Jean Cocteau (2016). Visão Invisível. Lisboa: Sistema Solar.
Talvez não tenha sido a melhor escolha para entrar na obra de Jean Cocteau, do qual apenas conheço o magistral filme Orfeu. Este livro colige crónicas, artigos, contos surreais e textos dispersos. Não me tocou, provavelmente por ser mais apropriado a um conhecedor profundo da obra deste artista surrealista do que a um iniciante. Fui embalado pelo surrealismo dos contos, mas pouco mais. Sabem o que isto significa: terei de procurar outro ponto de entrada.
Esta semana, os nossos destaques vão para a programação do Amadora BD, os prémios Ataegina e... curtas de Rick and Morty (nem preciso de descrever). Fala-se de inteligência artificial criativa, mísseis hipersónicos e metaversos. Reflete-se sobre assombrações sumérias, cadeias globais de fornecimentos, e da influência discreta mas perene dos Velvet Underground. Outras leituras vos aguardam, nas Capturas da semana.
O Coração na Boca: Um lançamento da Escorpião Azul, que me parece muito prometedor.
Amadora BD 2021: Programa e convidados: Regressa o mais clássico festival de BD em Portugal, com um programa abrangente e renovação dos espaços de exposição.
Angelo Brea: Por Causas Naturais: Recordo como agradável, embora não perfeita ou excelente, a leitura deste livro de contos de ficção científica de um autor galego. Mas, como observa esta análise, não é uma obra perfeita e está cheia de incoerências.
The Me You Love In The Dark #3 Review: Focused and Intimate: É uma das séries de terror mais interessantes do momento. A premissa centra-se numa artista que vive numa casa assombrada, mas a sua relação com a assombração não é de todo de terror, mas sim de puro romantismo. No entanto, sabendo que é uma série de terror, sabemos que este delicado romantismo sobrenatural irá conduzir a algo terrível. Este sentimento, conjugado com uma narrativa claustrofóbica que subverte as premissas do romance amoroso, torna esta série muito interessante.
Halloween Kills Featurette Talks The History Of Michael's Mask: Um halloween sem Halloween, bem, parece incompleto, e este ano temos mais um filme desta inesperada saga nos cinemas. Fico sempre impressionado com o filme original, um slasher low budget entre o giallo e o sobrenatural, e a forma como capturou a imaginação de gerações de fãs do terror cinematográfico. Bem, claro, como os arrepiantes acordes da música de John Carpenter, aquele minimalismo eletrónico conjuga-se perfeitamente com o tom escuro de uma obra que se tornou ícone da cultura pop.
Rick and Morty Drops New Short "The Great Yokai Battle of Akihabara": A curta anunciada não está disponível por cá, mas o post do Bleeding Cool tem outras, em estilo anime por Takashi Sano ou Kaichi Sato e 8bit pelo incrível Paul Robertson. Os anime são brilhantes; o 8bit? Profundamente insano (e não recomendável se sofrerem de epilepsia).
Lloyd Biggle Jr.: Maneira Doida de Lecionar: Um conto que me faz pensar num dos chavões educativos contemporâneos, o "há professores que pela maneira como ensinam, poderiam ser substituídos por rogpt".
British Royal Disses William Shatner’s Spaceflight: A grande parvoíce deste tipo de declarações é a ideia que ir ao espaço e salvar o planeta são mutuamente exclusivos. Não são, mesmo que a motivação de alguns dos envolvidos pareça ser encontrar formas de escapar aos problemas terrestres. A estupidez fica ainda mais sublinhada se se observar que quem faz estas declarações é um membro da família real britânica, alguém que o que faz na vida é aparecer para ser fotografado em eventos e vive da riqueza acumulada, mas não da geração de riqueza.
Ataegina Awards – The Best Short Stories in bilingual editions: Uma iniciativa conjunta da Imaginauta, Fórum Fantástico, Portuguese Portal e (extinto, a ficar esquecido) Sci-Fi Lx, que atribui prémio aos melhores contos submetidos, dando voz aos novos autores da Ficção Científica e Fantástico portugueses.
Horror Abstrato: É, de facto, a melhor característica do auge cinematográfico de Dario Argento, a forma como a estética do terror se torna uma espécie de abstracionismo surreal. Contrariando o Lorde Velho, também sou da opinião que isso se encontra de forma magistral em Suspiria, com a forma vibrante, arrojada e inesperada como usa e abusa das cores saturadas.
Revista Magazine de Ficção Científica nº 9: O Sci-Fi Tropical restaura mais uma edição da versão brasileira da venerável FC & F, e ganhamos todos os leitores, de ambos os lados do Atlântico.
The Most Influential Science Fiction Books In History: Confesso que fiquei com dúvidas sobre a real influência de algumas das obras salientadas no artigo, parecem-me demasiado recentes ou relevantes em contextos muito restritos.
Is Email The Worst Form Of Communication Ever?: Confesso que entender o email como negativo por estimular as pessoas a escrever. Por outro lado, se já tentaram ou estão envolvidos em gestão de projectos em que os intervenientes prefiram usar mensagens instantâneas, sabem o inferno que isso é. Por muito chato que seja o dilúvio de emails, as rajadas de mensagens no Signal, messenger ou Whatsapp são indutoras de desejos de adquirir uma caçadeira e experimentar os prazeres do assassinato em série.
The Real Problem Of Instagram: Bem, convenhamos, a censura a nus não é bem o pior problema que o instagram tem. Influencers vácuos, enviesamentos e projeção de imagens corporais inatingíveis e por isso traumáticas para adolescentes são questões bem mais gravosas.
Hannes Bajohr: “Só uma Inteligência Artificial Fraca pode produzir uma verdadeira novidade”: Uma interessante discussão sobre o potencial da inteligência artificial na arte, como ferramenta nas mãos dos artistas.
Core might be the Vegas of the metaverse: O intrigante nisto é ver como o conceito essencial de mundo virtual se mantém igualzinho desde sempre. Continua a metáfora da transposição de arquitecturas reais, interação por avatares. Hoje usa-se webgl ou unity como há dez anos se usava o Second Life (recordam-se?), ou há vinte o VRML. Até mesmo o nome dado à tecnologia, continua decalcado da visão irónica de Neal Stephenson no clássico Snowcrash.
Scientists Use AI, 3D Printing to Uncover Hidden Picasso Painting: Usar raios-x para analisar pinturas e descobrir variantes, versões iniciais, rascunhos ou outras pinturas que o artista apagou e reaproveitou a tela já é uma técnica normalizada em história de arte. A novidade aqui foi o terem usado um algoritmo treinado na obra de Picasso, para especular sobre o estilo desta obra que o pintor nunca chegou a concretizar.
UK schools are using facial recognition to take pupils’ lunch money: Coisas boas do Brexit - já não precisam de se preocupar com empecilhos do tipo ética no uso de tecnologias com impactos que vão bem além da sua restrita utilização. Se as crianças crescerem habituadas a vigilância permanente, tornar-se-ao adultos que nem sequer sonham com ideias do tipo privacidade.
Review: The Field Guide to Understanding ‘Human Error’: Erro humano é, na verdade, uma forma das organizações descartarem as suas falhas e processos incorretos, apontando para pessoas específicas quando algo corre mal.
Have we evolved to trust machines?: Por estranho que pareça, a nossa propensão para confiar em máquinas e mecanismos tem um nome, enviesamento mecanicista.
Modernidade
Saul Steinberg: Retrospetiva de um ilustrador capaz de comunicar com uma única linha.
The Taliban Is Just as Bad as It Always Was: Não há aqui grandes surpresas. Vencedores improváveis de uma guerra mal gerida, não passam de zelotas ultra-conservadores medievalistas, e mal os olhares do mundo se desviem logo começarão a impor a sua bárbara visão de governo sobre um país que, mais um, está claramente considerado como caso perdido pela comunidade global.
The Rock Band That Redefined Counterculture: Recordar os brilhantes Velvet Underground, cujo som arrastado, ruidoso e canções negras ou ambíguas estão na origem de imensas variantes do pop e rock, especialmente nas suas correntes sonoras mais interessantes e independentes.
Remystifying Supply Chains: Leitura longa, que nos leva a refletir sobre a complexidade, interrelações e fragilidades das redes globais de fornecimento e comércio de materiais.
A POST-NEOLIBERAL REGULATORY ANALYSIS FOR A POST-NEOLIBERAL WORLD: Talvez focar o desenvolvimento global apenas no desempenho económico seja um erro, discute este texto. Será? Bem, olhando para o crescimento das desigualdades, o resvalar do progressismo em direção ao autoritarismo, ou os problemas trazidos pela alterações climáticas induzidas pelo sistema económico que se foca no crescimento e lucro contínuos... bem... "talvez"?
Human History Gets a Rewrite: Uma forma abrangente de olhar a História, desafiando a linearidade a que estamos habituados.
The future of remote work is text: Telepresença? Avatares 3D em ambientes virtuis? Ou, simplesmente, escrever e comunicar de forma assíncrona? Uma visão funcional do trabalho remoto e colaborativo, que assenta na documentação e partilha escrita, em vez de sobrecargas de videoconferências e agendas carregadas.
Deepfakes — The End Of Truth?: Bem, na verdade os deepfakes são apenas mais uma variante de uma tendência muito, muito antiga, a de criar informação falsa para direcionar a opinião pública.
E.E. Doc Smith (1972). Suicídio no Espaço. Lisboa: Edições Dêagá.
A galáxia está sob ameaça de um poder vindo do exterior. A ameaça militar foi travada pelas forças da patrulha espacial, mas os atacantes usam o tráfico de drogas como forma de enfraquecer os defensores. Os ataques vêm de outra galáxia, já sob domínio do poder ameaçador. A missão da patrulha espacial é dupla: expulsar os inimigos do seu interior, caçando os traficantes, e levar os combates às bases espaciais inimigas na outra galáxia.
Uma missão que conta com uma ajuda especial, o corpo de Lensmen, agentes com capacidades super-humanas, ativados por uma civilização alienígena que espalhou pela galáxia as sementes deste poder físico e mental. Destes, destaca-se o Lente Cinzenta, cujas capacidades se sobrepõem aos restantes, e age com total autonomia. Partirá numa missão quase suicida, entre comandar forças de ataque às bases e frotas inimigas, ou infiltrar-se nos redutos criminosos para expor as redes às forças de segurança. Missões que irão colocar à prova as capacidades físicas e mentais do Lensman.
Sob este título algo infeliz está Grey Lensman, um dos livros da série Lensman de E.E. Doc Smith. Space opera clássica, típica aventura espacial pulp que se esforça por criar vastos mundos ficcionais, povoados por criaturas humanas ou alienígenas que se defrontam num enorme tabuleiro de jogo galáctico. A leitura vale pela referência histórica, para se ficar a conhecer as raízes quer da Ficção Científica moderna quer da space opera, bem como a influência na origem dos populares personagens de comics que são os Lanternas Verdes (troquem Arisia e os Arisianos por Oa e os seus Guardiões, os Lensman pela tropa de Lanternas Verdes, e não irão notar muita diferença).
Este é um livro corajoso, algo atípico no panorama português, onde a BD autobiográfica não é usual. Uma obra fortíssima, que nos abala, que pega no tema da paternidade, da dedicação de um pai à sua filha, para um exame reflexivo às vicissitudes da vida. É preciso coragem para expor estas fragilidades tão a público, numa obra muito pessoal. Resenha completa na H-alt: O Coração na Boca.
Jason Aaron (2020) Jane Foster, Vol.2: No Fim de Todas as Coisas. São Paulo: Panini.
Jane Foster é uma personagem frágil, entre ser médica a lidar com a sobrevivência ao cancro e ser a encarnação das Valquírias, o que lhe dá novas perspetivas sobre a morte. Nestas aventuras, Foster terá de se unir aos médicos-heróis da Marvel - para além dos suspeitos do costume, Doctor Strange e Night Nurse, Jason Aaron vai recuperar três personagens mais obscuros, numa missão para salvar a Morte de uma doença mortal. Uma conspiração por um dos mais sombrios filhos de Odin para libertar um mal antiquíssimo e, com isso, usurpar o trono asgardiano mesmo que isso signifique reinar sobre a devastação é o outro desafio colocado a Jane Foster, que no processo irá descobrir que os limites dos seus poderes como Valquíria são mais vastos do que imagina.
Donny Cates, Cory Smith (2020). Guardiões da Galáxia, Vol. 2: Infiel. São Paulo: Panini.
Com uma força imparável vinda do futuro a capturar heróis cósmicos para alimentar os motores da sua nave, nem os Guardiões da Galáxia lhe conseguem resistir. Vinda do futuro, a força irresistível de uma seita religiosa que venerava Magus, aspeto malévolo de Warlock parece derrotar todos os que a enfrentam, numa galáxia em que as várias civilizações se começam a posicionar para uma guerra. Resta um debilitado mas mesmo assim imparável Rocket Raccoon para travar a ameaça. E, fraco e à beira da morte, fá-lo-á com o seu habitual flair para a hiperviolência, com ajuda de um fato robótico. Nas mãos de Cates, esta série tem-se sabido manter no equilíbrio entre humor e space opera pura, e este arco narrativo não é exceção.
Apesar da mensagem fortíssima deste livro, ao terminar a leitura não o consegui ver como uma obra acabada. A narrativa é dispersa, com múltiplos pontos de vista e personagens cujo percurso nem sempre é claro. Termina de forma inconclusiva, a sensação que fiquei quando virei a última prancha foi que na edição se tinham esquecido de imprimir a página seguinte. A mensagem é poderosa, quer em termos ambientais quer no potencial dos movimentos grass roots para se atirarem aos problemas dos contextos locais, e nisso o livro é bem sucedido, insiste e reforça essas mensagens. Recensão completa em H-alt: Abandonos.
Esta semana, destacamos banda desenhada portuguesa de ficção científica, ficção de Lem e as fugas à literatura de género. Fala-se do direito ao reparar, das capacidades do RSS, da tecnologia panopticon chinesa, e de robots armados. Reflete-se sobre arte abstrata, a queda de Roma ou livros satíricos. Outras leituras vos aguardam, nas Capturas desta semana.
Umbigo do Mundo #1: O livro está na pilha de leituras, capturado no Fórum Fantástico. Conhecendo as capacidades quer do Penim Loureiro, com o seu traço fabuloso, quer do Carlos Silva com a sua ficção científica dura, só posso esperar o melhor desta série.
Increase In Queer Superhero Comics, Not Some Corporate Woke Agenda: Suspeito que vá haver choques, com o anúncio previsto para o filho do Super-Homem. Especialmente para aqueles que olham para estas questões de forma mais enviesada. Pessoalmente, estou curioso e cheio de vontade de descobrir esta nova fase, mais aberta e inclusiva, do género.
The dark side of environmentalism: Tenho estado a ler este livro do Kim Stanley Robinson, e a ficar surpreendido pela violência do texto, algo atípico neste autor. A sensação que fico é que, tal como muitos de nós, se cansou dos discursos vazios dos políticos e da falta de iniciativas reais para resolver os problemas do aquecimento global.
The Truth, by Stanisław Lem: Não é todos os dias que podemos ler algo inédito, em tradução, de um autor clássico da ficção científica.
“Crónicas Marcianas” | Ray Bradbury: Tocante, a forma como este artigo consegue evitar a profunda relação de Bradbury, e deste livro específico, à ficção científica. É de notar que os textos deste livro surgiram nas páginas das revistas pulp de ficção científica. Bem como o puxar à erudição, interpretando o lado fragmentado das histórias que o compõem como experimentalismo literário, quando na verdade se insere no fix-up, uma forma dos editores no dealbar da edição a baixo custo em livro de bolso aproveitarem contos originalmente editados em revista, para os coligir e empacotar como romances. Mas percebe-se, afinal Bradbury está a ser reeditado por cá pela Relógio de Água, editora respeitável que não se mete nos ghettos sombrios da Ficção Científica. É um pouco essa a irritação, o recuperar de autores que merecem o reconhecimento como grandes escritores, por um mainstream editorial e crítico que, pela sua aversão às literaturas de género, fogem ao máximo ao reconhecimento das suas origens.
Brian K Vaughan Announces Return of Saga in January 2022, at NYCC: Isto é uma excelente notícia? Talvez não. A série Saga foi brilhante, e a equipa criativa certamente que não irá desiludir. Eu, pessoalmente, é que começo a criar reticências a séries literárias intermináveis, obrigadas à longa duração pela sua popularidade, mas que com isso correm o risco de se tornar irrelevantes, desmerecendo o seu potencial.
Microsoft Has Committed to Right to Repair: Se soa estranho este compromisso da Microsoft com algo que é essencialmente hardware, note-se que a empresa também fabrica o excelente Surface. É curioso notar que estes computadores, mais tablet que pc, são precisamente o tipo de hardware que é mais complexo de reparar e substituir.
The Internet Archive's 'Wayforward Machine' paints a grim future for the web: Tendências prováveis, numa especulação vinda de uma organização que conhece bem a evolução da internet - porque a arquiva. Polarização entre falsidades e autoritarismo é a visão do futuro da Internet, mas reparem, geralmente as especulações futuristas dizem-nos mais sobre o presente do que, realmente, os futuros vindouros.
The Disneyfication of Atomic Power - Issue 107: The Edge: Intrigante, perceber que a General Electric nasceu de uma construtora naval bélica. Nos anos 50, ainda sob o choque da bomba atómica, pensava-se na energia atómica de forma utópica. Um conceito que partia mais do marketing, como forma de vender uma tecnologia.
The Best RSS Feed Readers for Streamlining the Internet: Para quem realmente se preocupa com a gestão da informação que lê online, um leitor de RSS é essencial. Deixamos de precisar de aceder a múltiplos sites, ou depender de partilhas em redes sociais; centraliza-se os fluxos de informação num interface acessível. Para mim, é uma peça de tecnologia essencial.
The Steam Revolution: Uma história dos primeiros tempos das máquinas a vapor, que de certa forma tem repercussões globais; foi a manufatura a vapor inglesa que gerou o mercado de produção de algodão americano, que se suportou sob o trabalho escravo, que teve como consequência a guerra civil americana. A história é feita destas relações evolutivas.
The covid tech that is intimately tied to China’s surveillance state: Um relato arrepiante do que é viver sobre o panopticon digital chinês. Não é novidade, mas sendo uma história pessoal, desperta a nossa empatia. O pormenor, é as tecnologias desenvolvidas pelas empresas chinesas para auxiliar a repressão estatal, são vendidas no ocidente no âmbito de medidas de contenção pandémica.
oldmouse.com: Para aqueles que querem recordar a história e evolução do humilde mas indispensável rato de computador, este é o site apropriado.
15 years of Google Docs, and where the next 15 might take us: Confesso que desde que aprendi a usar o Google Docs, passei a ver com algum desprezo o hábito do ténis de versões variantes de um documento word. Para quê, penso, quando se pode colaborar nu mesmo documento em tempo real?
Uh Oh, They Strapped a Sniper Rifle to a Robot Dog: Robots armados. O que é que poderá correr mal? Nem é preciso entrar em cenários de ficção, apenas pensar nas tremendas questões éticas que isto levanta.
The Fall Of Rome Didn’t Happen When You Think It Did: Gostamos de histórias, e de quebras visíveis. Mas a história não segue caminhos tão lineares. É interessante recordar que a queda de Roma não foi, à época vista como o fim de um império, mas sim uma continuidade política, cultural e económica. Mudou o imperador, mas o resto, o senado, as leis, a língua, continuaram.
David Hockney: 'Abstraction in art has run its course': Um interessante ponto de vista, uma análise ao abstracionismo como forma de fazer a arte europeia evoluir do formalismo realista. E, em si, o abstracionismo evoluiu da forma como estas coisas evoluem, acabando por se tornar também um formalismo. Hockney é um apaixonado pela luz, e claramente fascinado pelo potencial da fotografia digital, onde os algoritmos ultrapassam as limitações lumínicas dos ambientes naturais.
Ted Hughes (2018). O Homem de Ferro. Lisboa: Ponto de Fuga.
Quando os pedaços de um robot gigante começam a dar à praia, este reconstitui-se, e começa a assombrar as aldeias das redondezas. O robot precisa de se alimentar, o que significa a catástrofe para os agricultores da zona, que vêm as suas alfaias e veículos devorados. Nem o arame farpado escapa, como delicioso esparguete que é para homens de ferro. Apenas um miúdo percebe que o robot não é uma ameaça, e convence os vizinhos a fazer bom uso do ferro-velho local, que para o robot é um repasto delicioso. Este terá oportunidade de recompensar os habitantes da terra. e de todo o planeta, pela bondade. Quando um enorme dragão alienígena ameaça devorar a vida na Terra, são as capacidades inusitadas do Homem de Ferro que, sem qualquer luta, irão derrotar a ameaça.
Uma fábula infantil fortemente poética e onírica. Não precisa de se explicar ou fazer sentido, apenas vai-se esfumando palavra a palavra, encantando com a inesperada história originalmente editada em 1968.
Ted Hughes (2018). A Mulher de Ferro. Lisboa: Ponto de Fuga.
Tem o seu quê de continuação do poético Homem de Ferro (não confundir com o personagem da Marvel). Não tem, no entanto, o estilo encantador de ficção científica poética do primeiro livro. Segue outros caminhos, muito mais interventivos. A Mulher de Ferro, espécie de gigante robot, ou Talos feminino, que emerge dos rios e assombra uma cidade, não tem o caráter plácido do Homem de Ferro. Espalha à sua volta, em todos os que toca, uma doença violenta, e promete vingança e destruição.
Quem é tocado por esta mulher de ferro passa a sentir o sofrimento do mundo natural devastado pelo homem, e a única intenção dela é destruir a piores fontes de poluição. A história terminará bem, afinal, este é um livro de literatura infantil. A fúria da mulher-robot será aplacada, em boa parte porque a contaminação de empatia leva os humanos a perceber o mal que a poluição desencadeia no mundo natural. O tom de poesia de ficção científica passa aqui para um ativismo, aproveitando a literatura infantil para passar a mensagem da urgente necessidade de olhar para o ambientalismo.
Nápoles, anos 30. Uma cidade exuberante, de fortes contrastes, entre as calmas ruas burguesas e o bulício dos bairros populares. Uma cidade de morte e assombrações, para um discreto e eficaz comissário de polícia cujos modos tranquilos ocultam um segredo que lhe condiciona a vida. Ricciardi tem um dom, ou talvez uma maldição, consegue ver o espírito daqueles que morrem, por violência ou acidente, a pairar sobre o local onde faleceram, presos às suas últimas palavras. Resenha completa em H-alt: Comissário Ricciardi.
Jonathan Hickman, Pepe Larraz (2020) . X-Men: Dinastia X / Potências de X, Vol. 4. São Paulo: Panini.
Finaliza aqui o ambicioso arco narrativo com que Hickman renovou o universo X-Men. Uma visão ambiciosa, de mutantes unidos na nação soberana de Krakoa, ela também uma ilha mutante. Da sua interação com as nações humanas, simplificada pelos medicamentos miraculosos produzidos em Krakoa. Partem daí inúmeras linhas narrativas que estão agora a ser explorados nos diversos títulos derivados. Hickman plantou as sementes do fim desta renovação ao longo desta série, com pormenores de um futuro distante onde a humanidade está prestes a ser absorvida por singularidades inteligentes, e dos mutantes e seus triunfos apenas restam poucos vestígios. Pelo que consta nos rumores sobre a indústria, este potencial está a ser ignorado pela Marvel, que (é compreensível) prefere explorar esta nova encarnação dos X-Men ao máximo, colocando de lado os planos a médio prazo de Hickman.
François Vigneault (2017). Titan. Pow Pow.
Quando um novo gestor chega a uma colónia mineira em Titã, sabe que não tem uma tarefa fácil. As minas de hidrocarbonetos estão obsoletos, graças ao desenvolvimento de formas de energia mais limpa, e o gestor tem a triste tarefa de manter a refinaria lucrativa sabendo que está condenada a curto prazo. Mas o trabalho ainda lhe reserva novas surpresas, como a constante tensão entre os terrestres, administrativos e de segurança, e os trabalhadores das minas, humanos geneticamente modificados para serem mais altos, encorpados e resistentes à baixa gravidade das luas do sistema solar. Pessoas que desprezam os terrestres normais, apesar de radicarem da mesma cultura. O resultad é um cadinho conspiratório que levará a uma guerra, e um amor inusitado entre duas pessoas saídas de mundos radicalmente diferentes e incompatíveis. Uma metáfora de ficção científica sobre racismo, relações laborais, direitos humanos, sede de poder, populismos e o impacto laboral do progresso tecnológico, desenhado num estilo gráfico muito interessante.
John Ostrander, et al (2021). Shang-Chi: Earth's Mightiest Martial Artist. Nova Iorque: Marvel.
Um olhar para um personagem criado expressamente para aproveitar a vaga de popularidade dos filmes de kung fu nos anos 70. Shang Chi nunca foi dos personagens mais de primeira linha da Marvel, enbora tenha chegado a ter título próprio. Este volume colige histórias mais recentes, em que o mestre do Kung-Fu integra aventuras de outros personagens, como os X-Men ou os Heroes for Hire. Shang Chi é sempre representado como discreto, algo soturno, e imbatível, sem poderes mas com domínio perfeito das artes marciais.
Esta semana, destacamos lançamentos de Banda Desenhada portuguesa, filmes de Ficção científica soviéticos, e tendências de capas. Fala-se de robots de companhia, os dilemas éticos das redes sociais, e a perenidade de tecnologias aparentemente extintas. Ainda se fala do afastamento lento e progressivo da Lua, curiosidades do mundo da arte e das estradas gronelandesas. Outras leituras vos aguardam, nas Capturas desta semana.
Ficção Científica e Cultura Pop
Apocryphus – Monstro: Com o regresso do Fórum Fantástico, regressam também os lançamentos que estiveram adiados durante a fase aguda da pandemia. Regressa o sempre excelente projeto Apocryphus, que a cada volume reúne sob um tema alguns dos melhores criadores portugueses de banda desenhada. Pessoalmente, estou com imensa curiosidade sobre esta antologia dedicada a Monstros.
H-alt 10: Outro lançamento a ser efetuado no Fórum Fantástico, o projeto H-alt traz-nos a sua décima edição. Este projeto está pensado como espaço de publicação para os novos criadores, e poromete-nos novas histórias que mostram o potencial da novíssima BD portuguesa. A H-alt pode ser comprada em papel ou lida gratuitamente online.
O Jogo das Alterações Climáticas: Obra de Banda Desenhada de divulgação científica e comunicação de ciência “O Jogo das Alterações Climáticas”, de Bruno Pinto (argumento), Quico Nogueira (desenhos) e Nuno Duarte (cor), que conta com um prefácio de Filipe Duarte Santos, reconhecido especialista no tema das alterações climáticas. foi apresentada dia 7 em Lisboa, e esta BD didática já deve estar a chegar às livrarias.
Os Pescadores de Pérolas, de Franco Caprioli: Se é interessante o revisitar de trabalhos esquecidos, este fanzine não é muito acessível. E, também, a forma como é editado parece algo questionável em termos de propriedade intelectual.
João Barreiros: A Arder Caíram os Anjos: Recordar uma das obras significativas daquele que, sem dúvida, é um dos maiores escritores portugueses de Ficção Científica.
13 cómics clásicos de ciencia-ficción que merecen ser adaptados al cine o la televisión: Bem, merecedores de atenção são, mas há que temer a qualidade e fidelidade das adaptações. Até porque suspeito que nos dias de hoje, nenhum estúdio ou canal se atreveria a não diluir o fortíssimo lado político de Eternauta, Tank Girl chocaria as audiências, e uma adaptação fiel de Transmetropolitan seria imediatamente condenada em toda a linha por conservadores e progressistas.
A Lenda de Adora 1: Apesar de fantasia épica não estar entre os meus géneros literários favoritos, a maturidade do estilo gráfico e o currículo do criador despertaram a atenção.
Behold, the Book Blob: Quem gosta de livros depressa aprende a topar esta idiosincrasia. O design de capas vive de modas, de repente, todos os livros parecem ter o mesmo estilo visual, até ao momento em que nos apercebemos que a moda mudou e todos os livros passaram a ter um outro estilo visual, igualmente homogéneo.
What if the internet failed?: Seria uma calamidade. Não pela chatice de não poder ver as novidades nas redes sociais. A conectividade e os serviços distribuídos na nuvem tornaram-se infraestrutura na economia digital. Falhar a internet implicaria falhas em cascata nos sistemas logísticos, financeiros e de saúde, entre outros.
textfiles: Fui recordado por uma newsletter deste arquivo clásico. Aproximem-se com cuidado, isto vem dos tempos de uma internet mais crua e aberta do que aquela a que estamos habituados hoje.
Before Astro, these were the robots people invited home: Se o Astro da Amazon não está a despertar a reação wow pretendida (e, note-se, precisamos mesmo de mais um dispositivo intrusivo da Amazon nas nossas casas?), pelo menos tem o condão de nos recordar outros projetos percursores que exploraram o conceito de robot-companheiro. Pessoalmente, sempre quis experimentar um Aibo. E quanto aos Pepper, sempre que os vi em contextos onde havia crianças, fiquei espantado com a forma calorosa como as crianças reagiam ao Pepper.
Amazon is hijacking our emotions to put robots in our homes: A nova proposta de robótica caseira da Amazon pode não ser especialmente sofisticada, mas está a gerar discussão, e a recordar a nossa curiosa propensão para estabelecer relações afetivas com máquinas.
Hemos subido una foto de 108 megapíxeles a Instagram, Facebook y Twitter: así la han destrozado: Certo, soa horrível, perceber que uma imagem de alta qualidade partilhada em redes sociais é comprimida, com perdas, ao extremo. Mas façamos uma inversão do raciocínio. Reparem que raramente as partilhas em redes atraem atenção que se meça em para lá de poucas horas, não faz sentido económico e ambiental ter capacidade de armazenamento para que todas as imagens sejam em megapixels (especialmente sabendo que poucas horas depois da sua publicação, ficam esquecidas para sempre). Nem a qualidade das imagens que as redes sociais atraem merece isso. O melhor mesmo é usar serviços dedicados para publicar imagens de alta qualidade na web.
Streaming Was Supposed To Put A Pause On Piracy: Momento só que não, ou no shit, sherlock. A razão está na fragmentação de serviços pagos, para poder ver as excelentes séries que estão a ser produzidas, ou ao cinema em casa, é preciso subscrever um número elevado de serviços. Ou seja, a conta ao fim do mês fica alta. É curioso notar como fragmentação está na génese das decisões de criação de serviços de streaming audiovisuais, com aposta na exclusividade de conteúdos. Um contraste direto com os serviços de streaming musicais, cuja aposta é inversa, no deter as maiores bibliotecas musicais possíveis. Notem que se a pirataria de filmes e séries disparou com o streaming, a de música caiu para níveis irrisórios. Se calhar, o problema está no modelo de negócio e não na honestidade dos utilizadores.
La explosión de la robótica y la domótica refuerza a un gran tapado de la educación: la FP de Electrónica: Uma interessante visão do sistema de ensino profissional espanhol nas áreas de eletrónica e robótica, com problemáticas e desafios que não estão muito longe dos que sentimos por cá. Entre currículos que necessitam de ser atualizados, o elevado custo dos materiais e a necessidade de formação contínua de professores (muitos dos quais poderiam ter empregos mais bem pagos na indústria) em tecnologias que evoluem com enorme rapidez.
Technology Isn’t As Neutral As We Want It To Be: Os benefícios e programáticas trazidas pela explosão das tecnologias digitais recordam a história do martelo - tanto pode ser usado para pregar pregos, como para esmagar cabeças. Sublinha-se que a neutralidade da tecnologia recai sobre quem decide as formas como é usada.
Extinct: Um fascinante ensaio sobre tecnologias extintas, que entre outras coisas, nos mostra que apesar da evolução tecnológica parecer implacável, muitas tecnologias consideradas obsoletas são ainda muito usadas, pela simplicidade e fiabilidade que adquiriram ao longo do seu uso.
Before 3D Prints There Were Plaster Copies: A antiga história das reproduções de obras de arte, algo que hoje se faz com digitalização e impressão 3D, mas já se fez com moldes de gesso.
Facebook, WhatsApp and Instagram are slowly returning. Why did they disappear to begin with?: Confesso que o grande e traumático apagão das redes sociais me passou completamente ao lado. É sempre fascinante ver como pequenos erros técnicos podem ter enormes consequências.
For Much of the World, Facebook Going Down Is a Disaster, Not a Joke: Nem reparei. Mas também não dinamizo nenhum negócio que dependa das redes sociais para vendas, ou uso intensivamente serviços de mensagem instantânea. A paragem da rede social, e serviços conexos, mostra o quanto esta se integrou como parte da infraestrutura da economia contemporânea.
The Facebook whistleblower says its algorithms are dangerous. Here’s why: De facto, o surpreendente é surpreenderem-se por esta rede social otimizar-se constantemente para obter o máximo lucro, sem prestar mais atenção aos danos que provoca do que algumas fingidas declarações de falsa preocupação. Talvez o pormenor digno de nota é a forma desestruturada como o faz; não há aqui arquiplanos do Zuck e companhia para determinar o sentido da opinião pública; apenas um imperativo de lucro, e equipas de desenvolvimento que implementam técnicas e algoritmos para o maximizar, de forma independente apesar de interdependente. Soa chocante, até porque o Facebook cooptou o espírito original de construção de comunidades online que nos vem dos tempos de uma internet mais livre e promissora. Mas não é nada de novo, o jornalismo passou pelo mesmo, hoje o tipo de jornalismo amarelo e sensacionalista de há 100 anos atrás (quando editores de gabavam de criar guerras para vender jornais) oscila entre o impensável e o mal visto. Houve evolução legal e em códigos de ética, talvez aquilo que precisamos de implementar nas redes socias, para começar a divergir de um ambiente onde discursos tóxicos são incentivados para garantir atenção e maximizar lucros.
Uh Oh – A Looming Book Shortage?: Não. Não! NÃO!!!! Naaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaão! Efeitos secundários dos movimentos dos mercados. Olhando para o recheio da minha estante da vergonha, fico um pouco mais aliviado, tenho ainda bastante material para alimentar o vício.
The Moon Is Leaving Us: Curiosidades da mecânica orbital. E... lentamente. Muito, muito lentamente. Nada tipo o cenário Espaço: 1999, em que a Lua viajava à deriva pela galáxia.
The Myth That Democracies Bungled the Pandemic: A suposta capacidade de governos autoritários em dominar a pandemia graças à sua facilidade de imposição de medidas draconianas tem sido uma das narrativas prevalentes nestes tempos. Mas o que é que os dados realmente dizem? Bem, primeiro há que discutir a fiabilidade de dados apresentados por regimes autoritários. À parte isso, apesar dos falhanços estrondosos de algumas democracias, e da dificuldade de controlo pandémico com restrições (numa ditadura podemos enfiar os negacionistas na cadeia, numa democracia, temos de os aturar), a verdade é que as democracias tem conseguido combater a doença, e sido bem sucedidas na vacinação. Até arriscaria dizer que o caso português é um desses excelentes exemplos.
Afghan Art Is Going Underground: Como reagir quando os zelotas do obscurantismo tomam o poder? Ir para o secretismo, tentando proteger o património cultural. O Afeganistão é o exemplo mais recente de momentos de conflito ou regimes repressivos que obrigaram aqueles que acreditam na cultura a tomar medidas extraordinárias.
COVID-19 Is A Scary Preview of How We Might Handle Climate Change: Bem, imagino que um americano tenha especiais razões para ter medo, basta traçar um paralelo entre a estupidez evidenciada durante a pandemia (cujo custo se mede em vidas) e a forma como se está a reagir perante o aquecimento global. Um ponto de vista europeu seria menos pessimista. Mas a verdade é que estamos todos no mesmo barco, e de pouco serve dois terços do mundo se organizarem para responder aos problemas do aquecimento global mas um terço persistir em manter os níveis de poluição. Aquecemos todos, levamos todos com instabilidade dos sistemas climatéricos, subida do nível das águas do mar, secas,etc.. E o risco destes problemas incentivarem a subida ao poder de autoritaristas ainta agudiza mais a situação.
Ramon Valle-Inclán (1990). Tirano Banderas. Lisboa: Editorial Teorema.
Esta capa fulgurante e gritante abre-se para um romance igualmente fulgurante e dinâmico. Valle-Inclán leva-nos a Santa Fé da Tierra Firme, uma república sul-americana dominada pelo ditador que dá o nome ao romance. Rodeado pela sua corte de sicofantas, gere as inúmeras intrigas de um país cujos recursos naturais aguçam os apetites europeus e americanos, a economia é sustentada por emigrados espanhóis, dando um protagonismo inesperado ao embaixador de um reino a quem os agora independentes sul-americanos ainda chamam de pátria-mãe. Tem de se ver a contas com a esperada rebelião armada, excelente desculpa para se livrar dos opositores com fuzilamentos diários ao por do sol. Ou de aliados caídos em desgraça, se lhe der jeito. Um caudillo implacável, que assume o manto de defensor do povo, embora as condições deste não melhorem, exige obediência total e cega e não resiste aos caprichos. Previsivelmente, terá um final triste.
Com uma linguagem muito sintética e quase cinematográfica (não é a melhor comparação, dado que o escritor viveu na viragem do século XX), Valle-Inclán constrói uma notável opera buffa, com um humor ácido a salientar a forte observação social. É uma história de sicofantismo, cupidez, ambições desmedidas, violência casual, puro imoralismo. Não há inocentes nesta história, todos vivem e sobrevivem num constante jogo de interesses e influências, onde o safar-se, o enriquecer, o adquirir poder são as grandes motivações.
A galeria de personagens é caricatural, com personagens de vícios muito vincados. Para além do tirano histriónico, temos um dos seus fiéis companheiros que, caído em desgraça por uma ninharia, se junta aos rebeldes liderados por um cauteloso fazendeiro que quer arrasar o tirano numa ação militar decisiva. Os fieis sicofantas do tirano são em si uma galeria de militares novecentistas, implacáveis a exercer o seu poder, e os primeiros a abandonar o líder mal suspeitam que os ventos não são de feição. A sociedade civil não é muito melhor, com homens que se comprazem em sustentar os seus vícios noturnos de álcool e prostíbulos com uma subserviência histriónica ao seu líder. Os estrangeiros, espanhóis, apenas estão interessados em sugar o máximo de lucros possíveis, e o representante do distante poder espanhol, referência apesar da independência do país, é um velho aristocrata dandy, mais interessado em andar atrás das delícias corporais dos jovens tierra-firmezes, e por isso muito facilmente manipulável. Nos dias em que a grande festa que alegra os pobres da capital do país, todos estas intrigas e acasos se conjugam para a queda do tirano.
O tom narrativo do livro é elevado, quase uma gritaria constante de palavras. A linguagem segue o elaborado discurso romancista do século XIX, com uma enorme dose de prosa bazofial, de pronunciamentos e exposição de ideais. Tirano Banderas é um óbvio romance que parodia os à altura ainda novos estados latino-americanos, que mostra os vícios dos novos líderes, bem como os dos espanhóis depostos, e os eternos jogos de interesse económico que sustentam as inúmeras rebeliões libertadoras. Tirando alguns adereços de época, não é difícil ler paralelos entre este Banderas do século XIX e os modernos caudilhos da américa latina. Nem dos jogos e influências onde o destino dos povos é manipulado pelos interesses económicos.