Valentina Tanni (2025). Exit Reality. Roma: Nero.
Não é um tipo de conteúdo digital que chegue aos normies, aos grandes públicos. Também não é nenhum tipo de imaginário que se preza por ser oculto e pouco acessível, pelo contrário, mas sendo criador de estéticas fora do espaço visual comum, não chega às maiorias, cortesia do efeito amplificador de algoritmos que raramente nos dão coisas a ver que estejam fora do que os dados agregados indicam ser os nossos interesses.
E, no entanto, se estivermos a fazer doomscroll, é provável que algum deste conteúdo nos chegue aos olhos. Vídeos estranhos, entre o surreal e o nostálgico, música levemente dissonante que se entranha no ouvido, estéticas que podem ir do hiperrealismo digital ao vídeo hipnótico cheio de glitching e potencialmente indutor de ataques epiléticos. Quando isso nos chega aos olhos, significa que os algoritmos nos fizeram chegar às zonas de vanguardismo estético de que este livro tenta fazer um catálolgo. Do vaporwave às backrooms, passandos pelos 'cores (do dreamcore ao weirdcore), até entrar no campo visualmente bizarro que são as tiktok farlands.
O curioso sucesso do filme Backrooms trouxe ao mainstream um pouco do dinamismo destas estéticas digitais de subculturas. As backrooms, essa metáfora moderna de um horror baseado na extrapoloção surreal da hipermodernidade, são uma das estéticas, ou movimentos culturais de nicho (a distinção é fluída) que este brilhante Exit Reality nos traz.
O livro constrói-se como catálogo de estéticas, mas também como trabalho de sociologia digital. Num meio criativo mutável, que vive dos fluxos dos sites, agregadores e redes sociais, a autoria e o comentário dissolvem-se, há que levar em conta os múltiplos clones que se agregam em tendências, e a voz dos comentadores torna-se geradora de perspetivas sobre os conteúdos.
Exit Reality leva-nos num périplo pelas estéticas do vaporwave, backrooms e espaços liminais, 'cores que vão ao âmago de estéticas intrigantes, e finalmente, os espaços de magia, onde os criadores parecem dissolver as barreiras entre a vida real e o imaginário por intermédio dos espaços digitais. Se bem que, apesar do título, estas estéticas não representam fugas à realidade. Antes, são reações à normalidade, entre a nostalgia e a procura de visões tangenciais, e no fundo representam uma fascinante ebulição criativa que usa o digital para criar novas visões, iconografias e estéticas desafiantes.