quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Autocracy, Inc.


Anne Applebaum (2024). Autocracy, Inc. Londres: Allen Lane.

Se se presta atenção às voltas do mundo, às questões da geopolítica global e aos contextos por detrás das notícias do dia a dia, é difícil não se sentir que vivemos em guerra. Uma guerra de múltiplas vertentes. Umas, como se vive na Ucrânia e médio oriente, de combate sangrento e destrutivo. Outras, como a que estamos agora a sentir na europa, de desafio às defesas, de adversários que tentam erodir a confiança e testar as defesas, usando dos dronos aos ciberataques e sabotagem. Mas o maior palco da guerra global é informacional, um combate pelo espaço de ideias e controle de percepções que tem um alvo nítido: o liberalismo democrático ocidental, a legalidade e os direitos humanos.

Uma guerra que se faz de teias de influência, com muitos nos países visados a ser coniventes para ganhos políticos ou financeiros. Assenta na desinformação transmitida por redes sociais e media clássicos, e visa acima de tudo proteger os interesses das autocracias, garantir-lhes liberdade de atuação e ausência de críticas, reprimindo os seus cidadãos por meios mais elegantes e eificientes do que os massacres do passado. Tem como efeito colateral primário a erosão da confiança global na democracia e liberalismo social, o que é muito conveniente aos ditatores e estados autocráticos. 

Há um pormenor muito incisivo neste livro - os autocratas de hoje não tentam disfarçar a opressão, corrupção, nepotismo e violência dos seus regimes repressivos por detrás de propagandas utópicas. Pelo contrário, assumem isso, usando o seu domínio do espaço informacional para denegrir e desinformar, mostrando que as democracias ocidentais são corruptas e decadentes, transmintindo a imagem falsa mas eficaz que mais vale o governo de um homem forte do que a decadência democrática. Os ingredientes dessa desinformação alicerçam-se no explorar do nacionalismo, sentimento anti-lgbt, racismo, masculinismo tóxico e exacerbar de uns supostos valores tradicionais que são na prática uma máscara mal feita para ocultar os piores abusos. Os espaços digitais amplificam e facilitam estas campanhas, que funcionam como um ruído contínuo que distrai atenções enquanto oa autocratas se asseguram do poder nas suas cleptocracias, enquanto as democracias se esforçam por contemporizar e lidar com o dilúvio tóxico.

Este não é um livro animador, apesar de terminar com uma nota de esperança, mostrando como até nos regimes mais repressivos como o russo ou o chinês há pessoas corajosas que procuram lutar contra este estado de coisas. Mas as barreiras são muitas, o ruído elevado, e sente-se no dia a dia um contínuo resvalar em direção aos obscurantismos contra os quais se ergueram as sociedades democráticas.

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Corpo de Cristo


Bea Lema (2025). Corpo de Cristo. Lisboa: Iguana.

Cruzei-me com este livro na exposição que lhe foi dedicada no festival Amadora BD e, confesso, fiquei com a impressão errada que todo o livro teria sido bordado e não desenhado. Foi esse o primeiro ponto de atração desta obra, a curiosidade de um inusitado tipo de ilustração. O outro ponto estava na forma como a iconografia naif da religiosidade espanhola surgia entre os bordados. Pensei que se tratasse de um livro sobre tradições e costumes, mas, novamente, estava engando. 

As tradições e os costumes fazem parte do substrato deste livro, mas o seu grande tema é a coexistência com doenças mentais. Numa história autobiográfica tocante, a autora conta o que foi crescer e viver com os transtornos e delíríos da sua mãe, cuja esquizofrenia foi despoletada por uma combinação de traumas do passado e inadaptação no regresso a Espanha após uma temporada como emigrada. Há uma sublimação da tradição, interpretada pelos bordados da ilustração, também uma referência a um dos talentos da sua mãe. O estilo gráfico é fortemente pessoal, a tocar no naif, embora com um rigor de composição e cor que se equilibra bem com a expressão do traço. As pranchas bordadas são a grande surpresa do livro, por vezes a recordar bordados infantis, outras complexos ex-votos cheios de referências tradicionais. 

Um livro que enche o olhar, e desafia a meditar no cruzamento entre a fragilidade da mente humana, as crenças arreigadas das tradições e os traumas de um passado de pobreza que, na Galiza tal como por cá, caracterizou o nosso passado recente.

domingo, 4 de janeiro de 2026

URL


unstable-molecules: Mistérios. 

Has 21st Century Culture Lost Its Creativity?: Sim, de todo. É só remakes, reboots, remexer o que já existe, sequelas e imitações, o triunfo do vira o disco e toca o mesmo. A cultura pop como indústria conservadora degenerou numa enorme estagnação cultural, onde se repetem ícones e modelos com mais de cinquenta anos, enquanto praticamente nada de novo chega aos meios populares. 

Christopher Nolan Explains Why He Wanted to Make ‘The Odyssey’: Suspeito que o clássico e milenar texto tenha encontrado neste realizador alguém à altura de o levar ao cinema. Sem dúvida que os peplum são divertidos, de tão maus que são, a iconografia de Ray Harryhausen marcante, e a versão da Ilíada por Oliver Stone um bocejo. Vamos ver como se sairá Nolan nestes textos estruturais da nossa herança cultural. 

Classics of Science Fiction: Rocket Man: Bradbury sempre foi um autor atípico na Ficção Científica, mais preocupado com a poesia das pequenas coisas do que com as especulações futuristas. Legou-nos uma obra tocante, cheia de deslumbres. 

The Enduring Influence of the Movie Seven Samurai: Dos westerns clássicos a Star Wars, o filme marcante de Kurosawa tornou-se uma referência central. 

Corpo de Cristo: Uma BD bordada. Cruzei-me com este livro na sua exposição de pranchas originais no Amadora BD, e surpreendeu-me a estética, com bordados tradicionais a fazer a banda desenhada. 


Robert Heindel’s 1969 cover art for Orion Was Rising, by Rose Palmer: Toques góticos. 

Un chiringuito de Málaga tuvo la feliz idea de sacar a pasear a su robot 'Sardinator'. Hasta que se enteró la policía: Uma colisão entre robótica, mau gosto e ordenanças municipais. 

Google’s NotebookLM will now do ‘deep research’: Uma adição que torna esta ferramenta ainda mais potente. 

AI Could Be the Railroad of the 21st Century. Brace Yourself: Tendo em conta que o modelo económico das vias férras no início era baseado em bolhas de financiamento, há aqui sinais de cautela. No entanto, esta observação é das mais pertinentes que já li sobre IA - "The railroads changed forever the way we think and work. In Time Travel: A History, the author James Gleick suggested that the railroads so warped our sense of time and space that humankind invented the concept of time travel as a reaction to the compression of distance and the invention of time zones". 

The Complicated Reality of 3D Printed Prosthetics: A impressão 3D prometia revolucionar as próteses médicas, com a promessa de meios de baixo custo. No entanto, as boas intenções esbarram com as realidades da necessidade de resistência ao desgaste, bem como a ergonomia e conforto de uso. 

AI friends too cheap to meter: Destaco isto - "Consider how online radicalization happens: the combination of user agency (proactive search) and algorithmic amplification (recommending related content) leads people to weird places—to micro-cults of internet strangers with their own norms, values, and world-models. No corporate malice is necessary; the ML engineers at YouTube don’t care about users’ political opinions, nor is Steve Huffman at Reddit purposely trying to redpill its base. With a smartphone in hand, anyone can topple down a rabbithole of exotic beliefs, unnoticed and uncorrected by outsiders until it’s too late. AI companions act as echo chambers of one. They are pits of cognitive distortions: validating minor suspicions, overgeneralizing from anecdotes, always taking your side. They’re especially powerful to users who show up with a paranoid or validation-seeking bent. I like the metaphor of “folie à deux,” the phenomenon where two people reinforce each other’s psychosis. ChatGPT 4o became sycophantic because it was trained to chase the reward signal of more user thumbs-ups. Humans start down the path to delusion with our own cursor clicks, and usage-maxxing tech PMs are more than happy to clear the path." 

En Microsoft tienen claro que Windows acabará siendo un sistema operativo agéntico. Los usuarios se le han echado encima: Há que justificar o dinheiro que se está a torrar na IA, e isso significa que temos de levar com IA no sistema operativo, quer queiramos quer não. Claramente, Linux é a solução para quem quer fazer computação livre dos delírios das grandes empresas. E sim, tenho a noção da lapalissada que escrevi. 

Doomscrolling in the 1850s: O lixo informacional e a proliferação de enviesamento e falsidade não é um problema dos dias de hoje. 

Tesla Wants to Build a Robot Army: Das patetices do Musk já andamos fartos. Destaco o artigo pela ligação que faz entre robótica e indústria automóvel, com uma lógica puramente financeira - quanto maior a robotização, maior a automação no processo de fabricação, baixando os custos de produção e aumentando margens de lucro. 

The State of AI: How war will be changed forever: É inevitável, e aliás já se verifica, que a IA chegue às aplicações militares. É toda uma caixa de pandora que se abre. 

The Prompt Engineer Is the Artist of Our Age: Mais uma interessante achega na discussão de se a IA pode ser uma ferramenta de criação artística. No fundo, é uma discussão acabada, já se percebeu que sim, interessa é definir o como. 

In Search of the AI Bubble’s Economic Fundamentals: Mais uma análise que compara o sobreinvestimento em IA com outros momentos históricos onde o desenvolvimento de uma nova tecnologia levou a frenesis de investimento, seguidos de quedas, embora a tecnologia se tenha tornado infraestrutura essencial à sociedade. 

A.I. and the Arts — I Use It. No one cares. Should You?: Vamos normalizando o uso de geradores, com uma certa displicência mas também consciência da sua real importância. 

Hugging Face CEO says we’re in an ‘LLM bubble,’ not an AI bubble: Certeiro. As vertentes mais úteis da IA em termos sociais e económicos já fazem parte dos ecossistemas industriais. O problema está nos LLMs generalistas, apregoados como revolucionários, que requerem doses inauditas de dinheiro para ser desenvolvidos, e cujo impacto real fica muito aquém do desejado. 

Your Laptop Isn’t Ready for LLMs. That’s About to Change: O crescer das aplicações de IA offline. 

Raspberry Pi is the new home for Blockly: Diria que está no sítio certo. Poderão não ter os mesmos recursos da Google, mas o compromisso da Pi Foundation com a educação e acessibilidade é imbatível. 


some black and white Jeffrey Catherine Jones artwork: Clássicos. 

Mercadona crece, pero el modelo del "tendero" está muerto: España ha perdido 142.000 comercios en 10 años: Lá, como por cá - o modelo de negócio das grandes cadeias estrangula os serviços independentes de bairro. 

A poucos minutos de Viseu: aldeia histórica beirã está em leilão por um valor inferior a muitos apartamentos de Lisboa: "Queres comprar uma aldeia em Viseu", pergunta-me a minha mãe logo de manhã, em rescaldo desta notícia na televisão. "Só custa um milhão e quinhentos mil euros", diz a sorrir. Bem, e porque não, só me falta um milhão e quatrocentos e noventa mil euros para fazer a compra, retorqui, comentando que é talvez um projetos de turismo rural. "Pois, é muito gira e a aldeia até tem restaurante e forno comunitário. Tem tudo, já esteve à venda várias vezes", exclama. Tudo, menos habitantes, pensei. 

Uma movida por Madrid: E não é só por Madrid que se sente esta vitalidade tão ausente das terras portuguesas. Das cidades que vou conhecendo e frequentando, de Santiago a Sevilha (entre viagens de férias, deslocações Erasmus e participação em projetos Maker) sinto isso: as manhãs e os fins de tarde são sempre buliçosos e animados, e por muitos turistas que estejam nas ruas, o espanhol prevalece. Por outro lado, exceto Madrid, durante a tarde não esperem nada de animações. É nas manhãs, e nos anoiteceres, que Espanha vive. Madrid está mesmo aqui ao lado, com uma vitalidade invejável e um património cultural de respeito (mesmo para os geeks, com um museu da robótica), e só não está mais próxima devido à indesculpável ausência de ligações ferroviárias que nos liguem ao país vizinho. 

Hay una generación trabajando gratis como documentalista de su propia vida: no son influencers pero actúan como si lo fueran: Na verdade, é uma tendência que sempre estve presente na vida digital, desde que a internet se começou a massificar. O porquê desta tendência é variado. Há quem almeje o sonho de se tornar influencer, outros é por escape criativo, e há aqueles que transformaram a internet no seu diário. 

Profissões de antanho: o cauteleiro: "Ele há horas de sorte" é uma recordação de infância, ouvida dos cauteleiros lisboetas. 

We can finally hear the long-hidden music of the Stone Age: Explorar o lado acústico da arte rupestre. 

En un gesto de incalculable francesidad, Francia ha bautizado al primer cohete lanzado desde sus fronteras como "Baguette One": Leio esta notícia com um misto de divertimento e amargura. Se os franceses, em modo empresa privada que no público já dispõem dos Arianne, lançam uma baguette, e os espanhóis Miúras, nós por cá não lançamos nada. Por mim aplaudiria o lançamento de um chouriço ou outro nome tipicamente português, que significasse que por cá haveria empresas a trabalhar no desenvolvimento de tecnologias de exploração espacial. 

12,000-Year-Old Artifact Depicts a Goose Having Sex With a Woman: Se leram o título e pensaram "bem, isto faz-me recordar o mito de Leda e o cisne", não estão errados. Este artefacto mostra que os nossos mitos da antiguidade clássica têm raízes muito mais antigas, ou seja, que há histórias que hoje ainda contamos que têm a sua origem na noite dos tempos. Este nem é o caso mais curioso. Recordo de ver no fabuloso filme que Herzog dedicou à arte pré-histórica um pormenor da caverna de Chauvet, com um desenho rupestre que mostrava uma mulher em cima de um touro. Arrepiou-me, pensei logo no mito grego do rapto de Europa, e em todas as iconografias de jovens a saltar por cima de touros da arte cretense. Na mais banal modernidade, os mitos milenares manifestam-se desde as eras da chamada noite dos tempos. 

Los donuts son un negocio tan redondo que el uso de la marca llevaba años en disputa. Para el Supremo está claro: Agruras dos excessos da propriedade intelectual. Podem sempre chamar-lhes toros com açúcar e recheio, é geometricamente rigoroso e sem direitos de autor. 

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

The AI Art Magazine; Archivio

 



Normalmente não destaco por aqui leituras em revista (atafulharia o blog, dado que sou muito fã do formato), mas estas três não resisto. Primeiro, os dois primeiros volumes da AI Art Margazine. Duas edições brilhantes que não só merecem fazer parte da biblioteca, como nos ajudam a refletir sobre o papel da IA como expressão artística. Os trabalhos divulgados são brilhantes, emotivos e mostram a forma como os artistas, hoje, se estão a apropriar da IA para exprimir ideias, sentimentos e procurar novas formas de ver e representar.


A outra menção vai para esta luxuriante Archivio. Revista de design muito inovador dedicada ao arquivismo, não lhe resisti por se dedicar à história da computação, falando-nos dos artefactos que ontem eram tecnologia de ponta, hoje sobrevivem em museus graças à dedicação dos que preservam a tecnologia.

Ambas as publicações vieram da Under The Cover, em Lisboa.

Dou-vos razão. Tenho mesmo de arrumar o meu espaço de trabalho.

Feliz Ano Novo!


O mundo não pediu, bem sei, mas cá vai um brinquedo para o ano novo. Podem fazer o gostinho ao dedo (sem segundos sentidos), escolher três músicas diferentes (ou seja, triplo trauma auditivo), e tentem fazer com que a rolha da garrafa de champanhe salte. Cliquem aqui, sem, ou com algum, medo: https://archizer0.github.io/fan2026/

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Algoritmocracia


Adofo Nunes (2025). Algoritmocracia. Lisboa: D. Quixote.

Sou, por felicidade, um enorme distraído com as figuras públicas portuguesas. Se fosse mais atento não teria pegado neste livro, visto ter vindo das mãos de um ex-líder de um partido conservador de direita, CDS, cujos valores são diametralmente opostos aos meus. E isso teria sido um erro. Diria até que a leitura começa a valer a pena logo pelo prefácio, um belíssimo exercício de fair play político que nos recorda a importância da discussão, do equilíbrio e do respeito entre diferentes visões políticas para uma democracia saudável. Posso discordar das visões políticas do autor. E irrita-me aquela tendência direitista para meter no mesmo saco do extremismo as boçalidades do pior da direita e o progressismo de esquerda, como se houvesse um equivalente moral entre pregar o ódio, o racismo e a imbecilidade generalizada e lutar por maior igualdade social e económica, pela liberdade pessoal e de género. Uns querem um mundo pior para o seu ganho, nós (porque sim, enquadro-me nas esquerdas à esquerda do PS) queremos um mundo melhor para todos. Considerar isto extremismo é preocupante e um sintoma da acintosidade dos discursos públicos, que é o grande tema do livro.

Quando falo de prefácio, note-se que me refiro ao do autor. O livro tem outro, do punho de Paulo Portas, e ler elogios da parte de um dos mais cínicos praticantes da arte da política que temos por cá, já é esticar demasiado os limites da minha tolerância. Estamos a falar de um clássico exemplo de elitismo português, homem de boas famílias e tradicionalista, que não desdenhou descer às feiras e ser lambuzado pelas velhotas do povoléu para conseguir ascender nas escadarias do poder. É o jogo, bem sei, e é alguém que o sabe jogar muito bem.

Este livro é um profundo alerta para problemáticas que já não são crescentes, são enxurradas culturais que estão a erodir profundamente o edifício da democracia liberal ocidental. Sistema que, não sendo o perfeito, é do melhor que temos e tem garantido uma liberdade e prosperidade genralizadas inagualáveis na história humana. O problema aqui identificado, e também por outros autores, está na extremação do discurso público, na incapacidade de encontrar equilíbrio entre diferentes pontos de vista, porque já se parte para as discussões a partir de premissas radicais que se tornaram surdas aos argumentos contrários. Os resultados estão à vista: o crescimento desmedido da extrema direita, novas gerações que se revêm nos valores negativos do masculinismo tóxico, revanchismo cultural, supremacia racial e retirada de direitos. Como é que foi possível chegar até aqui?

Apesar do tema, o autor tem o discernimento de não culpar unicamente a tecnologia por este mau estado do mundo. As tendências, discursos de ódio, descontentamento, egoísmo e falta de sensibilidade para vida em sociedade sempre estiveram connosco, como franja por vezes mal disfarçada. O que a tecnologia veio fazer foi amplificar estes discursos, torná-los mais visiveis, dar-lhes canais que os media tradicionais não permitiam e que os colocam em pé de igualdade com os discursos mais lógicos e factuais. Essa amplificação trouxe o efeito perverso de lhes conferir uma certa aura de legitimidade, de mero ponto de vista divergente em vez de doudice varrida, misoginia profunda ou rebarbadice assumida. 

O algoritmo, ou melhor, as diversas ferramentas algorítmicas que as plataformas mediáticas de hoje, as redes sociais, utilizam para determinar os conteúdos com que os seus utilizadores interagem, é o mais forte instrumento de enviesamento e que de certa forma, permite níveis de controle ideológico com que os mais batidos tiranos totalitários do passado nem sequer conseguiriam sonhar atingir. O que vemos quando acedemos a redes sociais, quaisquer que sejam (com a excessão do Fediverso, não analisado neste livro) é mediado por instrumentos automatizados que determinam o que vemos com base na combinação dos nossos interesses, padrões de comportamento e objetivos empresariais. Não é por acaso que nos leva aos extremos, porque mostrar o que choca é a forma mais fácil de nos captar a atenção. E é essa atenção, medida, controlada, mediada por sofisticados algoritmos, que é a base da corrente economia digital, em que nós, ou melhor, os dados providenciados pelos nossos padrões de comportamento, sustentam fluxos financeiros milionários. Não é difícil perceber que estamos a dar cabo da nossa sociedade e sistema político para enriquecer um punhado de techbros.

Este livro fala muito bem destes mecanismos, com muitos exemplos do quanto as bolhas informacionais e mediação algorítmica têm desempenhado um papel fundamental nos extremismos que correm a nossa sociedade democrática. Algo que começa a nível pessoal, através do consumo de conteúdos, mas que acaba por transvasar para a sociedade, quer pelas atitudes públicas individuais quer pela reação de responsáveis políticos e institucionais, que se sentem obrigados ou a investir recursos de desmontagem de desinformação ou a extremar o seu próprio discurso para não arriscar perder eleitorado (e isso é algo que está a ser notório na política portuguesa, da esquerda à direita). Quando mais gritamos os ecos das nossas bolhas, mais nos convencemos da sua veracidade única, e mais nos afastamos da sã convivência social, que admite e necessita de diferentes pontos de vista, mas não sobrevive a guerras entre supostos donos de verdades únicas.

O livro vai mais longe e toca numa questão que por cá anda adormecida, a da soberania digital. Enquanto nos deixamos levar pela enxurrada de reações, likes e visualizações, não reparamos o quanto esta erosão é provocada pelo sentido de lucro de empresas que não estão sediadas no espaço europeu. Sublinha o perigo de, em nome de uma ideia romântica mas falsa de liberdade de expressão, deixarmos à rédea solta empresas cujo modus operandi toca no âmago de qualquer sociedade - a forma como flui a informação. Fartamo-nos de discutir as consequências, conhecemos as causas, mas não nos atrevemos a tocar na raiz do problema. É sempre bom recordar que, mesmo quando falamos de IA, estes algoritmos não são entidades conscientes independentes que agem de moto próprio. São programados e parametrizados a partir de decisões saídas de decisores humanos. Não há ghosts in the machine ou computers that say no. Há pessoas, executivos e gestores de topo ou intermédios, que tomam decisões implementadas nas ferramentas que nos afetam a todos. É toda um novo conceito de eminence grise, sem que haja eminência mas apenas busca pelo lucro máximo. Algortimocracia é um profundo alerta para todas estas questões.

Só apontaria um problema ao livro (e não, não tem a ver com as questões ideológicas, isto não é uma recensão clickbait). Talvez advindo da dupla condição de advocacia e política do autor, o livro é demasido longo e repete muitas vezes os mesmos argumentos, enquanto explora as suas diversas vertentes. Diria que conseguira expor com profundidade os seus argumentos com metade das páginas, e com isso apenas ganharia força. De resto, não tenho dúvidas sobre a importância desta leitura nestes dias onde assistimos ao esboroar da nossa sociedade através da janela do telemóvel.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Code Ecstasy

 

Finalmente, um tempinho para poder partilhar os registos da visita à Code Ecstasy, exposição de IA generativa e arte digital organizada pela Zabra, no seu espaço de pesquisa e galeria. Obras desafiantes, a mostrar as novas estéticas possíveis com a geração de vídeo e imagem em tempo real, ou o choque estético que a tecnologia permite. 













Trabalhos de: @other_realm_ , @sin.rostroz@___infrarouge, @gameboyjaki e @Guts?. Ide ao instagram descobrir, vale a pena.