Flavio Ferlini (2026). Arte e scienza: Dalle caverne all’Intelligenza Artificiale. Città di Castello: Odoya.
É um mito confortável, pensar que não há relação entre as artes e as ciências. Diria até que é iconografia batida, especialmente na cultura pop, a representação do artista como alguém etéreo e instintivo, em oposição ao rigoroso e metódico cientista. Na verdade, as coisas não são bem assim, a suposta clivagem entre os mundos das artes e ciências é muito relativa, e as relações entre eles são muito intensas. É claro que são áreas distintas, com interesses e objetivos muito diversos, mas dependem muito mais uma da outra do que a mitografia superficial julga.
Este livro demonstra muito bem quão profunda é essa relação. E vai a fundo. Seria óbvio analisar as relações ciência e arte no século XX e XXI, mas atreve-se a ir até à pré-história para demonstrar esta relação. Que, ao longo da maioria da continuidade temporal histórica, se foca essencialmente naquilo que hoje chamamos a ciência dos materiais, através do desenvolvimento de pigmentos ou processos de fundição de vidro e metal, um saber artesanal que antecede em muito o método científico. A antiguidade clássica, com a tradição greco-romana, traz outros dois elementos proto-científicos - a preocupação com o naturalismo e o rigor anatómico, bem como as sistematizações geométricas que mais tarde viriam a ser recriadas com a noção de perspetiva linear.
Um elemento interessante deste livro é que não se contenta com a habitual visão eurocêntrica da história de arte, olhando para o que se fez, para os vestígios, obras preservadas e registos históricos de outras épocas e civilizações. Mostra que dos aborígenes australianos à arte africana ou pré-colombiana, os artistas sempre exploraram de forma metódica meios e materiais, num misto de tradições e experimentação técnica cujos vestígios chegaram aos dias de hoje.
A partir do renascimento, o livro converge, necessariamente, na tradição europeia. A invenção, ou em bom rigor, sistematização das leis matemáticas da representação geométrica abriram um novo espaço na relação entre ciência e arte. Esta passou a basear-se num misto de mão eximia e rigor matemático, abrindo caminho e relacionando-se com as ciências ópticas, o estudo das propriedades científicas da luz e da cor, e, claro, o contínuo desenvolvimento de novos pigmentos e técnicas de tratamento de materiais. O estudo da anatomia, para além do rigor da representação exterios do corpo, abre-se ao interior e ajuda à compreensão científica e médica. Entra também o naturalismo, como forma de aliar o rigor gráfico ao estudo da natureza.
O final do século XIX traz consigo a revolução química, que deu aos artistas novos pigmentos e materiais, conjugado com a revolução óptica trazida pelo impressionismo, que procurava trabalhar a própria luz de acordo com as suas propriedades. A invenção da fotografia abre novos campos de representação, com a exploração sistemática das abstrações e da arte óptica.
No momento contemporâneo, as forças da ciência e tecnologia tornam-se em si quer materiais artísticos, quer linguagens de representação. A mecanização da escultura com a arte cinética, a explosão criativa trazida pela informática nos domínios da arte algorítmica, programação criativa, realidade virtual e impressão 3D. E, nos dias de hoje, a capacidade da inteligência artificial, que tanto pode banalizar a produção pictórica como levantar questões sobre a especificidade da criatividade como algo intrínseco ao humano.