quinta-feira, 27 de novembro de 2025

Tales From Nevermore


Pedro Nascimento, Manuel Monteiro (2025). Tales From Nevermore. Lisboa: Ala dos Livros.

Estou arrependido por só agora ter lido este tomo. Deparei com ele em Leiria, quando lá estava no clássico encontro do CCEMS, mas achei que esperaria até ao Fórum Fantástico (não estava por lá à venda) ou pelo Amadora BD. O meu compasso de espera deve-se a, em parte, preferir adquirir as minhas leituras do fantástico português diretamente às lojas e projetos que o mantém vivo, e não às cadeias tipo Bertrand. Fiquei logo rendido ao folhear o livro na Bertrand de Leiria, resisti ao impulso de compra, naquele jogo psicológico de adiamento de recompensa. E que recompensa, agora que o li.

Pedro Nascimento e Manuel Monteiro oferecem-nos uma vénia profunda e excelente ao conto curto de terror gótico, bem como à estética magistral da EC comics e Warren nos anos 60 e 70 que se tornou um dos marcos maiores da iconografia do género. As histórias são curtas, incisivas na sua ironia negra, e soberbamente ilustradas. Segue o formato da antologia de terror, com um narrador que nos apresenta os contos e termina tecendo considerações morais, ou amorais, sobre o que acabámos de ler.

O tom de homenagem a todo um género é total, entre a estética visual, narrativa e linguística, formato, ou vénias óbvias como apelidar um corvo de Vincent. Há um toque de intrigante humor negro no livro, especialmente quando os autores brincam com a publicidade infantil que também fazia parte dos velhos comics de terror. 

terça-feira, 25 de novembro de 2025

Urlo


Luca Conca,  Gloria Ciapponi (2022). Urlo - Grito no escuro. Lourinhã: Escorpião Azul.

A Banda Desenhada é uma arte ingrata. Demora tempo a ser concebida, planeada, desenhada e editada. Já a ser lida, muitas vezes é num ápice. Foi o caso deste Urlo, livro que me seduziu pelo grafismo mas surpreendeu pelo ritmo acelerado da leitura. É uma história de terror e suspense, com um homem a tentar sobreviver na floresta enquanto uma criatura esfaimada, acicatada por campónios violentos, lhe dá caça. Uma história de fugas, lutas e momentos inesperados, mantida sempre num ritmo narrativo fortíssimo. Há uma certa circularidade no livro, que se inicia e termina num pântano verdejante, e diga-se que as primeias e últimas pranchas são os raros momentos bucólicos do livro. Isso é sublinhado por serem a cores, a contrastar com o expressivo traço riscado a preto e branco do desenrolar da narrativa.

domingo, 23 de novembro de 2025

URL


Thе Commodore РЕТ offers you а safe passage: Fantasias digitais. 

How Many Is Too Many Books?: Mas isto é uma questão que se pergunte? Nunca são demais. 

20 anos fantásticos: De facto, não é todos os dias que um evento cultural português, ainda por cima amador, comemora duas décadas. Isso deve-se à infatigável teimosia do Rogério Ribeiro, com as pessoas que o rodeiam, em manter um evento que não pretende ser um pólo comercial, mas sim um encontro de criadores e fãs. Este ano, por motivos imprevistos, quase não pude participar (lá se foi a sessão sobre IA para crianças onde ia solta robotzinhos a fugir de humanos), mas vá lá, deu para as imperdíveis leituras do ano, e cantar os parabéns ao festival. 

Fórum Fantástico: Ecos da Ficção Brasileira em Portugal: Somos países-irmãos, com uma história comum, mas o fosso do Atlântico (e, sejamos honestos, apesar de ambos falarmos português, não é fácil entender as diferenças linguísticas, por estranho que pareça) não existem intercâmbios culturais fora de algum mainstream. No que toca à FC, a enorme diversidade brasileira é quase desconhecida por cá. Perdi este painel no Fórum Fantástico, e foi uma pena.

Recomendações de livros para ler em outubro: É interessante ver nas propostas um dos livros de Jorge de Sena mais ligado ao fantástico, e o Físico Prodigioso é de facto uma obra prodigiosa.

A magia imaginativa de World Heist: Novas estéticas de banda desenhada.

The Best Nonfiction Books: The 2025 British Academy Book Prize, recommended by Rebecca Earle: Livros académicos que nos mudam a perspectiva sobre o mundo que nos rodeia.

5202) A Zona crepuscular (9.10.2025): Um texto sobre as ficções que se centram em zonas difusas, onde o tempo e a física não se comportam como deveriam.

Fórum Fantástico: Leituras do ano: As leituras da Cristina Alves, partilhadas no painel clássico do Fórum Fantástico.


Ed Emshwiller’s 1964 cover art for The Radio Beasts: Radiofonias. 

Cada vez me gusta más la tecnología que no quiere nada de mí: la que tiene un propósito y te deja en paz: No fundo, é isto - "El problema no es la tecnología. Es cómo hemos aceptado que debe comportarse. Hemos normalizado que nos interrumpa, nos mida, nos empuje hacia el siguiente contenido. Pero esa lógica no es inevitable. Es una elección de diseño. Y refleja un modelo de negocio". A ironia disto, é que nos queixamos constantemente dos malefícios e incómodos da tecnologia, mas nem nos atrevemos a falar de sequer regulamentar os selvagens modelos de negócio que nos conduziram a este estado das coisas. Ou, sendo mais direto, adoramos proibir os telemóveis porque fazem mal às crianças, mas nunca nos atreveríamos a interferir com a forma como as plataformas digitais operam, obrigando-as a práticas e modelos de negócio que não se baseassem no viciar dos utilizadores através de toda a sorte de mecanismos de manipulação comportamental, porque sequer discutir isso é logo considerado um sufocar do espírito de inovação económica e digital. 

How Do the Normal People Survive?: Um auto-elogio à malta que não entra em parafuso sempre que qualquer coisa avaria. 

Manual de defensa algorítimica, una guía para saber de dónde te caen y cómo defenderte en un mundo cada vez más influido por la inteligencia artificial: Leituras recomendadas. 

A Short History Of Amateur Internet Culture: De facto, os amadores, gente que como eu não dispensa uma parte do seu tempo para produzir algo para a Internet, foram os construíram as mais vibrantes culturas digitais. Um trabalho e estética que as plataformas se apropriaram, mas continua a sobreviver em recantos mais afastados das gaiolas douradas das redes sociais. 

Transformações e licenças: Contributos para o debate sobre questões de propriedade intelectual na agregação de dados para treino de modelos de IA. 

'Red Flag': Analysts Sound Major Alarms As AI Bubble Now 'Bigger' Than Subprime: Uma tecnologia que requer investimentos massivos, mas cujas aplicações não geram retorno financeiro equivalente. 

Kiss reality goodbye: AI-generated social media has arrived: De certa forma, redes sociais onde os seus utilizadores apenas consumam lixo generativo é o corolário lógico da evolução destas plataformas. Da promessa de ágoras onde pessoas de todas as origens poderiam interagir, passaram para o negócio dos influenciadores em menor denominador cultural comum. E diga-se, há pouca diferença entre AI slop e a esmagadora maioria do conteúdo produzido pr humanos que se encontra, hoje, nestas redes. E sim, estão a pensar o mesmo que eu - é estupidificante. 

Lazy Parents Are Giving Their Toddlers ChatGPT on Voice Mode to Keep Them Entertained for Hours: No meu tempo de criança, tinhamos aqueles que os pais deixavam ficar entretidos frente à televisão. Hoje, é a mesma coisa, mas com os chatbots. Mudam as tecnologias, mantém-se os comportamentos displicentes. 

AI Endangering Tourists by Sending Them to Nonexistent Landmarks in Hazardous Locations: Este é um dos mais óbvios perigos dos chatbots - a suspensação da descrença, e a confiança na veracidade da informação dada por uma ferramenta que se sabe ser muito falível. Claro, sendo o capitalismo o que é, suspeito que ainda teremos pessoas que criam atrações turísticas para tornar reais as alucinações dos chatbots. 

Google Confirms Non-ADB APK Installs Will Require Developer Registration: Com isto, a Google transforma o ecossistema Android num reduto seu, impedindo terceiros ou independentes de desenvolver e instalar as suas próprias aplicações. A justificação é, como sempre, a segurança, mas o que a Google realmente quer é aumentar o lock-in dos utilizadores Android. 

Una batería de litio incendiada destruye los datos de 125.000 funcionarios coreanos de los últimos 8 años (y no hay copia de seguridad): Leio isto e fico sem palavras. Centros de dados governamentais sem... cópias de segurança regulares? 

Why I gave the world wide web away for free: Compreendo, e partilho, o desencanto do pai da web - "is the web still free today? No, not all of it. We see a handful of large platforms harvesting users’ private data to share with commercial brokers or even repressive governments. We see ubiquitous algorithms that are addictive by design and damaging to our teenagers’ mental health (...) On many platforms, we are no longer the customers, but instead have become the product. Our data, even if anonymised, is sold on to actors we never intended it to reach, who can then target us with content and advertising. This includes deliberately harmful content that leads to real-world violence, spreads misinformation, wreaks havoc on our psychological wellbeing and seeks to undermine social cohesion". 

Windows 11 com conta online obrigatória durante a instalação: Quão mau é isto? Imaginem a gestão de parques informáticos com grandes quantidades de equipamentos, e a perda de tempo que isto implica. Dá vontade de mudar para linux, não dá?

Amazon Caught Peddling AI Slop Version of Cory Doctorow That’s So Ironic That We Have to Go Outside and Stare at the Sky for a Bit: A realidade fraudulenta a ultrapassar as mais incríveis ficções.

Qualcomm Introduces the Arduino Uno Q Linux-Capable SBC: Não é uma boa notícia, suspeito. Nas mãos de uma corporação como esta, o espírito open source do Arduino vai certamente diluir-se.

How TikTok Gets Its Users Addicted, Scrolling Ever Longer For Content: Sendo proprietário, o algoritmo da bytedance é inescrutável por entidades exteriores. Mas é possível estudar os seus efeitos, através da análise do comportamento dos seus utilizadores. A conclusão é conhecida - o mecanismo é extramente viciante. E não é exclusivo do TikTok, todas as plataformas online comerciais, jogos e redes sociais usam o mesmo tipo de técnicas para capturar e dominar a atenção dos utilizadores. Nesta questão, demonizamos o comportamento do elo mais fraco, o utilizador, enquanto elogiamos a capacidade e empreendedorismo das empresas que deliberadamente desenvolvem mecanismos de viciação para agarrar as pessoas às suas plataformas e aplicações. 

AI toys are all the rage in China—and now they’re appearing on shelves in the US too: Não quero soar muito a boomer ou velho do restelo. Mas mal iremos na altura em que as crianças não vão precisar de antropomorfizar e dar vida imaginária aos seus brinquedos, porque estes se movem e aparentam ter personalidade. É um dano tremendo a um dos mais elementares traços humanos, o desenvolvimento da imaginação. 

Learning to Code Still Matters in the Age of AI: Obviamente. Mas iria mais longe. Usar a IA melhora o desempenho de quem sabe o que está a fazer, ou seja, tem os conhecimentos de base e as capacidades adquiridas com a experiência, as ferramentas de IA. Mas a percepção pública sobre a tecnologia é a de a IA faz por nós, por isso não temos de nos preocupar a adquirir conhecimentos. É a velha displicência e preguiça intelectual tão humana, a revelar-se na era da IA.

Let´s talk about AI Art: Confesso, já me comovi muitas vezes ao visualizar e interagir com arte gerada por IA. Estou a falar de experiências com obras como as de Refik Anadol, Sougwen Chung e Sofia Crespo, entre outras. Mas o termo "AI Art" refere-se não ao uso de IA como ferramenta de criação, mas à proliferação de imagens geradas a partir de prompts, replicando estéticas obsoletas, banalizando iconografias. Em suma, o que se chama AI slop, que nos contamina os feeds das redes sociais e é tão útil e impactante que cada nova tendência de uso de geradores para fazer imagens se esgota em poucos dias. Ou, colocando isto de forma mais concreta, transformar as nossas selfies em imagens estilho ghibli com o chatGPT foi giro durante para aí uns cinco segundos, agora é totalmente cringe. Este comic do Matthew Inman traduz na perfeição o sentimento perante o dilúvio de banalidades generativas: a falta de visão - "And when I watch AI videos, I get the sense that the people making these things are unable to come up with anything genuinely clever beyond the feat itself."; e a mediocridade daqueles que são mais entusiastas a gerar imagens e entupir redes sociais com posts que ninguém, realmente, tem paciência para ver - "AI art enables your average 'Chief Brand Ambassador' or whatever the fuck their job title is to bypass that training and churn out really pretty Clipart."


Two works by Boris and Arkady Strugatsky, art by Kelly Freas and Bob Larkin: Clássicos. 

Chinese Military Investigates What Would Happen If They Shot the Same Target With Three Rapid-Fire Nuclear Missiles: Não há duas sem três, versão guerra nuclear. 

El gobierno de China está descubriendo que vender coches baratos no es suficiente en Europa: los repuestos irán assegurados: O regime chinês (e longe de mim defender uma ditadura) compreende bem a importância dos estímulos à economia. Não aqueles que, como por cá tão bem fazemos, servem apenas para enriquecer empresários e acionistas, mas os que obrigam as empresas a manter padrões elevados, que a médio prazo se traduzem na confiança dos mercados globais. 

NATO TIGER MEET 25 - Epílogo: Confesso, tenho imensa pena que o dia aberto/festival aéreo de Beja tenha sido cancelado, teria sido fantástico visitar estas aeronaves. 

Pediatricians Can’t Bear These Costs: O que retiro deste artigo é o quão disfuncional é o mais elementar de um sistema de saúde num país considerado dos mais avançados, percebendo que uma das proteções básicas que nos tem servido tão bem já há vários séculos, a vacinação, depende da disponibilidade financeira dos que são vacinados. E isto acontece não por falta de meios económicos, mas pelas mais absurdas razões ideológicas, esquecendo que a vacinação de um indivíduo não é um benefício pessoal, mas social, porque trava a progressão de doenças infectocontagiosas debilitantes ou fatais. É pura idiotice. 

A partir del 9 de octubre, las transferencias en la UE ya no serán iguales. Entra en vigor una nueva verificación bancaria: Daqueles normativos que a indústria não aprecia, mas ajuda imenso os cidadãos europeus. 

Na política do viral, matar é um shitpost: Estamos a viver tempos perigosos - "síntese de uma nova cultura de debate político. Em que a forma e a persuasão se sobrepõem à moral, à veracidade ou ao compromisso; e se valoriza o entretenimento do confronto, acima de tudo". 

The Entire Economy Now Depends on the AI Industry Not Fumbling: Os sinais são preocupantes. O afã dos investidores em despejar dinheiro na IA não se está a traduzir nos retornos esperados, e cada vez mais se percebe que talvez nem a longo prazo traga o nível de retorno sonhado nestes dias. Com tanto dinheiro a ser canalizado para o que é cada vez mais óbvio ser uma bolha, as consequências sociais disto poderão ser devastadoras. Mais uma crise onde governos vão safar bilionários, mas desta vez podem perguntar ao ChatGPT variantes equivalentes ao dos pobres que viveram acima das suas possibilidades.

The Disturbing Lessons of the 1937 ‘Degenerate Art’ Show: Recordar os espetáculos de propaganda nazi a mostrar a arte degenerada, ou seja, o experimentalismo modernista, que contrastavam com a pureza estética do regime. Algo a recordar, nos dias de hoje em que os espectros do fascismo andam muito visíveis.

quinta-feira, 20 de novembro de 2025

O Esqueleto


Roberta Cirne (2025). O Esqueleto. Lourinhã: Escorpião Azul.

O mês de outubro alonga-se, a chuva dá-se a mostrar, e as noites começam a pedir leituras de arrepiar. Nestes momentos, quem tem gostos clássicos sabe que o melhor é mesmo saborear as estéticas do horror gótico. Reminiscências oitocentistas, decadências, e almas penadas caem sempre bem, embora pro vezes fique de fora o casarão recortado contra a lua. É o caso deste O Esqueleto, adaptação de um conto de terror gótico de um autor brasileiro do final do século XIX. Com jeito, os trópicos tornam-se soturnos. Não temos as vielas escuras da Europa, mas sim o cruzamento entre a floresta e os traços coloniais portugueses na cidade de Olinda. Mas tudo o resto é puro gótico, entre emoções exacerbadas, dramalhão profundo, amores impossíveis e uma decadência moral que faria corar de vergonha o senhor Dorian Gray. Não pode faltar a lenda, a bela assombração feminina, e a queda na loucura de um homem perdido. O traço de Roberta Cirne evoca na perfeição o barroco negro do estilo gótico com um travo sul-americano, numa adaptação eficaz de um conto que adorei ficar a conhecer.

terça-feira, 18 de novembro de 2025

O Homem Que Sonhou O Impossível


Mário Freitas, Lucas Pereira (2024). O Homem Que Sonhou O Impossível. Lisboa: Kingpin Books. 

Confesso a minha ignorância. Achei bizarro o formato desta edição, até descobrir nas suas notas que homenageia um formato gigante clássico dos comics. Um pormenor que mostra até que ponto vai a fundo esta homangem de Mário Freitas ao grande Jack Kirby. O editor, autor e lojista da mais bonita e  inteligentemente gerida loja de BD em Portugal é há muito um admirador confesso da obra de Jack Kirby, especialmente na sua vertente clássica. Este livro é uma ode à personalidade do criador, embora criada em tom metafórico. As referências não são diretas, mas óbvias para quem conhece a história dos comics. 

Estamos num lar de terceira idade, onde um antigo criador chamado Jack King (e Lirby sempre foi apelidado como um dos reis dos comics) partilha com um assistente as suas histórias e imaginário. O assistente é, também, uma homenagem ao colorista Mike Royer, recordando que no mundo dos comics o trabalho se faz em equipe, e o trabalho dos que aplicam a cor nos desenhos é demasiadas vezes esquecido. O lar é partilhado com outras personalidades que os conhecedores de comics depressa reconhecem como grandes nomes - pensem Steve Ditko ou Wally Wood, e há um confronto de ideias entre a pureza do criador e as pressões comerciais. Sente-se que talvez haja razões legais para tanto nome metafórico - não é boa ideia falar mal de Stan Lee, mesmo que seja para mostrar que sempre se apropriou indevidamente do trabalho de Kirby para proveito da Marvel, e também não é boa ideia falar da banalização extrema trazida pela Disney e a sua diluição dos comics em infindas e entediantes sagas cinematográficas. 

A história de Kirby e dos comics está neste livro, a homenagem quer ao criador quer à golden age é profunda, bem como as críticas diretas ao comercialismo excessivo de Lee e da Marvel. Registo também o enorme rigor de planificação da BD, nada nos painéis foi deixado ao acaso. Não surpreende, dado o profundo conhecimento que Freitas tem das técnicas de BD, e o ilustrador Lucas Pereira acompanha bem o ritmo. Não posso deixar de destacar o painel final, séria e sincera homagem que mostra a profunda influência cultural do imaginário e estética de Jack Kirby.

domingo, 16 de novembro de 2025

URL

Convair Migrator, by John Sentovic: Antigos futuros. 

Some Science Fiction Writers Want To Return To An Earlier Era: Um conto atípico da golden age da FC, que toca de forma precursora no tema das pessoas trans e não binárias. Isto, no campo da clássica FC Pulp, bem antes da LeGuin nos anos 60 se atrever a legar-nos essa obra maior que é Left Hand of Darkness. 

Behind the Scenes of Metropolis (1927): Bolas, o futuro de Metropolis é para o ano? E o futurismo estético do filme está a poucos meses de ser centenário? O tempo passa, e a FC também envelhece. 

Rocky Horror Is Turning Fifty, But It Still Brings So-Called Misfits Together: O sublime encanto de um clássico camp. E eu confesso, nunca resisto a trautear o Science fiction double feature. At the late night double feature picture show. 

La Biblioteca de Babel de Borges convertida en un algoritmo (casi) infinito: Nem sei onde enquadrar isto. Tecnologia? Literatura e ficção científica? Mas é intrigante ver que o software implementa o conceito borgesiano de uma biblioteca infinita, cujos livros contém todas as combinações possíveis de letras. 

Isaac Julien Stages a Sci-Fi Epic in a Renaissance Pleasure Palace: Confesso alguma curiosidade com este projeto artístico, embora sendo high art, não tenho ilusões quanto á sua pomposidade.

Trailer for del Toro’s Frankenstein is pure macabre mythology: Algo me diz que este filme será imperdível.

Urania Abissi d'acciaio; by Isaac Asimov, 1971 (Karel Thole): Clássicos. 

Pluralistic: Plenty of room at the bottom (of the tech stack): Compreendo a posição de Doctorow, mas se por um lado tem toda a razão na forma como as empresas e plataformas nos engaiolam para melhor explorar os nossos dados e lucrar com os nossos problemas, por outro está a cair num viés que é típico de uma certa forma de estar. A minha experiência diz-me que boa parte das pessoas não quer ser incomodada por tarefas complexas, cognitivas ou não. E é esse filão que as empresas explorarm e incentivam, porque utilizadores consciente, capazes de mexer no essencial da tecnologia, são maus para o seu modelo de negócio. 

SAP Exec: Get Ready to Be Fired Because of AI: Estamos a assisir ao momento em que uma tecnologia prometedora está a ser utilizada como justificação para a ganância humana. Levantar o espectro da IA é o novo sonho húmido dos que exploram os seus trabalhadores. Sabem perfeitamente que as ferramentas que temos não substituem humanos, mais, sabem que as ferramentas nas mãos de humanos especialistas (ou seja, bem pagos) os tornam ainda mais capazes e produtivos. Mas pagar a funcionários não é o que interessa a estes gestores, capazes de tudo para maximizar lucros. 

OpenAI’s New Social Network Is Reportedly TikTok If It Was Just an AI Slop Feed: A sério, expliquem-me devagarinho, como se eu fosse muito burrinho - qual é a piada de aceder a uma rede social onde todo o conteúdo é sintético, artificial e gerado por IA? Não consigo mesmo perceber. 

Why the World Needs a Flying Robot Baby: O iCub é um daqueles projetos já clássicos da robótica, seminal para a robótica humanóide e afetiva. A sanidade duvidosa desta evolução altamente questionável torna-o ainda mais fascinante. 

How Our Screens Are Changing How We Interact With The World: Normalmente não partilharia um texto destes, uma típica visão polarizada que doura um passado que não foi tão bom quanto isso e aponta para futuros de descalabros. A literacia, a imprensa, foram de facto a força motriz da democracia, liberalismo e progresso, mas é ingénuo olhar para trás e assumir que toda a população se envolvia através da leitura. É fácil culpar os ecrãs, até porque o lixo audiovisual abunda na sua cultura de oralidade, mas na verdade, suspeito que as coisas não tenham mudado assim tanto. Nos tempos da leitura, os que liam e interviam civicamente eram uma minoria. Hoje, dias dos ecrãs, essa mesma minoria não abandona a reflexão trazida pela letra impressa (mesmo que num ecrã). 

Why Today’s Humanoids Won’t Learn Dexterity: Caminhos para desenvolvimento da robótica. 

Your Review: Project Xanadu - The Internet That Might Have Been: Um mergulho muito a fundo em possibilidades tecnológicas que não chegaram a acontecer, embora prometessem ser mais completas do que as soluções que acabaram por ser adotadas. E as razões para estes falhanços não são técnicos, mas sociais - as personalidades de baixa fiabilidade dos inventores de sistemas como o Xanadu acabaram por afastar aqueles que poderiam realmente implementar e desenvolver estes sistemas.

On 3D Scanners and Giving Kinects a New Purpose In Life: Olhar aprofundado sobre tecnologias de digitalização 3D.

11 Oddball Technology Records You Probably Didn’t Know: Um uptime de 40 anos é algo que só a NASA conseguiria.

Material world, un magnífico libro sobre los seis materiales sobre los que se basa el mundo moderno y sobre los que nunca pensamos: A história dos materiais que permitem as infraestruturas do mundo moderno.

Use of Generative AI in Scams: Para surpresa de exatamente ninguém, certo?

The Alien Intelligence in Your Pocket: Os perigos da antropomorfização de sistemas digitais, bem como o uso displicente do conceito de inteligência.


The Eye In The Sky by Peter Elson: Olhar sobre o gelo. 

Indian Air Force MiG-21 Bison Retires After 62 Years in Service: Confesso que nem imaginava possível que uma aeronave tão venerável como esta ainda voasse, ainda por cima ao serviço de uma potência militar regional. 

The Future Was Then: an Exhibition of Fascist Italian Posters: Vivemos num tempo arriscado para divulgar a estética fascista clássica. Mas, não deixa de ser assinalável que os dois grandes ismos totalitários do século XX - o fascismo e o comunismo soviético, se socorreram de estéticas de vanguarda na sua propaganda. 

Para el ex CEO de Google la ventaja de China está en que siguen aplicando el modelo 996: "si quieres ganar, hay que hacer sacrificios": Nos dias que correm, todos os que são asquerosos andam a sair da toca e a revelar o que realmente são. Como este, para quem as pessoas servem apenas para lhes ser sugada a força laboral até ao tutano. Estes terão de ser sacrificados, para aumentar os lucros aos donos das empresas. Essa é a mensagem.

quinta-feira, 13 de novembro de 2025

Sete Mulheres, Sete Musas


Pedro Moura (ed.) (2025). Sete Mulheres, Sete Musas - Lírica de Camões em BD. Lisboa: A Seita/Comic Heart.

Uma excelente surpresa da Seita, a pensar nas comemorações do quinto centenário de Camões. Cruzar a ilustração de BD com a lírica camoniana, tendo como tema os seus poemas de amor mais tocantes. A adaptação gráfica está a cargo dos talentos de autores como Susa Monteiro, Daniela Viçoso, Jorge Marinho, Miguel Rocha ou José Vargas, entre outros, com curadoria de Pedro Moura. Cada criador traz à lírica camoniana o seu cunho pessoal, resultando numa obra que não é só uma forte homenagem ao mais clássico dos nossos poetas, como também um deleite visual com trabalhos de forte, marcante e encantador grafismo.