quinta-feira, 12 de março de 2026

A Semente da Terra


Robert Silverberg (1962). A Semente da Terra. Expressão e Cultura.

Um curioso, algo esquecido e um pouco desajeitado livro dos tempos clássicos da Ficção Científica. A humanidade está a espalhar-se pelas estrelas num esforço de colonização. Todas as semanas, foguetões descolam da Terra para sulcar o espaço interestelar e depositar cinquenta casais de colonos em planetas habitáveis, numa viagem sem regresso. O problema, é que praticamente ninguém quer abandonar a sua confortável vida terrestre e construir um novo destino nas estrelas. A solução para isso é um sistema de lotaria, em que os felizes contemplados (bem, na verdade infelizes) tem de abandonar a sua vida, carreira e família para embarcar nas naves colonizadoras. Alguns, raros, têm a oportunidade de serem acompanhados pelos seus conjugues, mas para todos a receção da lotaria equivale a uma sentença de morte em vida. Não que a morte os espere nos planetas que irão colonizar, estamos nos tempos clássicos da FC onde era dado como adquirido que praticamente todos os planetas são habitáveis.

O livro é algo desconexo, divide-se em duas grandes secções. Numa, acompanhamos a resignação de alguns vencedores da lotaria, que irão embarcar numa nave com partida marcada, bem como o drama interior daqueles que têm como função administrar o sistema, e que não são imunes à frieza do mesmo. Na segunda metade os colonos são enviados a outro planeta, e abandonados à sua sorte (embora com as condições técnicas e materiais para sobreviver. O que poderia ser uma história de organização de sistema sociais em condições adversas torna-se uma bizarra aventura, quando dois casais de colonizadores são raptados pelos nativos do planeta e levados para uma caverna, onde irão ceder a todas as tensões até encontrarem forma de cooperar e regressar à incipiente colónia.

terça-feira, 10 de março de 2026

Astrofuturism


De Witt Kilgore (2003). Astrofuturism: Science, Race, and Visions of Utopia in Space. Filadélfia: University of Pennsylvania Press.

Uma viagem pelas ideias que definem as clássicas utopias dos futuros no espaço. Este longo ensaio olha para as influências seminais de autores de ficção científica e cientistas na definição da ideia de exploração espacial como misto de destino último da humanidade, zona de aventura e espaço dedicado ao máximo potencial da ciência. É um cruzamento de fé científica, esperança na tecnologia e utopia que nasceu no dealbar do século XX e ainda hoje continua presente, embora atenuado.

Este ensaio olha para as visões que evoluíram ao longo de um contínuo que começa nos pulps e no trabalho de Von Braun (que não se limitou à engenharia), ao otimismo tecnológico de Clarke e ao destino manifesto de Heinlein, às visões de colónias orbitais suburbanas de Gerard K. O'Neill e termina na visão com nuances sociais e étnicas de Ben Bova.

Não cobrindo todo o espectro da ficção científica, centra-se nalgumas figuras de charneira, olhando para a forma com o espaço de ideias evolui a partir de princípios ligados a uma certa visão de superioridade inata do homem ocidental, euro-americano, mas que se vão adaptando à evolução dos tempos, abrindo-se às questões sociais para contrabalançar o simplismo das fantasias meramente técnicas.

domingo, 8 de março de 2026

URL

Uncredited 1970 cover art for Daughters of Earth: A clássica visão sci-fi de mulheres semidesnudas encerradas em cápsulas de vidro. 

Resenha: Fluam minhas lágrimas, disse o policial, Philip K. Dick: Recordo bem esta leitura, um dos voos imaginátios de Dick que mais nos leva a questionar a percepção da realidade. 

Musk and Hegseth vow to “make Star Trek real” but miss the show’s lessons: Leiam novamente - dois fascistas apaixonados por uma série que pode ser melhor descrita como "socialismo no espaço". 

Disney deleted a Thread because people kept putting anti-fascist quotes from its movies in the replies: Ah, esta mania que o hoi polloi tem de estragar as belíssimas ideias corporativas do pessoal do departamento de marketing com doses de realidade. 

The Writers Who Saw All Of This Coming: As distopias clássicas, ou, como o artigo bem observa, os livros que foram escritos como avisos mas se tornaram a inspiração dos plutocratas. 

You need to listen to the cosmic horror-comedy podcast Welcome to Night Vale: Isto vai soar mal, mas não me tinha apercebido que esta brilhante série ainda durava. Tenho de regressar a Night Vale. 

How Often Is Too Often for New ‘Star Wars’ Movies?: E que tal... já chega de Guerra nas Estrelas? É uma história batida, um mito da cultura pop que já conta com cinquenta anos e sobrevive da eterna repetição de uma premissa que de tão batida, já se tornou estafada.

Kingdom come: Um olhar profundo para o trabalho de George R.R. Martin na saga que o definiu como autor.

David Darrow, 1985: Puro synthwave.

Microsoft Shuts Down Library, Replaces It With AI: Ou seja, se percebi bem, a empresa prefere que os seus investigadores e engenheiros leiam resumos a tender para o AI slop do que ter acesso a fontes bibliográficas e académicas. Claramente, o epíteto "microslop" assenta-lhe mesmo bem. 

Anthropic (an AI Company) Warns That AI Will Worsen Inequality: Chama-se a isto ter lágrimas de crocodilo. 

Oh No, Meta Just Killed Off Working in VR: Não sei quanto a vós, mas a ideia de ter de enfiar um HMD para trabalhar sempre me pareceu idiotice distópica. Quando ao aparente passo atrás da realidade virtual como tecnologia de massas, não me surpreende. É uma tendência cíclica de uma tecnologia cujos proponentes não conseguem lidar bem com a ideia de ser uma excelente tecnologia de nicho, mas nada apropriada para massificação. 

China ha dado un paso más en la guerra del futuro: ya tiene armas cuánticas que está probando en misiones reales: Antes que a vossa imaginação infestada de Sci-Fi pense em armas de raios da morte (hey, o que é que acham que foi a primeira ideia que me veio à cabeça com este artigo), desmistifiquem. Trata-se da aplicação da computação quântica nos domínios da ciberguerra. 

A Tipping Point in Online Child Abuse: Recordar que o abuso de IA generativa para criar conteúdos de abuso sexual não é um crime sem vítimas; primeiro, implica o uso de imagens abusivas pelos modelos de treino, ou seja, houve vítimas reais no processo; segundo, diminui a percepção de risco, não sendo um escape seguro para quem tem tendências pedófilas, mas sim um incentivo que facilita a passagem da fantasia ao abuso efetivo. 

Gemini Personal Intelligence ganha acesso à informação pessoal: Sou só eu que me arrepio com este nível de acesso aos meus dados pessoais por parte da Google? E, também, aquela sensação que a grande utilidade desta ferramenta não é para os utilizadores, mas para a Google, que consegue assim aceder a mais dados para treinar os seus modelos?

Visualizations of the growing undersea network of submarine cables, 2013-2025: Um cruzamento entre o fascínio da cartografia e a tecnoluxúria, com estas visualizações das redes submersas que sustentam a internet. 

Grok Is Getting Access to Classified Military Networks: Um modelo de IA cujos detentores se gabam da inexistência de incorporação dos padrões éticos mais elementares, à solta nas redes militares. O que é que poderá correr mal? Não pensem em skynet, é mais o uso para validar más decisões ou abusos de violência militar. 

Fotos de crianças no OneDrive podem bloquear conta Microsoft: Há aqui dois problemas. O mais óbvio é que a fiabilidade de 99.9% das ferramentas de detecção automática têm espaço para erros com consequências graves. Mas o pior problema é a total ausência de apoio por parte destas empresas, que transferiram o apoio a clientes para sistemas automatizados incapazes de resolver os casos mais delicados. 

Move Over, ChatGPT: Confesso, também me ando a render ao potencial do vibe coding; sem a ilusão de me ter tornado um programador, mas a conseguir (finalmente!) fazer coisas com programação que me seria muito difícil (leia-se, impossível) de fazer com os meus conhecimentos de base. 

Running Doom on a Cooking Pot: Adicionar acessórios de cozinha à lista de equipamentos onde se pode jogar Doom. 

Pluralistic: It's not normal (14 Jan 2026): Os modelos de subscrição são uma das epítomes do capitalismo predatório - compramos os bens e serviços, mas para os usarmos temos de pagar taxas extra e estamos sujeitos à vontade dos detentores destes sistemas. Ou seja, pagamos, mas não somos donos do que compramos. 

Gemini is winning: Sempre foi óbvio. A google demorou a acordar para o campo dos LLMs, mas esse sono já terminou. E tem um conjunto de vantagens estratégicas que a concorrência, da OpenAI aos restantes, não tem: fontes de financiamento que lhe permitem investir à vontade em IA, e acesso a uma enorme quantidade de dados graças à sua posição dominante em muitos mercados da economia digital. 

Las IA abiertas de China no están "ganando" a ChatGPT, están haciendo algo más importante: catapultar a su indústria: O modelo chinês de IA - não são as melhores ferramentas, mas são as mais acessíveis e isso conquista mercados. 

Demos match! O meu namorado é uma IA: Uma excelente análise aos impactos sociais e emocionais da automatização das relações amorosas, mas à qual falta um pormenor, que já tinha sido intuído por Sherry Turkle em Alone Together - o fascínio por robots sexuais ou namoros com chatbots tem por detrás uma fuga à complexidade das relações humanas, e isso é tremendamente empobrecedor. 

Llevamos décadas contándonos que tenemos Internet gracias a la investigación militar. El problema es que es falso: A explicação militar para os primórdios da internet é simplista, e por isso agrada. A realidade é mais complexa. 

The Bots That Women Use in a World of Unsatisfying Men: Há aqui vários subtextos. Um, é o uso de bots para substituir aspetos que faltam nas relações físicas, que esfriam e se tornam indiferentes e rotineiras. Outro, é a sedução do bot responder aos anseios, sem as complicações de ser uma pessoa com personalidade e necessidades próprias. 

The AI Abundance Problem: Sendo direto - o problema da abundância prometida pela IA é que todos vemos que está a ser canalizada num único sentido, o de aumentar ainda mais o lucro dos muito ricos, enquanto empobrece o mundo do trabalho. 

El Cardputer es un curioso ordenador en miniatura que se programa en Lisp: De facto, é um dispositivo interessante. Um M5Stack com teclado, uma placa programável que cabe no bolso.

Pluralistic: AI is how bosses wage war on "professions": Doctorow, como sempre certeiro, a mostrar como as gestões intermédias se aproveitam da IA generativa para se livrarem da chatice de ter de lidar com especialistas que os contrariam.

The Corianis Disaster: Homens lúbricos à caça nos seus óvnis? 

China domina el mundo de la energía renovable, pero tiene un talón de Aquiles: depende de Occidente más de lo que admite: Num mundo globalizado, as interrelações entre países são mais profundas do que imaginamos, e os produtos que parecem ser tecnologicamente dominantes são na verdade o resultado de uma rede complexa de cadeias de produção. Esta é mais uma das razões pelas quais o boomerismo trompista é idiota. 

The Sacrifice of the Danes: O país que agora se está a ver na mira dos senis trumpistas com a sua inexplicável vontade de anexar a Gronelândia (e se o fizer, dá um tiro no pé enorme, desfazendo a NATO e perdendo o mercado europeu) vive um segundo paradoxo: o honrar as mortes de soldados dinamarqueses ao serviço das guerras americanas, onde se empenharam nas linhas da frente iraquianas e afegãs como aliados. 

Cuadrados verdes en mitad del desierto: el "milagro" de Namibia para llenar de uvas los supermercados de Europa: Enverdecer o deserto, ou melhor, usar os escassos recursos hídricos da Namíbia para se poder comer uvas mais baratas na Europa. Os custos ambientais que se danem. A sério, por vezes penso que merecíamos ser extintos enquanto espécie. 

How Russia’s Children Got So Violent: A dessenbilização de toda uma geração, entre a propaganda e desinformação oficial e os rigores de uma vida em estado de guerra. 

A City Cast in Concrete, Trapped Under Unbearable Heat: Se nos climas temperados o urbanismo do cimento armado e asfalto se traduz em desconforto térmico, imaginem nos climas húmidos e quentes dos trópicos. 

He Was Homeschooled for Years, and Fell So Far Behind: Por cá, o ensino doméstico é mais regulado, mas as lacunas são reais. A escola não é apenas um local de transmissão de conhecimentos académicos, e regra geral os pais que se encarregam da tarefa são insuflados pelo dunning-krugerismo de achar que sabem mais do que realmente sabem. As crianças sujeitas a esta parvoíce não só aprendem menos do que os colegas, como aprendem conhecimentos errados (se os pais forem daqueles maluquinhos da religião que têm um chilique por se falar de "corpo humano" ou "teoria da evolução" na escola, e meus caros, já tive de lidar com essa gentalha) e não aprendem a outra grande lição da escola, que é o socializar com crianças num largo espectro social. Quanto aos saberes, chega a ser dramático o nível de ignorância. Recordo o momento em que me pediram para validar os trabalhos da minha disciplina, TIC, de um aluno em ensino doméstico para verificar se estava de acordo com o programa. Perante uma sucessão de exercícios de digitação em Word, indiquei que o programa da disciplina para aquele ano de escolaridade  já há muito que não se baseava naquilo, e estava em falta o mais essencial, a algoritmia e pensamento computacional com aplicação em ambientes de programação visual. Sem grande surpresa, nunca mais me pediram para validar nada, num daqueles típicos casos em que a realidade colide com a fantasia de pais a quem legisladores demasiado ingénuos abriram a porta a patetices. 

My Third Winter of War: As reportagens diárias da Ucrânia não fazem justiça ao sofrimento de um povo debaixo de uma guerra assassina, e que contra todas as expetativas se estão a mostrar capazes de suster a invasão russa. Este muito amargo artigo dá-nos um vislumbre do que é viver neste país assolado por bombas e drones. 

Greenland & the need for a new internationalism: Qualquer que seja o futuro, mesmo que os Estados Unidos recuperem deste período de loucura institucional, está claro que nós, europeus, necessitamos de mais união e de afirmar a soberania. Vivemos demasiado tempo à sombra militar americana, tornando as instituições ativas, mas lentas. Se queremos sobreviver a estes novos imperialismos, temos de nos saber afirmar: "the general thrust is clear: a Europe (and Canada, and other liberal democracies) projecting quiet strength, power and resolve". 

O melhor caça da Luftwaffe em 1944?: Recordar uma aeronave histórica.

Iranians Are Rejecting Theocracy: The Islamic Republic’s Unintended Legacy: Uma das ironias da teocracia - conseguiu fazer decrescer a religião nos seus cidadãos, o que não surpreende, dado o caráter repressivo de um regime que já há muito deveria ter caído. 

Hay una Europa que se asfixia para pagar la vivienda y otra que vive tranquila. Y este mapa muestra las diferencias: Aquele momento em que vês Setúbal equiparada a Paris. O que se passa no mercado habitacional português é inqualificável. 

O macho impenetrável: Giga Chad como armadura digital: Se quiserem ficar a saber mais do que alguma vez imaginariam sobre um dos memes do machismo tóxico de extrema direita, este artigo é para vós. 

Mysterious ‘Dorito-Shaped’ Aircraft Spotted at Night Near Area 51: Mais um x-plane em testes, claramente. 

Denmark Retires its F-16 Fleet After 46 Years of Service: A ironia de todo este processo é que num ambiente internacional surpreendentemente hostil e onde os Estados Unidos se estão a afirmar como adversários da europa, com a Dinamarca a ser alvo de um inédito ataque, as aeronaves que asseguram o futuro da defesa dinamarquesa são F-35 de fabricação americana.

quinta-feira, 5 de março de 2026

Construtores de Mundos


Bruno Maçães (2025). Construtores de Mundos - A Tecnologia e a Nova Geopolítica. Lisboa: Temas e Debates.

Se compreendi bem a premissa deste livro, estamos a viver num progressivo período de virtualização do real, num processo que se iniciou com regras e instituições e agora se afirma nos espaços digitais. O foco está na geopolítica, na forma como os países gerem os seus espaços de influência, e a progressiva virtualização é traçada sob o ponto de vista das instituições transnacionais, da pandemia que acabou por não paralisar o mundo, e o impacto progressivo das tecnologias digitais e IA nas redes de produção, comércio, diplomacia e decisão. Mais importante do que controlar territórios físicos, é dominar os espaços de ideias subjacentes às virtualizações em que assentamos a gestão do mundo.

Há uma certa ironia em ler este livro, claramente otimista, num tempo em que para além dos tremendos desafios das alterações climáticas e do crescente fosso de desigualdades, os velhos fantasmas imperialistas parecem estar de regresso, com a sangrenta aventura militar russa, a afirmação chinesa e o  estertor senil de uma velha ordem trazido pela administração trump. 

Apesar de refletir uma pesquisa profunda, apresentando ideias intrigantes com erudição, noto algumas falhas ao nível elementar da escrita. É por vezes difícil perceber o raciocínio, e o livro está repleto de expressões e formas de estruturar frases que vêm diretamente do inglês americanizado, o que torna pouco claros os seus argumentos. 

terça-feira, 3 de março de 2026

Hot Moon


Alan Smale (2022). Hot Moon. Rockville:  CAEZIK SF & Fantasy.

Ah, sabe tão bem ler ficção científica no seu mais essencial: aventura no espaço e especulação bem urdida. Não me interpretem mal, isto não é um comentário contra as vertentes mais complexas do género, até porque se a FC se tivesse mantido neste espírito clássico não teria evoluído em termos temáticos e estilísticos, e já teria desparecido enquanto género literário. Mas a aventura de deslumbre de premissa simples (mas com complexa construção de mundo ficcional), quando bem feita, recorda-nos a base da FC.

Este é um daqueles livros que não se consegue parar de ler. Não é particularmente complexo, segue as aventuras de uma astronauta cuja primeira missão lunar, no final dos anos 70, a mete no meio de uma disputa da guerra fria que se torna quente. O sonho da astronauta que só quer ser a primeira comandante de um módulo lunar a alunar acaba por se tornar numa sucessão de peripécias quando cosmonautas e o KGB fazem um ataque às estações espaciais e base lunar americanas. O ritmo é vertiginoso, e somos mergulhados numa visão da exploração espacial que coloca soviéticos e americanos em órbita e a construir bases lunares, numa ação de guerra espacial para que a Rússia neutralize uma ameaça militar secreta, com uma base lunar militar americana capaz de lançar projéteis sobre a Terra. 

A aventura segue em grande estilo, com  uma sucessão inaudita de peripécias em órbita ou na superfície lunar. A especulação é destravada e temos de tudo, entre batalhas campais por entre as crateras lunares, périplos desesperados, explosões atómicas e batalhas no espaço... entre módulos Apollo e LEM soviéticos. É, como é óbvio, uma leitura muito divertida, apesar de por vezes a sucessão imparável de sevícias aventureiras em que o autor coloca  a sua heroína se tornar cansativa. 

O lado aventura pura cheia de adrenalina no espaço é temperado por uma excelente dose de ficção especulativa, muito bem informada. O livro é também uma história alternativa, que se pergunta o que teria acontecido se os soviéticos tivessem sido os primeiros a pousar na Lua, e os americanos não tivessem torrado dinheiro e vidas na guerra do Vietname, investindo esses recursos numa corrida espacial mantida ao rubro pela capacidades orbitais soviéticas. O autor fez muito bem o seu trabalho de casa, dando vida nesta sua ficção aos muitos projetos de veículos orbitais, estações especiais, módulos, habitats e veículos lunares que quer os engenheiros soviéticos quer os americanos propuseram, desenvolveram mas não saíram do papel. 

domingo, 1 de março de 2026

URL


Alex Schomburg: Arqueologia do futuro.

The Vision of 2026 in ‘Metropolis’ Is Spot On: Ultimamente, parece que andamos especialistas em implementar as antigas distopias futuristas no nosso tempo presente.

Science Fiction And The Art Of Predicting The Future: Ah, a boa e velha ideia (simplista) que a FC é um oráculo preditivo.

NOSFERATU (1922) Nosferatu, eine Symphonie des Grauens dir. F. W. Murnau: Continua a ser das visões de terror mais arrepiantes. 

Cidadão sem sombra – João Ventura: Resenha ao livro mais recente de um dos mais excelsos contistas do panorama português da literatura fantástica. 


sciencefictiongallery: Moebius - Paris: Clássicos.

Inside ICE’s Tool to Monitor Phones in Entire Neighborhoods: Um olhar para o tipo de ferramentas que passa os limites da cibersegurança para os da vigilância repressiva.

AI Coding Assistants Are Getting Worse: Limitações da corrida de constante aceleração no desenvolvimento de modelos de IA. 

LLMs contain a LOT of parameters. But what’s a parameter?: Compreender um dos conceitos elementares da inteligência artificial generativa. 

“Microslop”: Infuriating Video Sums Up How Microsoft Is Ruining Windows With AI: Compreendo demasiado bem isto. Encontrar as mais essenciais opções nas definições do Windows (algo que bastaria o bom e funcional painel de controlo) tornou-se um pesadelo; a pesquisa de ficheiros simplesmente não funciona, e estão a enfiar-nos IA de qualidade duvidosa pela goela dentro. O sistema começa a tornar-se inutilizável para qualquer coisa que não seja navegar na internet e produzir documentos, e a msft safa-se com este tiro no pé porque sabe que a esmagadora maioria dos utilizadores nem sonha que poderiam usar sistemas alternativos. Um típico exemplo dos efeitos nefastos que o domínio de um mercado por um colosso tem. 

Ratos Logitech com erros nos Mac devido a certificado expirado: Claro, a estupidez (lamento, não há forma simpática de descrever isto)  de adicionar funções e funcionalidades onde elas não são precisas dá nisto. Um rato serve para apontar e clicar, para quê complicar? Poderia ser pior. Poderia ser um rato com IA, e é melhor para por aqui antes que lhes dê ideias. 

LEGO era uno de los últimos refugios del juego analógico. Acaba de abrir la puerta a sensores, luces y sonido en sus ladrillos: Apesar da elegância tecnológica dos novos bricks inteligentes, confesso que fico a pensar no que é que para aquilo irá realmente servir. Os kits lego não são na sua maioria brinquedos, são maquetes complexas que soltaram o gosto pela construção em adultos (eu, confesso, também não sou imune), embora o mercado do brinquedos não tenha deixado de ter a sua importância. Mas não vou entrar em modo velho do restelo, recordando que the street finds a way, e suspeito que em breve vamos ver projetos maker a tirar partido deste intrigante bloco. Só uma nota, o artigo tem uma imprecisão - na verdade, desde o início do século que a Lego investe no brincar com o digital, através dos kits Mindstorm e agora Spike, para construções multimodais programáveis. 

The latest on Grok’s gross AI deepfakes problem: A questão do gerador de imagens do grok poderia piorar? Sim, quando a forma de resolução do problema foi criar uma subscrição que apenas dá acesso às melhores capacidades do gerador a utilizadores verificados. O problema de fundo, o óbvio abuso que é a geração de nus em modo quase deepfake, ainda por cima com a possibilidade de se usarem imagens de crianças, continua. Agora, a sublinhar isto há a aparente impunidade de Musk. Se outros - imaginem uma OpenAi ou uma Google, por exemplo, colocassem online uma ferramenta destas, imaginem o escândalo. 

I met a lot of weird robots at CES — here are the most memorable: Cá por mim, a robótica bizarra é sempre a mais interessante. 

Living without América: As realidades dos contextos geopolíticos obrigam-nos a repensar a origem das ferramentas digitais de que dependemos. A realidade crua é esta - estamos hiper dependentes dos americanos, reverter esta situação e procurar uma verdadeira soberania digital não vai ser nada fácil. 

'Shame Thrives in Seclusion:' How AI Porn Chatbots Isolate Us All: Não só isolamento, como alienação do outro. A sexualidade, por marota que seja, não é algo que deva ser vivido em modo solitário. 

“Los robots no sangran”: el dron ucraniano que frenó a Rusia seis semanas con una ametralladora y ni un solo soldado humano: No front ucraniano, testam-se as novas tecnologias e táticas de combate possibilitadas pela robótica.

Furious AI Users Say Their Prompts Are Being Plagiarized: Ou, em bom rigor, os entusiastas dos mecanismos de plágio irritam-se quando se veem plagiados. 

Una mesa de póker con GPT, Claude, DeepSeek, Gemini y Grok. ¿Quién ganará y será el mejor faroleando?: Não está mal pensado como teste às capacidades dos chatbots. 

Apple chooses Google’s Gemini over OpenAI’s ChatGPT to power next-gen Siri: Não sei o que pensam, mas quando li isto pensei, se a Siri usa o Gemini, como utilizador, para quê usar a Siri e não o Gemini diretamente? 

Splitting Machines: Uma história das tecnologias de virtualização. 

Mais um batráquio em vias de extinção: No fundo, é isto, quando se desliga um destes antigos serviços é todo o registo e memória de um tempo que se perde - "Receio que aos historiadores do futuro falte imensa informação destes tempos, e informação preciosa".

Consumidores sem interesse nos PC "AI" - diz a Dell: Corroboro. Investi num Copilot PC, mas não por estar interessado nas propaladas funções de IA que nem me dou ao trabalho de usar (e a famosa tecla copilot é basicamente um empecilho), apenas por ser na altura me ter permitido adquirir uma máquina ultraportátil potente e com preço convidativo. Uso IA extensivamente, mas tal como a esmagadora maioria das pessoas, nem me dou ao trabalho de configurar o slopware da Microsoft. Já agora, quão perto do inutilizável está a ficar o novo Windows inteligente? Há uns dias tive de ligar um pc de mesa a correr Windows 11 a uma rede de domínio. Algo muito simples de fazer nas versões não inteligentes do sistema operativo, basta aceder às propriedades do sistema no painel de controlo. Com o inteligente 11? As opções necessárias não estavam visíveis em nenhum ecrã das definições e precisei de várias pesquisas dentro das definições para conseguir chegar onde precisava. Uma tarefa de poucos minutos alongou-se para ká do razoável, graças à burrice do design de interfaces da versão "inteligente". Até parece que a microslop não quer que os utilizadores tenham o controlo total sobre os computadores que compram.

‘The Horror In The Museum’ by H.P. Lovecraft, 1971 (Victor Valla): Horrores surreais. 

El CEO de Ryanair tiene claro cómo gobernaría un país. Nosotros tenemos la suerte de que no lo haga: E, para surpresa de ninguém. Aprecio particularmente o desprezo pelos mais pobres de um tipo cujo modelo de negócio é oferecer aos mais pobres a promessa de viagens aéreas baratas, tratando os passageiros como gado. 

The Venezuela Polymarket Scandal Is Looking Really Bad: Qual é o nível ético de se usar estas plataformas para enriquecer, especialmente tendo acesso a informação privilegiada? Alguns degraus abaixo do nível ético intrínseco a estas plataformas. 

How Espresso Fueled The Rise Of Modernity: Como todos bem sabemos - sem cafeína, não há pensamento. 

Is the Iranian Regime About to Collapse?: Mesmo sabendo que o risco de instabilidade naquela zona do planeta é enorme, quanto mais depressa o obscurantismo dos mullahs derrocar, melhor. Entre o fanatismo religioso e o enriquecer à custa de um povo, sem esquecer o papel do regime como sustento de forças terroristas, só há ganhos com o fim deste estado das coisas. 

I Was Kidnapped by Idiots: Há momentos nesta leitura em que tudo parece uma comédia surreal, dada a ineptitude dos raptores. Mas não podemos esquecer o essencial, esta é uma história de violência e cativeiro. 

The Goblin XF-85: the World's Tiniest Fighter Jet: Bizarrias da inventividade aeronáutica dos primórdios da era dos jatos.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Umbra #05


Filipe Abrances (2025). Umbra #05. Edições Umbra.

Sou suspeito nesta recensão, dado que adoro esta revista desde o primeiro número e apoiei o kickstarter desta edição. O trabalho de edição de Filipe Abranches é, como sempre, impecável e consegue a rara proeza de nos trazer a colisão de dois mundos - o da BD mais erudita e experimental com a ficção científica em estado puro. O resultado são histórias muito bem conseguidas, ilustradas com estilos arrojados que fogem ao convencional. Temos um pouco de tudo - o tecno-otimismo pós-catastrofista de Assim Voam as Cegonhas de Pedro Moura e Marta Teives, a clássica distopia futurista anti-conhecimento e livros de Branco Neve por Vasco Colombo, as visões de um Marte quasi-surrealista de Kriz 3-IO de Fernando Relvas, uma obra esquecida que a Umbra promete recuperar, o cyberpunk mestizo de Trujillo por Gustaffo Vargas, e o surrealismo fantástico de A Fronteira Selvagem por Vasco Colombo e Pedro Morais. A capa, de Rita Alfaiate, é extraordinária no seu estilo cyber (e aqui ainda sou mais suspeito, sou hiper mega fã do trabalho desta ilustradora, ai de quem se atreva a dizer que Neon não é uma das melhores obras de BD portuguesa de sempre). 

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Burroughs


João Pinheiro (2015). Burroughs. S. Paulo: Veneta.

Porque é que gosto de frequentar alfarrabistas, perguntam-se? Porque de vez em quanto deparamo-nos com estes grandes achados: um livro que nos surpreende, ou que julgávamos esquecido, ou algo tão fora da caixa que merece espaço na estante. Sim, sou desses bibliófilos, frequento espaços de livros em segunda mão não para me abastecer a preços mais baixos, mas em busca dos bons acasos, da pérola livresca no meio das estantes. 

Esta edição brasileira é uma enorme homenagem ao espírito e à estética de William S. Burroughs, um dos mais marcantes escritores malditos do século XX. Mergulhamos nas visões bizarras de Naked Lunch, mas não de forma linear. Esta não é uma banda desenhada adaptativa, antes, funciona por curtas histórias que nos levam ao universo delirante do escritor, ao mesmo tempo surreal, onírico, disforme e repulsivo. 

A estética visual assenta-lhe como uma luva. Não há linhas limpas, o estilo é áspero, rude mas elegante. O surrealismo literário fica bem ilustrado, com aquela visceralidade incómoda que é uma das marcas da obra do autor que inspirou este livro.

domingo, 22 de fevereiro de 2026

URL

jamabushi: The Book of Atari Software (1983): Retrocomputação. 

HP Lovecraft writes his first letter to Clark Ashton Smith, 1922: Uma das ironias deste texto é perceber que nos dias de hoje, Lovecraft é celebrado e Ashton Smith praticamente esquecido. 

2025 em banda desenhada: Há aqui boas sugestões, a começar por aquele que é o meu manga de FC favorito. 

Nuremberga (2025): Apesar de contar com a história da II guerra no meu radar de interesses especiais, fiquei algo tentado a evitar este filme quando vi a sua duração. Estas observações ajudam-me a manter a decisão - não vale a pena ir ao cinema vê-lo, e talvez nem valha uma tarde perdida na televisão. 

O fim do Alvaláxia: Não partilho da nostalgia do João Campos face ao encerramento desta sala de espetáculos, embora o compreenda - fui frequentador do Quarteto e do King e sei o buraco que deixaram no panorama cultural lisboeta. Guardo também boas memórias do Monumental, não do velho cinema clássico mas do que mais tarde foi construído no edifício de escritórios que substituiu o cinema original.No que respeita ao King, o Nimas e o Ideal, bem como em certa medida o UCI El Corte Inglès, mantém-se como espaços dedicados ao cinema de culto e independente.  Para o Quarteto, nada substitui as suas lendárias maratonas cinematográficas pela noite dentro. Quanto ao Alvaláxia, não me surpreende o encerramento, das raras vezes que lá fui o que me surpreendeu é ainda estar aberto. Aquele centro comercial num estádio é um espaço muito deprimente, mesmo para os padrões dos centros comerciais. Por ironia, tenho um ponto em que lamento o desaparecimento destas salas - foram as únicas onde filmes de Edgar Pêra tiveram estreia comercial. Vi lá os brilhantes Não Sou Nada e Cartas Telepáticas. Bizarro, não é? Ter de ir enfrentar a decadência do centro comercial dentro de uma catedral do futebol para poder saborear o surrealismo cinematográfico de um dos mais arrojados cineastas portugueses. 

My favorite reads of 2025: Um apanhado de leituras que está repleto de boas sugestões.

Reading Is a Vice: Uma boa aposta - usar o anti-conformismo adolescente como forma de estimular a leitura: "It would be better to describe reading not as a public duty but as a private pleasure, sometimes even a vice. This would be a more effective way to attract young people, and it also happens to be true. When literature was considered transgressive, moralists couldn’t get people to stop buying and reading dangerous books. Now that books are considered virtuous and edifying, moralists can’t persuade anyone to pick one up". 

My 2025 in Review (Best Science Fiction Novels and Short Fiction, Reading Initiatives, and Bonus Categories): Uma visão de leitura que visita os clássicos, especialmente os menos recordados. 

A Educação Física, ou a vida pouco charmosa dos adultos: Joana Mosi tem de facto um corpus de trabalho extraordinário, e esta amargura pela desilusão da vida num país que nega condições aos seus cidadãos é generalizada. 

Sussurros (2007) de Orlando Figes: Sobre a opressão mental da vida nos totalitarismos.

What Dante Is Trying to Tell Us: Olhares sobre um dos grandes clássicos intemporais da literatura. 

The Future Leaks Out: William S. Burroughs’s Cut-Ups and Cucumbers: Difícil de ler e genial, é um autor que começa a ficar esquecido. 

Melhores Leituras de 2025: O balanço de leituras da Cristina no Rascunhos, a partir de um volume muito respeitável. 

HarperCollins Will Use AI to Translate Harlequin Romance Novels: Confesso que a surpresa é não estarem já a usar IA para gerar estas literaturas de entretenimento a metro. 

Robotum Delenda Est!: Fui só eu que me surpreendi por o robot apreciar gasolina? 

Los bancos que prestaron 178.500 millones para centros de datos de IA han empezado a cubrirse: ya no se fían de su propia deuda: Leio isto e só consigo pensar: Uh oh. Epá... isto deixa-nos apreensivos. 2026 não traz bons augúrios económicos, com a suspeita crescente do rebentar da bolha financeira da IA. 

The Problem With Letting AI Do the Grunt Work: Muito bem visto. A IA promete libertar-nos do trabalho rotineiro e secante, mas muitas vezes, esse tipo de trabalho é essencial para desenvolvermos a nossas capacidades técnicas e intelectuais. 

Non-Humanoid AI Assistance Robots: Ideias para meter a IA a trabalhar realmente para nós - dispositivos controlados por algoritmos que estão pensados para estar presentes nos nossos ambientes, de forma não intrusiva. 

The Imperfect Homework Machine: De facto, resume muito bem o que os LLMs fazem. 

Yo también conectaba los cables HDMI en el primer puerto que pillaba: estaba desperdiciando la mitad de mi tele: Mas um só cabo não é suficiente? Não. As conexões são normas de comunicação, e à medida que evoluem, a capacidade física dos cabos tem de se alterar para acompanhar as normas.

European banks plan to cut 200,000 jobs as AI takes hold: Recordam-se daquela promessa que a IA nos iria tornar mais produtivos, alicerçando o trabalho individual para fazer mais, melhor e interessante? Esqueceram-se de contabilizar na equação o peso do capitalismo predatório, em que o interesse não é fazer mais ou melhor, mas sim fazer o mesmo, com menos recursos. E por recursos, entenda-se pessoas, que apesar de todas as tretas motivacionais que se partilham nos linkedins desta vida, são sempre considerados pelos gestores como peso, gordura e desperdício. 

Ancient Everyday Weirdness (2026): O ensaio é longo, mas leva-nos a refletir sobre o papel social e individual de tecnologias que damos por adquiridas. 

Qué fue de Technicolor: evolución y muerte de la empresa que cambió el cine y fue arrollada por su ambición: A empresa que definiu o conceito de cor no cinema.

Grok Is Being Used to Depict Horrific Violence Against Real Women: Pois claro que está. Em nome da "liberdade de expressão", os espaços digitais tutelados por Musk são esgotos a céu aberto, que encorajam os seus utilizadores a libertar as suas pulsões mais nojentas. 

People Spent the Holidays Asking Grok to Generate Sexual Images of Children: Não, a sério. Quando se pensa que o descontrolo abusivo de Musk e os seus sequazes não poderia bater mais fundo, eis que mergulha ainda mais no abismo. 

Pluralistic: The Post-American Internet (01 Jan 2026): Não é uma ideia nova, Doctorow já anda a falar disto desde que a administração Trump decidiu trocar as instituições globais pela política das tarifas. E a pergunta que ele faz tem muita lógica: se uma das partes de um acordo comercial decide renegar esse acordo, porque é que as outras partes o continuam a cumprir? Dentro da visão de Doctorow, deixa de haver razão para o respeito legal pelas formas abusivas de proteção de propriedade intelectual que, durante anos, os americanos impuseram aos seus parceiros como condição para acordos comerciais. E, no processo, no nosso caso europeu, avançar no domínio da soberania digital, algo impossível de fazer quando o uso de produtos Microsoft e google se tornou infraestrutural na economia e administração. 

What’s next for AI in 2026: As tendências de desenvolvimento da IA, que poderão ganhar peso neste ano. 

Tech Giants Pushing AI Into Schools Is a Huge, Ethically Bankrupt Experiment on Innocent Children That Will Likely End in Disaster: Confesso que, como professor que usa a IA e a usa com os seus alunos, partilho das preocupações expressas neste artigo. Tento que o meu caminho com eles seja de uso consciente, e evito a todo o custo programas enlatados e inicativas deslumbradas vindas da parte das empresas de IA (não preciso, e recuso, currículos made in Microsoft). Por outro lado, assusta-me a displicência com que demasiados dos meus colegas se renderam de forma acrítica à IA, achando que a prompt é o futuro da aprendizagem. 

Sorry Tamagotchi Fans, It’s AI Time: Sim, mas porquê? 

Los últimos del open source: los proyectos que aún mantienen viva la web libre y gratuita tal y como la soñamos: Internet Archive e Wikipedia, os dois grandes pilares da cultura livre, aberta e abrangente online. 

Sorry, But This Sounds Creepy: How AI Might Put You In The Movie You’re Watching: Dado que Charlie Booker é um enfant terrible da extrapolação de tendências, o verdadeiramente preocupante nisto é o pessoal do marketing o levar demasiado a sério. Tal como os techbros fizeram com o cyberpunk - era suposto evitarmos esse possível futuro, não construí-lo ativamente. 

LEGO’s smart brick is a tiny, self-aware computer – and it doesn’t need a phone: A última novidade da Lego é interessante, quer em termos de cultura quer em tecnologia. 

Europe’s drone-filled vision for the future of war: É a grande lição da guerra na Ucrânia - o que conta são os drones letais baratos e massivos, não os complexos sistemas de armas clássicos. 

UFOロボ グレンダイザ Grendizer: Estilo japonês.

Personal reflections on a Trumpian 2025: No final de um ano de impensáveis, isto - "We are in the horrible position of realising that our protector is actually running a protection racket and it will take years, if not decades, to build European independence and it cannot be done alone". 

Quem foi João do Rio, jornalista carioca apaixonado por Lisboa, que dá nome a uma praça no Areeiro?: Uma curiosa história da cidade, que mostra bem o nosso apreço pelos que olham de fora para nós, e nos admiram. Valorizar, por vezes em excesso, a opinião externa é um dos pormenores do caráter português. 

Is Reading an Analog Clock an Outdated Skill?: Em parte, nas não totalmente, dada a quantidade de indicadores de informação que utilizam a metáfora dos ponteiros. 

La demoscene ya es patrimonio cultural inmaterial de la humanidad en siete países europeos: Uma excelente notícia, reconhecido a importância cultural desta forma vernacular de arte computacional. 

The Ephemeral Sculptures of Domenico Mastroianni: Isto é bizarro - um designer que construía as suas imagens em argila para as fotografar e destruir os modelos, e também com uma certa estética de foleirismo que só os geradores de imagem de hoje permitem replicar. 

Maybe Russia and China Should Sit This One Out: O ano de 2026 começou com mais um impensável executado em modo fait accompli - o rapto do presidente venezuelano através de uma operação militar tecnicamente brilhante, mas questionável em todos os níveis políticos e morais. Passou a tornar-se legítimo usar a força para raptar chefes de estado de quem alguns líderes mundiais não gostam. Não morro de amores por Maduro, um autocrata sob capa socialista, mas o que aconteceu tem um nome clássico: rapto. Ilegal em toda a linha, e mais um pontapé numa estabilidade mundial cuja ilusão de existência está praticamente desfeita (nota: linhas escritas no dia seguinte à operação militar criminosa). 

Leituras da Semana (#97 // 05 Jan 2026): Spot on: "É por isso que se considera que a imprensa livre é um dos pilares de uma democracia saudável; sem essa coragem e essa dedicação, então o Jornalismo pouco mais será do que entretenimento. E aí perdemos todos. Todos, excepto os bilionários". A cobertura dada à facilidade com que o Grok gera pornografia infantil é atroz, em modo de perfeito lambebotismo a musk. O que deveria ser escandaloso, é tratado como uma anomalia menor. 

Pluralistic: A world without people (05 Jan 2026): Doctorow anda em grande, ultimamente. Mais uma crónica imperdível, mostrando como a tecnologia é usada para disfarçar o desprezo que os gestores sentem pela mão de obra que lhes é imprescindível. 

The State of Anti-Surveillance Design: Num mundo de hipervigilância generalizada, onde câmaras em locais públicos são dadas como adquiridas e nunca sabemos a que sistemas estão ligadas, a humilde máscara respiratória e um par de óculos escuros são uma das defesas mais eficazes.  

Elevador de Santa Justa e a formidável audácia do seu construtor: Por cá, Eiffel tem costas largas, todos achamos que construções em ferro forjado vieram da sua lavra, mas nem a ponte D. Luís nem o elevador de Santa Justa são dele. No caso lisboeta, é interessante ver o arrojo que este projeto teve, com aquele incrível vão que liga o elevador ao Carmo.