Isabel Ricardo (2015). A Revolução da Mulher das Pevides. Lisboa: Saída de Emergência.
A grande virtude desde romance é atrever-se a enfrentar um dos períodos mais violentos da história portuguesa recente, o das Invasões Francesas. É um tema que sinto que se fala pouco, geralmente reservado para as comemorações de algumas batalhas ou em resumo histórico. Mas quanto mais leio sobre estes tempos, mais se desenha na mente a imagem de um país a ferro e fogo, de uma invasão violenta que despoletou uma rebelião que gerou ainda mais violência. Não foi a guerra civilizada de soldadinhos de chumbo que manobravam nos campos de batalha que as reconstituições gostam de nos mostrar. Pelo contrário, foi um combate contínuo de guerrilha e insurreição em paralelo com as forças regulares, com repressão sem quartel e atos vingativos por parte dos invasores.
Este romance centra-se na Nazaré desses tempos, logo na primeira invasão. Assistimos aos tempos da retirada da corte portuguesa para o Brasil, à ocupação francesa seguindo as ordens de não resistência do rei, à revolta surda da população que acaba por explodir em rebelião aberta. Esta, após sucesso inicial, é esmagada com violência extrema pelas tropas francesas, com um enorme custo para a população civil.
A autora baseia-se em fontes primárias nazarenas para contar esta história, o que é outra virtude deste livro. Parte das personagens existiram, e a sua memória perdura neste romance que procura relatar um passado que já se tornou tradição. Nisto, é ambicioso, mas a tentativa que faz de retratar o máximo de personagens da terra leva a alguma dispersão literária. Seguimos os nomes, as suas aventuras, desventuras e nalguns casos finais tristes de extrema violência, mas não conseguimos estabelecer empatia com os personagens.
Não ajuda haver alguma incoerência narrativa. A princípio o romance foca-se muito numa personagem, mulher do povo que se aproveita da sua beleza para eliminar soldados franceses com promessas de amores que acabam pelo penhasco abaixo. Depois muda de registo e tonalidade para relatar de forma romanceada a rebelião popular e o seu esmagamento. Termina com uma outra linha narrativa, onde uma jovem sobrevivente de uma tremenda atrocidade se cruza com dois jovens, um português e outro espanhol, vivendo os tempos finais entre sede de vingança e o acompanhar das forças anglo-portuguesas. Aqui a história chega a ser inconsistente, o romance que irá desabrochar nesta fase é um óbvio artifício para prender o leitor, mas fortemente implausível dado que a personagem em questão sofreu múltiplas violações enquanto assistia a violações e atrocidades cometidas contra os pais e irmãs, tendo sido a única sobrevivente. E em resposta a este trauma, depressa se apaixona pelo português que foi um dos seus salvadores. Algo que do ponto de vista psicológico não faz muito sentido.
O romance também procura enquadrar-se a nível histórico. Fá-lo incorporando personalidades reais como Godoy, Junot, Napoleão ou Wellington como personagens, e também com infodumps expositivos que saem da boca dos personagens que seguimos. Diria até que o último quarto do romance é essencialmente uma desculpa para a autora explicar a batalha do Vimeiro.
Apesar de interessante na sua temática, o romance beneficiaria de alguma sintetização, sente-se como uma leitura excessivamente longa que se deixa demorar em demasiados pormenores. A reconstrução histórica é muito cuidada e detalhada, mas apesar dos esforços da autora não conseguimos empatizar com as suas personagens. Em parte porque as suas falas seguem um certo romantismo patriótico, e também pela decisão de tentar transmitir o sotaque nazareno. Faz sentido, mas torna a leitura cansativa.