terça-feira, 19 de maio de 2026

A Guerra Civil em Portugal


Rui Vieira (2025). A Guerra Civil em Portugal - A Luta Sangrenta entre Liberais e Absolutistas (1817-1834). Lisboa: Colibri.

Talvez um pouco esquecido das memórias institucionais, está o facto do início do século XIX ter sido por cá uma época de violência extrema. Primeiro, com os tempos duros das invasões francesas, em que todo o país se tornou um campo de batalha e guerrilha. Finda a ameaça napoleónica, veio o período de instabilidade política de uma monarquia constitucional que resvalou para o absolutismo miguelista. O resultado, uma violenta guerra civil, cheia de atrocidades, fuzilamentos, bandoleiros assassinos ao serviço dos realistas, a par dos combates mais convencionais entre os exércitos liberal e absolutista. Um tempo onde o país esteve a ferro e fogo, mergulhado no fundo do ódio e violência sem quartel.

Olhando para este período do passado recente, sempre suspeitei que deixou sequelas na mentalidade lusa que se repercutiram ao longo do século XX. A implantação da República em 1910 não foi particularmente violenta, e apesar de algumas intentonas, não resvalou para guerra civil. Sem querer branquear o legado do Estado Novo, é de notar que apesar da repressão violenta, a ditadura salazarista não mergulhou no tipo de violência assassina que caracterizou o nazismo ou o franquismo. Os nossos presos políticos eram encarcerados e torturados, não abatidos a tiro. Claro, as guerras coloniais/de independência foram violentas, com atrocidades cometidas, não podemos esquecer isso. Já o 25 de abril, apesar dos períodos conturbados, notabilizou-se pelo parco derramamento de sangue, e, tal como em momentos anteriores, as forças não se mobilizaram para guerras civis. É como se a nossa memória colectiva mantivesse arreigada o instinto de saber o pior que pode acontecer quando um povo se torna inimigo de si próprio. 

Claro, a esclerosidade e anacronismos quer da monarquia quer do estado novo nos momentos da queda também contribuíram para esta relativa paz nas nossas revoluções. No fim da coisa, quando os regimes desabavam, não havia muitos com real disposição para mexer uma palha para os manter.

Reflexões despertadas pela leitura deste estudo histórico que detalha a violência da guerra civil entre liberais e absolutistas, um período que durou entre 1817 e 1834. Nem todos esses anos foram de guerra aberta, mas os desmandos, ajustes de contas, revoltas e repressões violentas caracterizam esses tempos. O livro detalha os principais acontecimentos, com um olhar crítico sobre a forma como o poder, especialmente o absolutista, desprezava a vida humana e usava o terror sobre as populações como arma política, espalhando o medo. A leitura é factual e detalhada, com muitas citações da época, mas mais do que um estudo académico, consegue transmitir a amargura de um momento muito negro da nossa história recente.