quinta-feira, 3 de setembro de 2020

Children of Ruin

 

Adrian Tchaikovsky (2020). Children of Ruin. Londres: Orbit.

Tal como Children of Time, Children of Ruin brinca com ideias muito interessantes. No entanto, a história arrasta-se, o que o torna uma leitura mais penosa do que o esperado. Começamos por ir ao passado do mundo ficcional, onde uma nave de terraformação escapa por acaso ao enorme apagão civilizacional terrestre que deu origem aos eventos do primeiro livro. Encalhados num sistema solar com dois planetas habitáveis, a tripulação da nave procura restabelecer uma presença humana futura. Mas depara-se com dois problemas. Um dos planetas é um mundo oceânico, quase sem terra firme, e outro encerra algo nunca deparado na expansão humana pelo universo: vida alienígena. O fascínio pelas formas de vida inéditas depressa leva a uma descoberta impressionante - há vida inteligente no planeta. Só que esta manifesta-se através de colónias de fungos inteligentes, que contaminam outras formas de vida na sua intensa busca para satisfazer a curiosidade. As consequências deste estranho primeiro contacto serão devastadoras para os humanos, depressa tornados uma espécie de zombies alienizados. Entretanto, na órbita do planeta aquático, um dos cientistas, que tem uma personalidade particularmente autista, está a experimentar com acelaração da evolução de polvos, procurando fazer evoluir uma forma de vida que se adapte perfeitamente ao planeta.

Milhares de anos depois, já no presente do mundo ficcional, a simbiose entre humanos e as aranhas inteligentes do planeta terraformado onde a humanidade se estabeleceu evoluiu para uma sociedade conjunta que começa a explorar  o espaço, pegando nos mapas estelares do antigo império terrestre para enviar naves de exploração. E, na primeira que enviam, deparam com este sistema planetário duplo. O recontro com a civilização de cefalópodes inteligentes não é o melhor - a barreira comunicativa entre humanos, que comunicam por palavras e expressões, aranhas, que usam sons e atitudes, é quase impossível com uma espécie que comunica por padrões coloridos nos seus corpos. A situação piora quando se percebe que os cefalópodes sobrevivem no espaço, uma vez que o seu planeta foi contaminado pelos fungos alienígenas do planeta vizinho. E, para complicar mais a situação, estão divididos em facções fluídas, embora todos concordem num aspeto: qualquer contacto com os alienigenas é para ser destruído com extremo prejuízo. Algo que os humanos fazem, ao explorar as naves abandonadas há milénios pelos seus antepassados, onde irão chocar de frente com uma forma de inteligência tão exótica.

A solução estará na inteligência artificial que guarda a consciência da antiga cientista que despoletou a terraformação do planeta das aranhas. Esta consegue estabelecer contacto com a colónia alienígena, mostrando-lhes que é possível coexistir sem dominar. O problema será convencer os cefalópodes que a coexistência entre espécies é possível. E nisso, assenta um futuro de união e exploração galáctica, aflorado no capítulo final (talvez em preparação de trilogia).

O intrigante nesta série é a forma como Tchaikovsky usa biologias exóticas e problemas de comunicação como tema central destes livros de ficção científica. É nas especulações linguísticas e de exotismo evolucionário que o livro se torna mesmo interessante. O enredo tenta ter ação, mas neste segundo livro, algo que já se notava no primeiro torna-se penoso - as pequenas tropelias constantes, em catadupa, atrasam o desenrolar do panorama mais geral, que é o realmente interessante nestes livros.