terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

XX

 


Rian Hughes (2020). XX, A Novel, Graphic. Londres: Picador.

Confesso que ainda não percebi se este é um excelente livro, ou apenas um livro com uma excelente premissa. A leitura tanto decorre com fluidez, como encalha em infodumps excessivos ou estilismos levados longe de mais. Poderia ser um excelente romance de ficção científica, que pega num conceito muito pouco explorado. Mas a atração pelos estilismos reduze-o a, essencialmente, um exercício de estilo.

É na premissa que este livro se revela muito interessante. Estamos a falar de um cenário de invasão alienígena (bocejos, certo?), mas o planeta não é fisicamente invadido. As entidades alienígenas que se instalam entre nós e nos tentam conquistar não são corpóreas, são ideias preservadas num sinal de rádio. Essencialmente, XX foca-se nos memes, e levanta o conceito de uma invasão alienígena memética - ideias virtuais que se alojam no cérebro e modificam comportamentos. Não é uma premissa nova, mas é raramente usada (que eu saiba, só o conto Blit de David Lanford e um dos episódios de Global Frequency de Warren Ellis pegaram neste tema de infecções meméticas como base para ficção científica). 

Quando um sinal de origem alienígena é captado por observatórios terrestres e lunares, a sua descodificação é um mistério desafiante. O passo decisivo é dado por um personagem idiossincrático, um  génio da computação com uma propensão para ver padrões em elementos aleatórios. Trabalhando numa diminuta startup de inteligência artificial, mas com contactos em observatórios de renome, apercebe-se da verdadeira natureza do sinal, e ao criar uma simulação contida do seu conteúdo descobre que o sinal é uma enorme mensagem virtual, que contém em si a representação detalhada de milhões de civilizações alienígenas - todos dormentes. O sinal em si tem o comportamento de uma entidade viva, existe para se reproduzir infetando as civilizações que o captam com uma vontade de se virtualizarem, juntarem-se ao sinal e continuarem a sua emissão. Na Terra, a invasão memética falha porque a fisiologia humana não contém forma de sentir emissões rádio, sendo uma das raras vezes em que o sinal é descodificado por meios mecânicos.

Ao investigar o sinal, o programador descobre ainda que os nossos memes parecem ter ganho forma visível no espaço computacional, numa espécie de semi-vida artificial. Esses memes humanos são uma ajuda para compreender a vastidão do espaço memético alienígena. Entretando, algo colide com a lua, e uma astronauta de serviço vê a sua vida ser literalmente virada ao contrário pelo contacto com uma mente alienígena, que se incorpora na sua mente e lhe mostra a enorme diversidade de vida na via láctea, e também a razão da existência de um sinal que tenta cooptar civilizações inteiras para se reproduzir. Tem tudo a ver com uma civilização há muito desaparecida, que detectou na imparável colisão entre as galáxias de Andrómeda e a nossa algo mais do que as leis da física - uma intencionalidade que visa aniquilar a vida orgânica. O sinal é a consequência disso - uma forma de preservar a vida e as civilizações, através da sua descrição pormenorizada, reproduzindo-se com dois objetivos - adicionar sempre mais alienígenas, e ser transmitido em direção ao centro da nossa galáxia, onde o último elemento de uma estratégia concebida há milhares de milhões de anos permitirá a fuga do sinal para o espaço intergaláctico, assegurando a preservação memética da diversidade da vida face à aniquilação do choque de galáxias.

E notem,  isto só resume parte do enredo e da premissa. No que toca ao jogo de ideias, XX é dos livros de FC mais interessantes que li nos últimos tempos. No entanto, precisamente por causa do seu apego às ideias, tem falhas. Uma delas é a propensão para infodumps repetitivos. Tudo nos é explicado inúmeras vezes, sempre que os personagens se deparam com alguma informação nova o autor sente uma estranha necessidade recapitulativa. Outra falha prende-se com algo que o autor claramente entende como inovador. XX é um daqueles livros que procura alterar a percepção sobre o que pode ser um livro físico. Recorre, e muito, a duas técnicas: colagem gráfica, e mescla de diferentes modalidades de texto. Experiências gráficas arrojadas integram-se como elemento narrativo - especialmente na forma como as entidades meméticas comunicam. A história não se conta apenas com narrativa, cruza diferentes tipos de texto - mensagens, notícias, artigos científicos, colunas de opinião, e num pormenor metaficcional, com uma história de ficção científica pulp dentro da história. O problema está, tal como nos infodumps, na forma excessiva com que o autor usa estes recursos. 

O resultado final é um livro com uma premissa brilhante, personagens bem construídas e cheio de ideias intrigantes, que se torna uma leitura pesada. O abuso de recursos estilísticos quase torna XX num mero exercício de estilo. Em suma, poderia ser um excelente livro se estivesse mais resumido, e se o editor tivesse cortado nos excessos estilísticos do autor.

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