numa vinheta Dylan e o seu amor do momento escapam-se de uma terra que se apaga, na outra está a conduzir sozinho, a achar que está a bater mal por filosofar em voz alta sobre amores. Desaparecidas ficam as memórias das vidas, graças ao estratagema do monge.

Dylan e os amores é uma constante, o ser um eterno pinga-amor é uma das tropes da série, tal como o carocha branco, o assistente exímio em piadas secas, o tocar  mal clarinete, o nunca terminar o modelo de veleiro, e a campaínha avariada no número 7 de Craven Road, que soa a gritos e não ao toque habitual. O seu quinto sentido e meio é exímio em levá-lo a aventuras onde se cruza com o sobrenatural, embora, num dos toques de profunda ironia do personagem, não acredite por aí além em assombrações e monstros, embora lide regularmente com eles.

Devemos ao génio de Tiziano Sclavi esta personagem peripatética e as suas aventuras, bizarras, surreais, oníricas e tocantes. Sclavi deu corpo ao personagem, e revelou-se sempre o seu melhor argumentista (que me perdoem os fãs de Roberto Recchioni e Paola Barbato, que também se safam muito bem com o personagem). Algo que sempre me surpreende nas histórias por ele assinadas é a mestria como consegue gerir o ritmo das vinhetas, concluindo pequenas narrativas dentro da narrativa maior, ou tocando a tecla certa do suspense, no ponto exato onde se vira a página e se pode mudar de fio narrativo ou querer continuar a história. 

Echi dall'Incubo foi a minha prenda de natal para mim próprio. Colige vinte e quatro histórias curtas, escritas por Sclavi e ilustradas pelos suspeitos do costume - Bruno Brindisi, Corrado Roi, Angelo Stano ou Franco Saudelli, entre outros ilustradores da Casa Bonelli. É um mergulho no Dylan Dog clássico, revisitando pérolas da sua história editorial.

Contos Gregos


António Sérgio, Luís Abreu (1978). Contos Gregos. Lisboa: Sá da Costa. 

Confesso, não comprei este livro pelos seus textos. Por muito que goste de mitologia grega, não estou particularmente interessado em mais um recontar simplificado destas histórias que compõem o cerne da nossa cultura. Apesar de ter terminado a leitura com um sorriso, com o recontar do episódio do reencontro de Ulisses e Argos na Odisseia (amantes de cães compreendem). Por outro lado, após resumir muito bem a Argonautica, termina com um final feliz à conto de fadas para os amores de Jasão e Medeia, algo que as lendas contrariam, entre os frenesis assassinos dela e s proficiência em aproveitar-se das mulheres para alcançar o poder dele. 

O que despertou o meu interesse foi o ser uma edição, profusamente ilustrada, naquele estilo entre o expressivo e o realista que é marca estética do modernismo português. As ilustrações são assinadas por Luís Filipe de Abreu e cruzam elegãncia gráfica, remetem para os mitos e ainda têm um forte caráter expressivo. 

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Simbolismos via IA

Confesso, tenho um fraquinho por estas trends da cultura digital de perguntar algo diferente aos chatbots de IA. Desta vez, o prompt foi "based on all our previous interactions, create an image of how you see me. Everything should have a symbolic significance". O resultado mostra sublinha as duas grandes vertentes da geração de imagem generalista em llms.


O ChatGPT é mais "artístico" (em bom rigor, uma visão reduzida e estereotipada do que são estilos artísticos), e na explicação subsequente deu-me boas razões para eu estar a ser tão agarrado por mãos desincorporadas, labirintos, livros (bem, mas essa é óbvia) e cenas cósmicas.

Já o Gemini é  mais profissional, embora na mediania confortável da estética stock photo (diz imenso sobre o tipo de dados usado para alimentar o treino dos modelos do nano banana), até me faz parecer uma pessoa respeitável e cenas. O café é um bom pormenor. Tendes razão, IA, tenho mesmo de ir buscar mais um.


Podia ter parado por aqui, mas atirei a questão ao Gemini com outra conta que uso. Qual é a diferença de resultados? A segunda conta é a de escola, que uso massivamente para explorar vibe coding com os alunos, bem como demonstrar-lhes técnicas de interação com temas da disciplina de TIC. Obviamente, o resultado espelha a natureza destas interações.

Isto vale o que vale, não vejo aqui nenhum carácter de pitonisa nestes chatbots, mas não deixam de ser um intrigante espelho das nossas personalidades.

domingo, 1 de fevereiro de 2026

URL

Robot Dreams and Terrors, Amazing Mystery Funnies V2 #11: Um soco que é capaz de ter doído mais ao herói do que ao robot. 

Las alucinaciones de la IA están afectando a un sector muy concreto: el de los bibliotecários: Sintomas da preguicite mental induzida pela falsa sapiência da IA. 

The Funniest Books of the 21st Century: Literaturas que nos fazem rir.

A magia, o mundano e o fantástico em The Incandescent: O mundo da educação como palco para uma obra de fantasia? Intrigante, depois de perceber que não é a idílica sala de aula do colégio interno, mas o lamaçal do dia a dia docente e organizacional, que está em retrato. 

E mais um continho em ingl... não, espera... em espanhol, agora é em espanhol: A FC portuguesa acessível a outros leitores.

BruceS / Dec 11, 2025: Uma antevisão dos personagens cujos direitos de autor vão expirar em breve, passando a pertencer ao domínio público. 

20 Sci-Fi, Fantasy, and Horror Authors Pick Their Favorite Sci-Fi, Fantasy, and Horror Books of 2025: Leituras do ano, escolhidas por autores que estão agora a dar cartas no género. 

Five of the best science fiction books of 2025: É curioso ver que o There is no Anti Memetics Division está a ser constantemente incluído nas listas de melhores leituras do ano, e, francamente, é merecido. 


Exotic locales in the Solar System: Paisagens alienígenas. 

Disney invests $1 billion in OpenAI, licenses 200 characters for AI video app Sora: Que bom, a Disney agora vai meter-se no mercado do AI Slop. Tudo o que lhes permitir não pagar a criadores, animadores e artistas é justificável. Diga-se que a Disney se tornou a personificação da estagnação cultural, vive essencialmente de reempacotar o conteúdo que já tem, remastigando em versões, variantes, sequelas e prequelas, e não inova ou cria algo de novo. Para esta empresa, a cultura pop é um negócio de mero entretenimento (bem, isto é verdade para todos os envolvidos no mundo pop) e o que interessa é dominar a atenção com o menor esforço possível. 

Disney says Google AI infringes copyright “on a massive scale”: O timing disto é interessante. Na mesma altura que anuncia o seu investimento na OpenAI é que a Disney se torna paladina da defesa da propriedade intelectual no mundo do treino dos algoritmos. O facto de estar a acusar a concorrente direta da OpenAI é, certamente, mera coincidência. 

Z-Image chega ao iPhone via Draw Things: Gerar imagens offline, sem limitações, em iOS. 

China Launches 34,175-Mile AI Network That Acts Like One Massive Supercomputer: Uma rede de computação interconectada a uma escala que aqui na Europa até seria possível, mas há que ter vontade e não apenas declaração de intenções. 

How Governments Turn the Internet Into a Weapon: A forma mais elegante é a sua instrumentalização através da desinformação, mas a variante bruta, o simples desligar dos acessos, é também muito eficaz. 

Literal Teens Are Losing It All at Crypto Casinos: A linha entre vigaristas e influencers é muito ténue, como qualquer um que utilize redes sociais já o sabe, e ainda mais na chusma de predadores que se dedicam a explorar os mais jovens. Nota para qualquer um - nos casinos, quem ganha sempre é banca, por muitos vídeos que por aí vejam de influenciadores de sucesso a ganhar milhões. Eles ganham, mas não é no jogo - são pagos para passar a imagem falsa do sucesso no casino. 

Nervous System: Where Nature Meets Code: A sempre interessante interseção de programação, arte generativa e objetos físicos. 

Nano Banana Sketch to Image: Algo que experimentei com os meus alunos no início do ano, ainda na versão anterior do nano, e que me permitiu pegar em desenhos deles para posteriormente lhes entregar como objeto 3D. 

*Of course I’ve used every single one of these dead media: Bem, pessoalmente nunca tive enderelo aol (mas tive acesso Telepac, conta?), e nunca atirei com os ossos para cima de um colchão de água.

You’ll Never Guess What Volkswagen Is Pivoting Its Newly Closed German Plant to (Yes You Will): E faz sentido, os conglomerados industriais tradicionais têm de investir em desenvolvimento tecnológico para manter a sua competitividade.

La soberanía tecnológica en la era de las dependencias invisibles: Diria que hoje em dia, dada a complexidade das teias das cadeias industriais de materiais e tecnologia, é impossível haver uma total independência tecnológica. Depende-se sempre de alguma tecnologia ou matéria prima que vem de outros países.

AI Industry Insiders Living in Fear of What They’re Creating: Na verdade não estão, o que fazem é usar a especulação apocalíptica para não terem de enfrentar e discutir as problemáticas que a IA traz nos dias de hoje. É mais confortável imaginas AI overlords futuros do que enfrentar o problema da desinformação gerada por IA.

The great AI hype correction of 2025: Terá sido este o ano em que começamos a largar os deslumbres com a IA e experimentar com os caminhos que nos são mais úteis e criativos.

Ian Miller: Falecidos aguerridos. 

Aging Out of Fucks: The Neuroscience of Why You Suddenly Can’t Pretend Anymore: Bem, o artigo é sobre neurofisiologia feminina, mas confesso que me identifico cada vez mais com isto. No meu dia a dia, a minha paciência para lidar com mentiras óbvias, patetices e idiotices anda a tender para o nulo. 

Man shocks doctors with extreme blood pressure, stroke from energy drinks: Chama-se a isto ganhar asas, certo? 

A Brief History of the Spreadsheet: A história da ferramenta digital que se tornou essencial para organizar e gerir a vida moderna. 

AI image generators are getting better by getting worse: Um elogio às impefeições algorítmicas, o principal indício que nos ajuda a distinguir o falso do real na era digital. 

Embrulho sem surpresa: O fugir aos algoritmos de sugestão como forma de descobrir novas sonoridades, e uma das melhores observações sobre IA que já li - "nestes tempos de “inteligência artificial generativa”, que na maioria dos casos não é tanto generativa como derivativa". Assenta como uma luva, não assenta? 

Why You Should Remember the Roomba, Even After iRobot Is Kaput: De criadores de uma nova tecnologia e mercado a marca comprada por aqueles que lhes clonaram a invenção e invadiram o mercado com cópias cada vez melhores. Isto não é uma história sobre tecnologia, mas sim sobre as agruras do capitalismo. 

The Longest Suicide Note in American History: Coisas que acontecem quando se deixa os mais idiotas fanáticos ideológicos à rédea solta: "the authors do focus on one enemy ideology. It is not Chinese communism, Russian autocracy, or Islamic extremism but rather European liberal democracy. This is what this radical faction really fears: people who talk about transparency, accountability, civil rights, and the rule of law".

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

A Vida no Século XXI


Arthur C. Clarke (1986). A Vida no Século XXI. Lisboa: Europa-América.

É sempre interessante revisitar estes textos futuristas, evitando sempre o tom condescendente na leitura. É claro que as predições não se concretizaram, este tipo de textos são extrapolativos e especulativos, não oráculos, e mostram-nos muito sobre as ânsias e esperanças do tempo passado. Apesar de não serem preditivos, são interessantes na forma como identificaram tendências de evolução tecnológica e social que, embora não se concretizando de forma linear, se fazem sentir no nosso mundo contemporâneo. Neste que é o real futuro, percebemos ao ler textos especulativos informados do passado que muito do que fazemos hoje já era preocupação nesses tempos. 

As especulações de Clarke são informadas, baseadas em análises e entrevistas com especialistas. Olha para a robótica, antevendo um futuro próximo em que os humanos poderão livrar-se do trabalho manual, entregue a robots. Imagina redes de transporte rápidas e eficazes, combinando aeronaves supersónicas, comboios de alta velocidade e hovercrafts para deslocação rápida e barata para qualquer parte do planeta. Na saúde, cruza o desenvolvimento tecnologico e da ciência médica com uma visão muito benévola da medicina privada (ah, a inocência), enquanto na educação extrapola, e muito bem, a necessidade de sistemas de formação ao longo da vida para cidadãos que terão de se atualizar, bem como a vontade de aprender mais. A sociedade informatizada em que vivemos é vislumbrada, por vezes em pormenores curiosamente certeiros - o uso de IA para advocacia ou sistemas automáticos para saúde mental são dois exemplos, mas Clarke não prestou atenção ao potencial da então nascente internet, e extrapolou futuros de telefones por vídeo e cassetes VHS. Não podia falta um capítulo sobre guerra, que me pareceu algo decalcado de The Third World War de John Hackett, e daí o conceito que retirei foi a visão da imutabilidade futura de um mundo dividido entre dois blocos, o ocidental e o soviético.

Nestes dias de um futuro distópico, em que sentimos as liberdades e garantias a resvalar sob pressão de conservadorismo radical, em que a promessa libertária da internet foi esmagada pelas grandes empresas para construir o que é pouco mais do que uma máquina global de extração de dados que vicia os utilzadores, perante o quadro grave dos efeitos das alterações climáticas e o resvalar do mundo geopolítico para um sistema de autocracias e novos totalitarismos, o mais refrescante destas leituras é o seu lado de inabalável otimismo. Qualquer que fosse a extrapolação, é patente a fé de Clarke num futuro melhor, numa ideia que o progresso era imparável e nos iria melhorar, enquanto sociedade e ao nível individual. Essa promesa, sente-se o quão longe está de ser cumprida.

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Shroud


Adrian Tchaikovsky (2025). Shroud. Nova Iorque: Tor.

Uma das grandes preocupações visíveis na obra de Adrian Tchaikovsky está no explorar o conceito de inteligência não humana. Algo que fez muito bem na série Children of Time, com as formas de vida inteligente evoluídas nas condições únicas dos seus planetas a partir de um princípio de engenharia genética humana, abandonado no passado. Em Shroud, o autor pega nas ideias sobre formas de vida inteligente adaptadas a condições naturais muito agrestes e leva-as ao seu extremo, de uma forma peculiar e brilhante. 

Outra das grandes preocupações que se percebem na obra deste escritor prende-se com o papel dos indivíduos que, apesar de protagonistas, têm pouca capacidade de decisão por estarem envolvidos em sistemas complexos que determinam as suas ações. E neste livro, o sistema é uma caricatura pouco velada dos excessos do capitalismo neoliberal, um sistema de expansão constante onde as pessoas só são úteis enquanto trabalhadoras dedicadas mas descartáveis a cada novo projeto, e a exploração do espaço serve apenas para extração de recursos que permita manter o sistema em constante crescimento. 

A distopia é pura, embora os personagens não a questionem. Afinal, é o sistema que sempre conheceram, para o qual foram doutrinados e sempre conceberam como o natural e lógico. Um sistema que afirma ter salvo a humanidade da destruição após o colapso ecológico da Terra, através da expansão contínua pelo espaço numa lógica de extração crescente de recursos.

Shroud representa uma pedra na engrenagem de expansão. Um ambiente incrivelmente inóspito, mas que alberga vida. Formas de vida que evoluíram em condições de pressão atmosférica tremendas e escuridão total, que se adaptaram à emissão de ondas eletromagnéticas como forma de sentir o mundo ao seu redor. Um ecossistema de criaturas cegas e surdas, que vivem no que para os humanos é uma cacofonia de radiação eletromagnética. 

A descoberta mais surpreendente dá-se na superfície do planeta, quando um grupo de investigadores que sobrevive a um acidente em órbita se vê obrigado a um périplo de sobrevivência duvidosa. Por entre as violentas formas de vida, descobrem uma que mostra sinais de inteligência e sociedade organizada, algo similar às formigas. Algo que se virá a perceber como uma inteligência distribuída em enxame, que usa cada indivíduo como neurónio e com capacidades de adaptação biomecânica. Duas inteligências, a humana e a nativa do planeta, totalmente incompatíveis e sem forma de comunicar entre si. Num pormenor muito curioso, Tchaikovsky descreve como a vida alienígena consegue compreender as máquinas humanas, mas é incapaz de sequer reconhecer a vida humana que as tripula.

Mas descobrir vida inteligente não representa um obstáculo para a estratégia organizacional. Pelo contrário, é até vista como mais um recurso para explorar. O problema, é que o contacto com os humanos abre novas perspetivas à inteligência alienígena, com resultados catastróficos, até que a coragem de uma das investigadoras sobreviventes permite encontrar uma forma de comunicação comum. Um livro intrigante, sombrio, aviso distópico sobre os excessos do capitalismo, e reflexão sobre a complexidade da intercompreensão.

Robots


Clive Gifford (2008). Robots. Sintra: Everest. 

Bem, é um livro para crianças, mas é divertido mergulhar no barroquismo gráfico desta obra dedicada à robótica. Tem  um certo ar retro, especialmente porque os exemplos vêm todos do final do século XX e primeiros anos do XXI, e sabemos o quanto este campo tem avançado desde então. Como bónus interessante, tem elementos pop up que enriquecem a experiência.

domingo, 25 de janeiro de 2026

URL


Shusei Nagaoka / Androla in Labyrinth | 1984 |: Futurismos. 

3/12 STARRY EYES FOREVER: Só mesmo Grant Morrison para imaginar a colisão entre os universos Marvel e DC como um encontro amoroso entre duas entidades cósmicas, que termina com elas agarradas ao telemóvel para avaliarem o desempenho romântico. 

Fascinating: Research Find That Fantastical Programming Impairs Cognitive Attention In Children: Fico com a sensação que este é um daqueles estudos que martela dados para provar a sua premissa - a de que as crianças devem ser expostas a conteúdos factuais, e não aos que despertam a imaginação. 

E se…: Seria um muito bem vindo regresso, a voz do Candeias faz falta por aqui.

Science Fiction’s Secret Weapon: The Info Dump: Há quem diga que este é um dos malefícios, ou vícios estilísticos, da FC. Eu, confesso, sou suspeito - adoro um bom infodump, fascinam-me esses voos elevados de especulação informada.

Spotify Wrapped Is Everything That’s Wrong About Our Outsourced Musical Taste: Ou, o triunfo da aurea mediocritas algoritmizada.


Coronado Cuarto Centennial Issue: Note-se o bigode. 

Google’s AI model is getting really good at spoofing phone fotos: Também já notei isto, as imagens geradas pelo nano banana têm um realismo indiciador da origem dos dados usados para treinar o modelo. Se se recordarem dos telemóveis android com as suas galerias cheias de imagens, ou dos milhões de jpgs no photos, percebem o porquê desta tendência do nano banana. 

Kohler's Smart Toilet Camera Not Actually End-to-End Encrypted: Confesso que a minha primeira reação não é "ah, que incompetentes, não aplicam encriptação decente no produto", mas sim "porque raios é que alguém iria querer câmaras na sanita"? 

How AI Is Changing How Architecture Is Conceived: Não uma ameaça, mas uma ferramenta para potenciar a criatividade. 

Microsoft's Copilot+ AI PC plan fizzled, but it still served a purpose: Faz sentido. Uso primordialmente um copilot pc (não surface, claro, há mínimos), não perco tempo a usar as suas funções de IA, comprei-o pela capacidade e durabilidade da bateria. 

OpenAI Is Suddenly in Major Trouble: Não surpreende muito. Apesar de todo o investimento, a OpenAI construiu-se a partir de tecnologias desenvolvidas na Google. E esta é um gigante, que não só tem acesso a uma quantidade enorme de dados para treinar os seus modelos, como é uma empresa multimodal, que se pode dar ao luxo de perder dinheiro a desenvolver IA porque tem outras fontes de receita, ao contrário da OpenAI. 

Como fazer uma ampulheta LED com Arduino: Uma ideia gira, bom projeto para fazer na pausa natalícia. 

If artificial sentience were to emerge today, we would almost certainly fail to notice it: No cerne, está a questão do que é a inteligência, e a dificuldade que temos em compreender sinais de inteligência para lá do nosso quadro de referência humano. 

The AI that has Colonized our Creativity: De facto, um dos problemas que vejo na adoção entusiástica da IA é a forma como tantos confundem formalismo com criatividade, pensando que produção a metro replicando estéticas banais é uma forma de expressão criativa. 

McDonald's ha hecho un corrosivo anuncio antinavideño corrosivo. Pero el mayor de sus problemas es cómo lo ha hecho: con IA: Sinceramente, o que incomoda no anúncio não é o ter sido gerado com ferramentas de IA. É a mensagem, de profundo late stage capitalism, a dizer-nos que o conforto e a conexão se encontram nas suas lojas de hambúrgueres e não nas ligações humanas. É um l'enfer c'est les autres, cooptado para vender sandes de carne e refrigerantes.

The Verge picks the standout tech of 2025: Os dispositivos e gadgets marcantes do ano.

'Godfather of AI' Says Students Should Still Learn to Code: Obviamente. É fácil cair na tentação da sapiência via chatbot, pensar que ter às mãos uma ferramenta que parece ter todas as respostas nos demite de adquirir conhecimento. Na verdade, é o oposto. Para se fazer uso eficaz da IA, temos de ter o conhecimento, qualquer que seja a área em que estejamos a usar. Senão, estamos a caminhar cegamente para desastres, por não sabermos se os outputs estão corretos e funcionais.

AI Framework Translates 2D Images into G-code for AM: Ferramentas que dão jeito.

Stop using ChatGPT for everything: The AI models I use for research, coding, and more (and which I avoid): O problema dos modelos multimodais é que, enfim, servem para um pouco de tudo. Faz mais sentido usar modelos otimizados para usos específicos.

How the creator economy destroyed the internet: O dilúvio de conteúdo de baixa qualidade dos influencers viciou as plataformas digitais, e nem sequer é diretamente rentável.

The State of AI: A vision of the world in 2030: Para onde caminhamos, quais as perspectivas de futuro próximo?

Guide to Boards 2026: Super (Tiny) Computers: A Make: apresenta as suas análises às placas programáveis contemporâneas, um mundo cada vez mais diversificado e poderoso.


USA 1986: Kaijus a petiscar. 

How the Disappearance of Flight 19, a Navy Squadron Lost in 1945, Fueled the Legend of the Bermuda Triangle: Um daqueles mitos que hoje se desvaneceu, mas houve tempos onde se discutia com toda a seriedade os estranhos desaparecimentos numa zona oceânica que tem sido das mais sulcadas desde os primórdios da colonização das américas. 

Avenida de Roma: Outros tempos de uma zona onde cresci. 

A esquerda não pode deixar a nostalgia para a direita: Muito bem visto. A direita evoca a nostalgia de passados de suposta glória e perfeição, que na verdade eram pobres e bafientos. À esquerda, temos de reclamar a nostalgia das utopias. 

Cruce de cables: tres libros sobre cómo los materiales que necesitamos marcan nuestra relación con el mundo desde hace siglos: Recordar que as infraestruturas de que dependemos dependem dos mais humildes e pouco conhecidos materiais e processos.

America has identified its greatest enemy: Western Europe: Já o tínhamos percebido, mas agora está no papel. Para a américa trompista, as democracias liberais progressistas são o inimigo, e a UE um alvo a abater como bloco que reúne nações que individualmente não teriam capacidade para se afirmarem no palco global. Devemos ficar preocupados com esta estratégia? Em parte, não, porque é mais uma declaração de intenções, mutável ao sabor das administrações e difícil de implementar, a menos que haja um foco extremo e competência de quem está a gerir, duas coisas que já se viu que falta nos políticos americanos de hoje. Mas devemos ficar preocupados. Em primeiro lugar, porque isto vai encorajar todos aqueles grupelhos de escroques e aspirantes a cleptocratas, que agitam as bandeiras do nacionalismo, racismo e regresso aos valores tradicionais. E, ao nível macro, colocar a UE no centro da mira demonstra que o governo americano se juntou ao grupo das autocracias, e quer erodir um bloco unificado que investe nos seus países e pessoas. O grande problema que a UE levanta para esta gente, dos putins aos trumps, dos xis aos maduros, é que representa para os cidadãos dos seus países uma visão alternativa de vida, onde os recursos públicos são colocados ao serviço dos cidadãos e não para engordar os bolsos das grandes empresas e dos amigalhaços dos ditadores; onde há liberdade e legalidade, acesso à saúde e boas perspectivas de vida, em contraste com a miséria progressiva que as autocracias infligem aos seus cidadãos. A outra grande razão para nos preocuparmos, como europeus, é o risco de pensar que isto é temporário. De achar que estas ideias e projetos são um fenómeno trompista, e que quando este se eclipsar depressa se desvanecem e se regressa à antiga normalidade. É uma possibilidade, a história americana mostra que é um país propenso a acessos de loucura política que depois se retificam. Mas notem que caso isso aconteça, vai demorar muito tempo, e entretanto as autocracias insistem e atacam. É, também, creio, um erro pensar o trumpismo como epifenômeno. Temo que vá mais fundo. Trump não é um dínamo que galvaniza as massas no seu ideário (que nem existe), é um catalisador que dá a cara por setores muito fascistas da política norte-americana. Trump desaparecerá (até porque está a ficar velho e senil), mas aqueles que o apoiam continuam a existir, e pior, a administração trompista tem sido notável na forma como purga os aparelhos políticos e governamentais, assegurando que os seus lacaios se instalam nos locais de poder e gestão intermédia. Trump é o sintoma, mas a metástase faz-se da miríade de sequazes que se está a entranhar no aparelho de governo americano.

Europe is under siege: Não tenhamos ilusões. E é uma guerra que não se trava com tanques e aviões de quinta geração. Trava-se com desinformação, ciberguerra, IA, jogos económicos, manipulação das teias de comércio global. O objetivo é muito claro - erodir a governança assente na legalidade, a democracia liberal progressisa, os direitos humanos e sociais à escala global.