terça-feira, 2 de junho de 2026

Viagens

A Câmara de Mafra surpreendeu-me com uma prendinha gira por ter participado no seu encontro de partilha de práticas pedagógicas, não com os meus projetos, mas com os da escola Algo que para mim foi mais interessante, porque, para falar do que faço, há muitos sítios, mas já que se falaria do que se passa neste concelho, queria também mostrar o para além do que faço na minha escola, trazendo projetos dos meus colegas. Não foi possível ser todos, obviamente, que são muitos, mas tentou-se. 

Porque é que estou assim tão agradado com a prenda? Porque me ofereceram livros. O primeiro éo vencedor do Prémio Literário de Mafra. Confesso que terá certamente muitas virtudes, até por ter sido o primeiro lugar no Prémio Literário, mas eu e a literatura mainstream, como já devem ter percebido, não nos cruzamos. Este, vou doa-lo a uma biblioteca livre, daquelas de troca gratuita de livros.

O que me surpreendeu foi o segundo livro. Uma edição novíssima, acabadinha de sair pela Porto Editora. Uma viagem pelas escolas do Portugal de norte a sul de Sampaio da Nóvoa, que me está a intrigar porque esteve presente nesse encontro de professores em Mafra, e disse uma coisa muito interessante.

Estava a falar-nos deste livro, de como o escreveu, literalmente indo às escolas a visitá-las, e o que é que elas faziam. E disse uma daquelas coisas, que é uma verdade incómoda sobre a educação: visitou muitas escolas, com muitos projetos lindíssimos, mas que boa parte eram projetos para show-off de professores. Não, verdadeiramente, projetos para as crianças, para os alunos. Ouvi-o dizer isso, e fiquei por um lado incrédulo, a pensar, "espera, este tipo teve a lata de dizer uma coisa que todos sabemos que acontece". Por outro lado, fiquei agradado porque compreendo muito bem isso.

A verdade é que eu, como professor que faz projetos com os alunos e essas coisas todas, aprendi essa lição na pele. Felizmente, ensinaram-me que o que interessa num projeto com crianças não é o ser bonito, espetacular, oy encher o olho. mas sim que os envolvidos façam as coisas, se divirtam com isso e aprendam. E que o que eles fazem, por simples que seja, vale muito mais do que um excelente artefacto ou um produto multimédia, muito bem conseguido mas que não teve a intervenção direta deles, ou quando muito, interviram apenas de formas muito específicas.

Confesso que me veio à cabeça uma memória traumática de quando comecei a fazer projetos com crianças, com a programação e robótica, e entrei no circuito das apresentações, dos clubes e das mostras de projetos e tudo isso. Sempre com muitos elogios ao que eu fazia. E esse era o problema, era o que eu fazia, não o que eu fazia com os alunos. 

Na primeira vez que percebi que esse não era o caminho certo, disseram-me ao qualifiicar um projeto que eu tinha mostrado como, basicamente,  um one-man show. fiquei a pensar, conversei com pessoas que admiro imenso e que me apontaram esta crítica. Por muito giro que seja o artefacto, o projeto, qual  foi o papel dos alunos? Eles mexeram? Fizeram? Meteram as mãos na massa? Experimentaram? Ou ficaram a ver o professor montar?

Essa crítica, certeira, obrigou-me a repensar o que eu fazia, na sua forma. Espero, francamente, sem querer assumir o papel de líder de projetos perfeito ou algo assim, que tenha conseguido ultrapassar essa barreira. Esforço-me sempre ao máximo, quando há mostras de projetos, de mostrar aquilo que os meus alunos conseguem fazer, e não mostrar aquilo que eu consigo fazer. 

Até porque sou professor. Posso fazer coisas muito giras, com programação, robótica e outras tecnologias, mas aquilo que eu faço não interessa mostrar. Porque, e agora isto é um bocado cínico da minha parte de observar, o que interessa é mostrar aquilo que eu consigo que que os meus alunos consigam fazer. Isso é o importante: o que eles foram capazes de fazer, o que eles atingiram, os novos horizontes, as experiências, o sorriso deles. O sucesso docente manifesta-se pelo sucesso dos discentes. O resto é pessoal, não interessa para os fóruns educativos. 

Podemos não ter os melhores projetos e os alunos mais bem preparados, mas temos alunos curiosos e atuantes. E não, como já vi nalguns campeonatos de robótica em que por milagre os meus não ficaram nos últimos lugares, muitos grupos onde os alunos estão sentados enquanto os professores se afadigam a afinar e programar o robot, porque o que lhes interessa é levarem o troféu para a escola, e não que os alunos passem pela experiência. 

Por isto, fiquei curioso com esta leitura. Bem sei que livros é uma algo que eu tenho aos quilos, tenho imensos para ler em várias pilhas, mas vou olhar para  este com carinho e ver o que é que está lá dentro. 

Até porque, através da reflexão dos outros, nós ficamos com mais armas para refletir sobre o que nós próprios fazemos.