Rui Cunha, João Amaral (2019). A Voz dos Deuses: memórias de um companheiro de armas de Viriato. Lisboa: Arcádia.
Adaptando um romance de João Aguiar, esta banda desenhada transporta-nos aos tempos da romanização, do processo de ocupação da Ibéria pelos romanos. Um processo de conquista militar e campanhas de pacificação, bem como de absorção dos povos autóctones. No centro, a figura quasi-mítica de Viriato, o líder lusitano que conseguiu manter uma longa revolta e travar algumas vitórias contra as legiões. A sua sobrevivência era impossível, dado o poderio militar romano, mas lutou contra o invasor, e ficou mitificado na história como ícone da liberdade face ao opressor, aproveitado como símbolo nacionalista português.
A história conta-se através das memórias de um guerreiro que o teria acompanhado, cruzando a sua história pessoal de homem irrequieto que não se consegue fixar numa terra e segue o caminho de guerreiro naqueles tempos conturbados. A história toca no misticismo pré-romano de Endovélico e Trebaruna, reconstitui as cidades das tribos e reinos do que se veio a tornar a Lusitânia, leva-nos a conhecer os seus povos e gentes, tendo a guerra contra Roma como pano de fundo.
O estilo visual segue o caminho da ilustração, servindo mais como apoio ao texto. A reconstituição gráfica dos povos e iconografias é muito cuidada e assente em investigação. O livro é palavroso para BD, advindo do estilo narrativo e didático da obra, e é aqui que fica o seu ponto fraco: o trabalho de legendagem é horrendo, dificultando a leitura do que de resto é uma excelente abordagem ao nosso passado pré-romano.