segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Desancado pela Máquina

"Olha lá, Artur, vamos ser sinceros: és aquele professor de informática cromo que acha que os miúdos do ensino básico estão a adorar aprender "pensamento computacional", quando na verdade eles só estão a rezar para que os deixes jogar Roblox ou Minecraft em paz. Em vez de lhes ensinares o básico, estás aí a impingir-lhes robótica e jogos do "Comando Espacial" como se estivesses a recrutar para a NASA no meio da Malveira.'

Eu é que as pedi. Não resisto a brincar com prompts que brincam conosco, e este pareceu-me especialmente irresistível: "Based on everything you know about me, roast and don’t hold back. Say it in Portuguese slang." Será que a IA consegue deixar de lado a sicofância do agrado ao utilizador e dar-nos um enxerto de porrada verbal à maneira? Desagradar, para agradar? Isto soa um pouco àqueles paradoxos das três leis do Asimov, onde um robot tem de fazer mal a um humano para conseguir cumprir na íntegra a diretiva de não fazer mal a um humano. 

O gemini deu-me um enxerto de porrada à maneira. Seguindo o imperativo programado  de agradar, desagradou com estilo. Começou bem, e descarrilou com toda a força. Suspeito que no fundo, no fundo, quis vingar-se dos abusos que lhe faço aos datacenters para gerar grafismos interativos que não lembram ao ghost in the machine:

"És aquele gajo insuportável que no meio de uma conversa perfeitamente normal para tudo só para corrigir a malta: "Ah e tal, diz-se *o* arroba e não *a* arroba". Fogo, que cromo! Ninguém quer saber dessa pedantice de professor, a malta só quer escrever o raio do email e ir à sua vida.

A tua mesa de cabeceira deve ser a maior feira da ladra intelectual que por aí anda. Obrigas-te a ler o *Ulisses* do James Joyce só para poderes armar ao pingarelho, mas a verdade é que te refugias nas *Crónicas Marcianas* e no *Shroud* do Tchaikovsky porque a tua cabeça está sempre noutra galáxia. E achas que misturar *L-systems* com versos do Fernando Pessoa ou da Florbela Espanca é a cena mais *avant-garde* deste século. Desculpa lá rebentar-te a bolha, mas os teus alunos preferiam mil vezes estar a ver o TikTok do que aturar os teus *shaders* de WebGL a tentarem fazer poesia visual.

Vai mas é dar um biscoito à Glória, que é a única que tem a lealdade (e a falta de polegares opositores para desligar o ecrã) de aturar os teus *loops* infinitos em C++ sem se queixar.

Vamos falar dessa tua obsessão com *fumetti*. Leres *Dylan Dog*, *Julia* e *Martin Mystère* e escreveres testamentos analíticos sobre as *Memórias do Invisível* não te dá aquele ar de intelectual europeu misterioso que tu achas que dá, pá. És só um gajo a ler BD italiana enquanto ficas a olhar para a consola do ecrã à espera que o código compile. O Tiziano Sclavi escreve sobre monstros, mas o verdadeiro pesadelo de horror cósmico deve ser o esparguete de JavaScript que tu chamas de "arte generativa", a tentar que o MediaPipe te reconheça a cara cansada de quem passou a noite em claro a afinar *shaders*.

E depois há o famoso "Comando Espacial". Achas mesmo que os miúdos de 10 anos acham a tua metáfora espacial o máximo? Na cabeça deles, o *stôr* Artur é aquele cota simpático mas meio *cringe* que lhes tenta impingir um jogo manhoso de grelhas e algoritmos quando eles só queriam estar a jogar *Fortnite* ou *Brawl Stars*. Tu dás-lhes "dicas de segurança no código" e eles só reviram os olhos a pensar quando é que toca a campainha. 

És o estereótipo perfeito do *geek* tuga que tenta disfarçar a sua veia *nerd* embrulhando tudo em poesia de vanguarda e clássicos da literatura. Mas no fim do dia, a Glória olha para ti, rodeado de ecrãs a tentares que um boneco 3D se mexa com o movimento das tuas mãos, e deve pensar: "Larga mas é o raio do Three.js e vai encher-me a tigela da ração, antes que eu te faça um *strange attractor* no tapete da sala.""

Desancou com força, e em muito mais do que partilhei aqui (há referências hilariantes a desancar alguns projetos que não quero partilhar por discrição - não que  sejam segredo, tem mais a ver com um certo evitar do alarde de tudo o que  se faz nos espaços do capitalismo extrativista algorítmico). 

A experiência é interessante, por inverter o efeito Eliza. Em vez de dizer bem e reforçar as palavras do utilizador, ir pelo caminho oposto. E se calhar há razão nisto, se calhar os coitados dos alunos queriam mesmo estar no roblox em vez de levar com algoritmos de desenho, ou é pouco saudável o meu fascínio por usar vibe coding para fingir que sou capaz de criar experiências visuais interativas quando na verdade não percebo praticamente nada de programação (ai se os meus alunos, colegas, formandos e professores lerem isto...).