sexta-feira, 1 de maio de 2026

Choques Culturais

Choques culturais, daqueles a sério, não dos de desafio gastronómico ou cenas do dia a dia. Na viagem Erasmus a Kastamonu, dei por mim num auditório em Pinarbaşı, numa cerimónia muito oficial celebratória da batalha de Çanakkale. O como é que lá fui parar é toda uma outra história, de favores cobrados e devidos e da forma como políticos locais excercem a arte da política. 

Por cerimónia entendam um auditório cheio de camponeses locais, pais das crianças que frequentavam a escola de uma pequena cidade do interior da região. Pessoas que esbugalharam os olhos quando viram entrar um óbvio grupo de estrangeiros, que foram encaminhados para as primeiras filas. Descobri-me sentado ao lado de óbvio homem de elevada importância local, com um bigode de bizarria assinalável e um estilo de vestimenta formal decalcado dos anos 80. Estando numa região rural perdia na imensidão da Anatólia, é o que podemos esperar. 

O como lá fui parar, com os colegas e alunos do projeto, prende-se com aquela velha máxima de não haver almoços gratuitos. Suspeito que um dos nossos anfitriões puxou de uns favores para que o grupo pudesse almoçar na cantina da escola de Pinarbaşı. O impressionante desfiladeiro de Hourma, nessa localidade, era o nosso destino. A refeição, diga-se, foi deliciosa - um simples arroz branco e frango desossado, com um tempero saboroso. Como contrapartida, tivemos de assistir a cerimónias oficiais. Imaginem, um grupo de estrangeiros incapaz de compreender turco sem perceber patavina do que se estava a passar em palco, e um auditório cheio de camponeses que nos contemplava com ar incrédulo. A regra que adotei foi bater palmas sempre que todos batiam palmas, levantar-me respeitosamente sempre que alguém com ar importante ia ao palco. 

Como a minha sorte é macaca, os anfitriões fizeram questão de me colocar na primeira fila, ao lado de pessoas que vim a perceber posteriormente serem os políticos da liderança local.  O posteriormente explica-se pela parada que um deles nos fez pelos edifícios do poder turco. Inclui uma subida a um terceiro andar para nos mostrar o seu gabinete de trabalho, postando-se à porta e acenando. Um momento algo inquietante em que o governador local nos recebeu, naquele fausto asiático em que os visitantes estão confortavelmente sentados em cadeirões a ouvir o homem importante cuja secretária se encontra num estrado sobrelevado, num sinal discreto de poder. Foi o único momento em que me senti apreensivo em toda a viagem, não pela postura do governante, gentil e determinada na forma propagandística com que os governantes turcos nos falam do seu país, mas pela presença discreta de seguranças visivelmente armados. Um sublinhar vívido que não estava na nossa safe european home.

Ainda tivemos direito a visitar o presidente da comarca local. Poderia ter referido que tal como ele, eu também tenho responsabilidades autárquicas como membro de assembleia de freguesia, mas suspeitei que não era boa ideia, num país cujo regime é eufemisticamente descrito como uma "democracia iliberal", revelar que fui eleito como socialista. Além disso, juntei-me ao desafio autárquico como experiência de aprendizagem e contributo para uma comunidade que me tem enriquecido imenso, não para alardear uma aparente importância que de facto não tenho. De qualquer forma, apesar de ter sentido um espírito de tolerância durante toda a visita, achei que era asisado  ser discreto do meu esquerdismo enquanto no país de Erdogan.

A visita à comarca foi um momento de clássica hospitalidade turca, tendo o ritual de lavagem de mãos com água de colónia e um bombom de chocolate, com oferta de uma deliciosamente aromática garrafa de perfume localmente produzido. Recordo, do final desse momento, o ar satisfeito do anfitrião local, ou o frio a bater no rosto enquanto tirávamos as obrigatórias fotos com os políticos, no exterior do edifício da comarca, num momento em que se ouvia o adhan.

Confesso. Apesar de ser um impenitente ateu, respeitador na necessidade individual de religião mas fortemente crítico da religião institucional, e nada confortável com crenças religiosas que limitam a liberdade humana, a memória mais forte que trago da Turquia foi a comoção interior sempre que ouvia o chamamento à oração. Não pelo seu exotismo, mas pela sua beleza, e talvez aquela emoção de sentir que há algo na cultura humana que nos transcende. Também me emocionei quando pisei a Praça de S. Pedro e tive um assomo de Síndrome de Stendhal quando ao entrar na Sagrada Família a beleza da luz no seu interior me despertou lágrimas. Podemos ser ateus e críticos, mas não significa que sejamos insensíveis às simbologias e significados.

Já me falaram aqui por várias vezes da importância da Guerra da Independência. Assumi que se tratou daquele momento no pós-I guerra em que os gregos invadiram a costa turca no mar Egeu para a anexar, e por pouco iam conseguindo. "No, no, it was when the british, the french and the italians invaded us", disse-me uma das minhas anfitriãs. Isso não bate certo com a história global que eu conheço, e depois de passar umas horas surreais rodeado de poderes locais que ouviam muitos deferentes teşekkür do povo num palco decorado com desenhos de crianças alusivos à batalha, tive de ir ler sobre o assunto.

Percebi que se trata de Gallipoli, uma das batalhas mais sangrentas da I Guerra. E vem aí o choque cultural - o que para eles é a guerra da Independência, para nós é a I Guerra Mundial. O conceito de independência  estranha-se, sabendo que o então império Otomano era perfeitamente independente e alinhado ao lado das potências centrais. Gallipoli foi a tentiva aliada falhada de controlar os dardanelos e ocupar a então Constantinopla, capital otomana. Por ironia, um dos arquitectos do ataque foi Churchill. O derrotado de Gallipoli viria a ser uma das peças fundamentais da firmeza aliada nos momentos mais perigosos da II guerra.

Soa estranho, para quem leu a versão ocidental da história global, esta visão de um conflito global. Mas a História nunca é simplista e linear. Se um país que era independente há muito regista a I guerra como mito fundador, há razões para isso. Ler um pouco mais recordou-me que a vitória turca trouxe à ribalta Mustafa Kemal, é o ponto onde principiou o nascimento da república turca e o fim do império otomano.

É o choque cultural de perceber que a nota de rodapé da nossa história é a peça central da história de outros povos.

Não estão a ver a importância que por cá se dá a isto. É como se nós celebrássemos constantemente a batalha de S. Mamede e tivessemos um busto ou uma pintura de D. Afonso Henriques a cada esquina. Isso aqui é literal. Todas as salas de aula que visito têm o rosto de Ataturk, há um busto dourado à entrada de cada escola. Nós, com a nossa herança pesada do estado novo, vemos com reticência esta mitificação da história e cultos de personalidade. Por aqui os ares são outros.

Este é um dos pontos que faz valer as viagens em Erasmus. Isto não é turismo. Não estamos a passear pelas atrações, a ver e saborear o very typical encenado para vender ímanes de frigorífico. Emparceiramos com escolas de terras fora do circuito turístico, visitamos os locais que os da terra dão importância, passamos tempo a trabalhar e a brincar (especialmente as crianças). Não tenho a veleidade de achar que se fica a conhecer profundamente os povos e as gentes, mas lidamos com gente como nós.

É enriquecedor ver as nossas alunas alegres, a passar o serão a conversar com os seus colegas turcos no centro comercial aqui da terra. O Starbucks é o grande ponto de encontro. Ah, adolescentes, iguais em todo o lado. Já eu prefiro o chá e o café - à moda turca, obviamente, nas tascas locais. As de banquetas baixinhas e decoração orientalista normal, não de falsa iconografia para turista consumir, e que apesar de limpas dariam chiliques aos habitués dos nossos estabelecimentos comerciais luminosos e normalizados. "We have to get you some prayer beads and you will completely fit in", riem-se as minhas colegas turcas ao verem-me devorar os cafés turcos, dado que sou um tipo barbubo com tez mediterrânica. Na verdade o que preciso mesmo é de cafeína, dado que as três horas de diferença pesam particularmente forte de manhã.

quinta-feira, 30 de abril de 2026

The Horrors of Noroi Michiru

Noroi Michiru (2025). The Horrors of Noroi Michiru. Star Fruit Books.

O barroquismo da capa da edição que adquiri no espaço, sempre de excelente gosto, do editor da Sendai no Festival Contacto, prometia mergulhos num horror delirante a fazer inveja a Ito ou Maruo. Não que a leitura me tenha desiludido, mas o conteúdo do livro estava mais dentro dos padrões da normalidade do terror literário, sem voos de barroco macabro. Destaca-se a erudição literária, com muitos dos contos claramente a referenciar e homenagear o terror literário e fílmico clássico. A leitura foi menos aterrorizante do que esperava, mas deliciosa.

terça-feira, 28 de abril de 2026

For We Are Many

Dennis Taylor (2017). For We Are Many. Worldbuilders Press.

Não diria que isto é literatura de ficção científica elegante, ou profunda. Muito pelo contrário, é superficial apesar da inteligência de alguns dos seus conceitos. É uma daquelas histórias que se lê pelo puro prazer de acompanhar o enredo e ver por onde vão as aventuras dos personagens. Não há nada de errado com isto, apesar de não ser nenhum portento literário a série Bobiverse cativou-me, com o seu otimismo inabalável, bom humor e sentido desprendido de aventura, numa space opera de leitura imparável. Talvez a melhor comparação que possa fazer, e não é colocada em modo de insulto, é que esta leitura me dá o prazer similar ao de jogar um jogo de computador.

O segundo volume da série é a continuação pura do primeiro. Os Bobs vão-se espalhando pela galáxia, graças a alguns deles a humanidade à beira da extinção começa a ser exilada para planetas capazes de sustentar vida, novas civilizações alienígenas são encontradas. Os Bob, recordo, são uma espécie de sondas Von Neumann inteligentes, capazes de se auto-replicarem e fabricarem os recursos suficientes para enviar novas sondas, ou colonizar planetas, controladas pela personalidade digitalmente replicada do Bob original, um criador informático do século XX cuja personalidade foi digitalizada a partir do seu cérebro criopreservado após um acidente.

Surge também uma nova ameaça, uma civilização alienígena-enxame, apostada em consumir todos os recursos planetários que encontrar para construir uma esfera de Dyson. Será guerra aberta, existencial para os Bob, os sobreviventes da Terra, e as outras espécies que vão sendo encontradas na expansão galáctica das sucessivas réplicas de Bobs. Neste volume, o tom é negativo, os primeiros recontros não auguram nada de bom. Mas tendo em conta o espírito otimista da série, suspeito que o final será feliz.

Isto é space opera clássica, a brincar com conceitos como consciência artificial, nanotecnologia, exploração espacial, fabricação digital, mas também xenobiologia e culturas alienígenas.  Uma leitura sólida e divertida.

domingo, 26 de abril de 2026

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Two different cutaway views of the Bacchus lll: Cenas retro.

Andrew Tate Doesn’t Get the Point of Books: Perdoem o clickbait do título. O artigo é uma excelente análise dos livros enquanto tecnologia, que amadureceu para nos propiciar processos de reflexão e amadurecimento de ideias. Exatamente aquilo que os ignorantes deste mundo se orgulham de não ter.

Scarlet, ou Shakespeare segundo Hosoda: Marcado na agenda, agora espero é ter tempo de o ir ver.

The Thing on The Doorstep: Creators on Adapting Lovecraft for Comics: Aquele autor que quase foi esquecido, mas agora é fonte inesgotável de inspiração para novos criadores.

Adrian Tchaikovsky's new Children of Time novel is brilliant: Diria que toda a série, uma exploração do conceito de inteligência não humana, é brilhante.

Why on Earth Did Maggie Gyllenhaal Make This Movie?: Confesso que a curiosidade ficou desperta para esta nova versão de Bride of Frankenstein.

Recomendações de leituras para março: Confesso que destaco a reediçao de um livro de terror português do século XIX.

For the historical record: Recordar o passado dos encontros de autores e leitores de ficção científica.

Is Firefly coming back?: A pergunta a fazer (e o artigo toca nisso) é se vale a pena fazer regressar esta série de culto. Ela foi, de facto, muito boa, mas aquilo que a tornou realmente de culto foi a sua curta duração. Ao contrário de outras séries, que se arrastam até se tornarem vazias e desinteressantes, Firefly foi um ponto alto da ficção científica televisiva.


70sscifiart: Lift off: Futurismo russo.

After Banning Anthropic From Military Use, Pentagon Still Relying Heavily on It in Iran War: Pela forma desapiedada como decorrem as operações, já se tinha percebido a desumanização do planeamento é total.

Grammarly Offering Manuscript Reviews by AI Versions of Recently Deceased Professors: Necrofilia digital? Ou, obviamente, um tremendo ataque à memória dos falecidos. Que não me surpreende, há muitos que não têm quaisquer escrúpulos em explorar estas situações.

Europa busca un lugar donde colocar su gigafactoría de IA. España y Portugal le están enseñando todo su plumaje renovable: Um projeto intrigante, que une as valências ibéricas - energias renováveis, Sines enquanto ponto fulcral de ligação a cabos submarinos, para investir na construção de centros de dados dedicados à IA. Uma aposta soberana que a UE bem precisa de fazer.

The cute and cursed story of Furby: Recordo que quando este brinquedo surgiu no mercado, era uma maravilha técnica de robótica com preço acessivel.

Amazon Staffers Learning Hard Lesson as Company Cuts Robotics Jobs: A robótica aplicada desenfreadamente aplicada por capitalistas assanhados no afã de se livrarem desses empecilhos que são os trabalhadores também atinge aqueles especialistas que se esperava estarem algo imunes ao entusiasmo dos gestores pelos despedimentos.

Iran Is Bombing Data Centers in Retaliation: Qual é o outro grande pilar de infraestrutura global, para além da energia e transportes? A infraestrutura digital ancorada nos centros de dados.

Generating 3D Model Figures with AI: De fora, ficou o Hunyuan, que para mim é o melhor gerador de 3D com IA.

You Could Be Next: Ganância capitalista e automatização via IA são duas forças que juntas, abrem todo um novo campo de abusos sobre os trabalhadores.

Windows 12 could be the tipping point that finally pushes you to Linux - here's why: Slopware, anúncios embutidos no sistema, uma ideia de usabilidade pensada para desencorajar utilizadores de saber usar a fundo o seu computador, sistemas de ativação limitativos e a política de extrair dados pessoais através de telemetria invasiva. A sério, há cada vez menos razões para manter o Windows.


Hate it when I trigger a star-trap: Quem nunca?

The Coming Invasion of Iran: Antevê-se mais um lamaçal geopolítico.

Insider Trading Is Going to Get People Killed: A preocupante ascendência das plataformas de apostas online onde apostadores apostam sobre a probabilidade de acontecimentos. Já se percebeu que pessoas com informação privilegiada as usam para beneficiar, ilicitamente, do que sabem que está a ser planeado nas organizações onde trabalham.

The Glaring Oversight in the U.S. War Plan: Resumindo a leitura - tantos planeadores e não prestaram atenção aos drones de baixo custo.

The ideological implications of China’s economic success: O que será o modelo chinês? Marxismo capitalista, ou capitalismo socialista?

Europa acaba de dar un volantazo de 180 grados a su política nuclear y ha dejado a España completamente fuera de juego: Crise energética a quanto obrigas, mas diga-se que apesar dos riscos, o nuclear é um elemento importante na descarbonização e diminuição da dependência de combustíveis fósseis.

sábado, 25 de abril de 2026

Celebrar a Liberdade


Celebrar a liberdade, de pensar, agir e criar. Todos os dias, mas hoje em especial: 

https://archizer0.github.io/.../experimental/25abril2.html

"Manipulação do Cravo" não é nenhuma ironia negra ou comentário à deriva autoritária regressionista que todos sentimos estar a viver nos dias de hoje.

(Também a escrever liberdade de programar, mas o trabalho pesado foi feito pelo chatbot, sinto-me positivamente opressor da IA trabalhadora). 

Lost+Found

 
















Desfiladeiro de Hourma e Pinerbsi, Turquia.

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Pedro e o Imperador


Batista, Joana Afonso (2022). Pedro e o Imperador. Lisboa: Polvo.

O ponto de quebra entre a história de Portugal e do Brasil, vista sob a perspetiva ternurenta de um filho assombrado pelo espectro do pai falecido. Pai esse que foi D. Pedro, o gritador do Ipiranga que declarou a independência do Brasil mas abdicou do trono para regressar a Portugal, abraçando a causa liberal nas guerras civis da primeira metade do século XIX, tornando-se rei constitucional. O seu filho herdou o império dos brasis, até abdicar a favor da instauração da república. 

A história e os seus factos são o pano de fundo, mas esta história conta-se num diálogo entre um filho a envelhecer, herdeiro de um trono e de um cargo que nunca quis, a viver o ocaso da sua vida entre viagens e o exílio. Sempre acompanhado pelo pai, espírito fantasma que após morrer em Portugal, passa a fazer na morte o que não conseguiu em vida, estar ao lado do seu filho. Note-se que esta não é uma história de terror, a ideia do espírito incorpora uma espécie de diálogo interior de D. Pedro filho, a examinar as suas ações à luz da herança do pai. 

Um livro tocante, e confesso, a razão que me levou a pegar nele é ser mais uma obra representativa do excelente traço de Joana Afonso, uma das nossas melhores artistas contemporâneas de BD. A produção deste tomo partiu de um programa de intercâmbio cultural editorial dos dois lados do Atlântico, unindo autores e editoras em livros luso-brasileiros.

terça-feira, 21 de abril de 2026

Comics: A Star Called the Sun; Secret Origins of the World's Greatest Super-Heroes; Civil War


Simon Roy (2026). A Star Called the Sun. Portland: Image Comics.

Simon Roy é um dos melhores praticantes da ficção científica na BD contemporânea. Autor independente, distingue-se pelo misto de surrealismo e FC dura nas suas bandas desenhadas curtas, todas um primor de leitura. Não segue os padrões convencionais do género, nem opta pelo lado de espetáculo visual. As suas ficções são reflexões sobre humanismo, tecnologia e o choque de civilizações.


Dennis O'Neill et al (1991). Secret Origins of the World's Greatest Super-Heroes. Nova Iorque: DC Comics.

Para um leitor veterano de comics, houve aqui um regresso ao passado, que trouxe memórias de histórias que já tinha lido. Isto é a DC do princípio dos anos 90, antes da moda dos crossovers infindos e do grimdark, e estas histórias de origem recontam os inícios das personagens clássicas, com o que à época eram novas roupagens. Em Batman não há muita volta a dar, aquele elemento gótico é inescapável, mas noutras personagens, vemos um Superman que só na idade adulta descobre ser o último kryptoniano, um Martian Manhunter em versão policial noir, e embora numa tenha sido dos personagens que me desperta interesse, a origem de Flash - Barry Allen intriga pela sua circularidade numa origem que funciona num laço infindo. Foi também divertido recuperar à tentativa de comics bem humorados escritos por Keith Giffen, que deu um ar de sitcom às aventuras da Liga da Justiça.


Mark Millar, Steve McNiven (2026). Civil War. Lisboa: Atlântico Press.

Aproveitar a recente coleção Must Have por cá editada para revisitar uma série que se tornou estrutural na mitografia Marvel, o conflito entre os maiores heróis que questionou as bases da lógica do género. Talvez das poucas séries que se tenha atrevido a olhar para o que acontece quando super-heróis e vilões chocam entre si, essencialmente destruição quase indiscriminada. A outra, diria, foi o mais leve e algo humorista Damage Control, sobre funcionários camarários que têm como trabalgho limpar os resquícios dos heróis, desde o entulho dos conflitos às teias do Homem-Aranha. Civil War segue o caminho da mediatização e responsabilização social, bem como da instrumentalização das boas intenções pelos governos. A abordagem é eficaz, o que não surpreende, dada a capacidade narrativa de Mark Miller. Confesso, este é um dos argumentistas dos comics que adoro detestar. Tem uma enorme capacidade de tecer narrativas dinâmicas e cinemáticas, com pontos interessantes, mas nunca sai de um registo comercial puro. Nada contra, é o que quer fazer, mas torna-se repetitivo e fica-se sempre a pensar que como criador, poderia ir mais longe.

domingo, 19 de abril de 2026

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ASSIGNMENT: OUTER SPACE (1960): Clássicos. 

5223) Wells e o mundo do futuro (26.2.2026): De facto, há um paralelo entre os Eloi e as crianças sobreprotegidas que abundam nos dias de hoje. 

La foto más aterradora de internet no tiene monstruo, no tiene historia y no se sabe quién la hizo: las Backrooms llegan al cine: O horror dos espaços vazios de industrialidade moderna, as backrooms alimentam curiosos e algo surreais vídeos e creepypasta. No cinema a coisa não deve funcionar tão bem, porque o que torna a estética dos backrooms tão interessante é a quasi-ausência de momentos de horror clássico, é mais a versão digital daquela impressão arrepiante que todos sentimos quando estamos isolados num local vazio a horas impróprias. 

Absolute Superman Vol.1: Last Dust of Krypton: Acompanhei a série, e foi de facto uma interessante variante sobre a iconografia deste personagem. 

Five Lesser-Known Books by Sci Fi Greats, recommended by Sylvia Bishop: Serem livros menos conhecidos não significa que sejam obras menores, recordam-nos que os autores que admiramos tiveram carreiras que vão além das suas obras seminais. 

«Cosmic Horror Music», de Bruno Bizarro: Música ambiental para criar arrepios. 

Sobre a perda, sobre a obra e o autor, e sobre Hyperion e The Fall of Hyperion: Separar o admirar a obra das personalidades por vezes muito repelentes dos seus criadores será sempre uma questão complexa. 

Capas WTF: ALF #48: Metam "que raio de coisa é esta" nisto. Ou mais tabaco.

Historical Novels Based on True Stories, recommended by Emily Howes: Quando os factos influenciam a boa ficção.


BYTE, September 1979, cover art by Robert Tinney.: Computação dura. 

Google leva Nano Banana para o Google Maps: Esta é daquelas coisas que se lê e pensa, para quê, mas para quê? O google maps serve para nos levar aos sítios, e não faz qualquer sentido incorporar geração de imagens aqui. Ainda por cima, imaginem as consequências de imagens geradas por IA, que nos mostram os sítios tal e qual como eles não são. 

What’s the Point of School When AI Can Do Your Homework?: Uma das coisas que a IA generativa veio colocar a nu foi a visão transacional que a maioria das pessoas tem sobre a educação - ir para a escola não serve para aprender e melhorar as suas capacidades, mas apenas para obter o canudo. E todo o trabalho que se tem de fazer para isso, é desenrascado com o mínimo esforço. Isto não é novidade, recordo muito bem os meus tempos de estudante no superior, onde grande parte dos meus colegas tinham esta exata atitude. Para os humanistas e teóricos da educação, é um desalento, porque sempre se afirma a Escola como humanizadora, potenciadora das capacidades individuais, o local onde  podemos ir mais longe, mas a grande maioria do que estão neste sistemas não querem saber disso, querem apenas passar o tempo até chegar ao fim e obter a certificação obrigatória ou desejada. E, apesar de todas as boas intenções e belos discursos, isto é uma visão socialmente aceite: "Universities…by and large adopted a transactive model of education,” Kirschenbaum said. “Students see their diploma as a credential. They pay tuition and at the end of four years, sometimes five years, they receive the credential and, in theory at least, that is then the springboard to economic stability and prosperity.”". 

Los «juegos de guerra» gestionados con IA recomiendan un ataque nuclear el 95 por ciento de las veces: Sem grande surpresa. Se o objetivo é ganhar e depressa, maximizando os danos infligidos ao inimigo, faz sentido que um algoritmo desprovido de emoção siga a lógica da premissa até ao fim. A lição a tirar daqui não é que as IAs se comportam como skynets, mas perceber que o risco de deixar decisões nas mãos de algoritmos que apenas seguem os caminhos mais lógicas pode ter consequências trágicas. 

Burger King Adding AI to Employees’ Headsets to Constantly Monitor Whether They’re Being Friendly Enough: Pergunto-me se quem tem estas ideias tem o cérebro a funcionar como deve de ser. Para lá de invasivo, isto é sintomático da despersonalização extrema dos empregados no local de trabalho. 

Anthropic Takes a Stand: E pronto, chegámos a isto - um responsável político militar a querer obrigar uma empresa de IA a retirar salvaguardas, para a usar com fins letais. Uma atitude muito preocupante a vários níveis, e que mostra bem a absoluta falta de escrúpulos dos neofachos que infestam o governo americano. 

The AI Arms Race Joins Forces With the Literal Arms Race, Fueling $348 Trillion in Debt: Não, não estamos a falar de IA de combate, mas sim do peso excessivo da IA na economia, com um fortíssimo endividamento sem haver um horizonte claro de retornos financeiros. 

I Am a 15-year-old Girl. Let Me Show You the Vile Misogyny That Confronts Me on Social Media Every Day: Se há algo que têm mesmo de ler, que seja isto. A visão é inglesa, mas por cá nãp é diferente. O impacto negativo das redes sociais sobre as raparigas é fortíssimo, com o amplificar da mais repelente misoginia. E não é muito diferente no mundo adulto, observo eu ao ver grupos de redes sociais a falar das "fêmeas" de forma acintosa (só o uso do termo é logo uma enorme red flag), ou os infames grupos de whatsapp onde os mais simpáticos homens, aqueles que sempre foram boas pessoas, partilham e comentam imagens e vídeos impróprios, muitas vezes das suas próprias companheiras, tiradas sem consentimento ou conhecimento (pudera, iriam logo para o divórcio, com passagem na queixa-crime). Esta misoginia é prevalente e nas idades mais jovens, com menos filtros sociais e menor capacidade de disfarce de emoções, em ebulição. Note-se que faz parte do ser homem um assumir da sexualização feminina, é natural que cada um de nós reaja perante elementos do sexo oposto. Confesso, quando interajo social ou profissionalmente com mulheres, nem todos os meus pensamentos são castos, e também sou culpado da chamada conversa de balneário entre colegas, onde se fantasia sobre as qualidades de atração sexual de mulheres com que nos cruzamos. Pode deixar-vos chocados, mas creio que isto é inerente e normal à condição masculina. O que não é normal, nem nunca foi, é a desumanização da mulher, e a incapacidade ou até gozo em comentar atributos. Na vida física, é uma lição muito óbvia, do errado que é ser rebarbado e o quão insultuoso é o mais elementar comentário de cariz sexual. Na virtual, os filtros caem e há um certo orgulho em deita cá para fora os piores vitupérios. É um clima generalizado e tóxico. Agora, se estão a pensar que as restrições às redes sociais serão a panaceia que resolverá este problema e devolverá os adolescentes à inocência (que nunca, jamais, os adolescentes tiveram), o melhor é tirar o cavalinho da chuva. A misoginia e masculinidade tóxica nos instagrams e tiktoks é pálida face ao que se passa via mensagens instantâneas e outros sistemas, menos visíveis para o mundo adulto, para os quais os jovens inevitavelmente migrarão. Confesso, por vezes deparo-me com alunos aos quais me dá forte vontade de deixar cair filtros e dizer-lhes, na cara, que a forma como concebem a sexualidade e tratam as raparigas vai garantir-lhes um futuro em que as suas relações eróticas mais significativas se passem com as suas mãos direitas, dado que nenhuma mulher em são juízo está para aturar estas parvoíces. As pulsões existem e são naturais, o problema é esta amplificação artificial trazida pela cultura digital da misoginia, masculinidade tóxica e proliferação da pornografia, que incentiva as atitudes e comportamentos mais degradantes. 

BMW Group to deploy humanoid robots in production in Germany for the first time: Confesso que não percebo bem a obsessão por colocar robots humanoides nas fábricas (exceto, talvez, para dar corpo aos sonhos húmidos dos gestores de não ter de lidar com essa coisa fedorenta que são os operários). A combinação de máquinas especializadas faz mais sentido, de acordo com que leio e investigo sobre robótica. 

Wait—Laser Guns Are Real Now?: Bem, como colocar a questão? Sim, e já há bastante tempo. Não são as rayguns da FC clássica ou os turboblasters de star wars, mas os lasers já há muito que têm utilização na defesa. 

OpenAI strikes a deal with the Defense Department to deploy its AI models: Nesta história do uso militar forçado pelo pentágono, há quem tenha a decência de o recusar. Note-se que a Google nem fala no assunto embora as suas ferramentas sejam usadas, e a Open AI (sem grande surpresa, dada a sociopatia do seu CEO) vai com tudo e em força. 

How Meta Executives Talked About Child Safety Behind the Scenes: Se acham que o problema das redes sociais, crianças e adolescentes está nos utilizadores, leiam este artigo. E percebem: o desprezo dos gestores das redes sociais pelo bem estar dos seus utilizadores, em especial dos mais vulneráveis, é abissal. Para lá dos algoritmos explicitamente desenvolvidos para viciar, da ênfase na desinformação e discurso acintoso para garantir interesse, temos também a recusa em colocar salvaguardas de proteção de crianças e adolescentes por temer os impactos que teriam nos resultados financeiros. O problema, caros, não são os telemóveis. São estas empresas. 

We don’t have to have unsupervised killer robots: Deveras, mas suspeito que a cupidez das grandes empresas da robótica e IA, aliada à óbvia sociopatia dos seus gestores, não siga estes caminhos. 

Letting Machines Decide What Matters: Aplicar as capacidades analíticas dos LLMs às vastas quantidades de dados gerados pelas experiências da física de ponta.

AI vs. the pentagon: Desenganem-se se acham que o problema da Anthropic vs. Pentágono é algum cenário tipo exterminador implacável. As coisas são menos feéricas, e mais graves. Por um lado, há que notar que o Pentágono tem usado extensivamente estas ferramentas, quer as desta empresa, quer as de outras. O que fundamentalmente se passa tem a ver com a vontade de domar o setor privado aos impulsos de decisores politicos, não por escrutínio democrático, mas para levar em diante o que bem querem e lhes apetece. É um óbvio resvalo autoritário, e é aí que reside o cerne do problema.

Watershed Moment for AI–Human Collaboration in Math: Em resumo, a capacidade analítica de modelos de IA dedicados aplicada à verificação de soluções complexas. 

Pluralistic: No one wants to read your AI slop: Essencialmente, isto: "That is a fatal flaw in the idea that we will increase our productivity by asking chatbots to summarize things we don't understand: by definition, if we don't understand a subject, then we won't be qualified to evaluate the summary, either." Que é a mais sintética e direta desmontagem da falácia da sabedoria induzida pelo uso de IA que já li. É algo de óbvio, para quem usa a IA de forma consciente, que se amplifica o que conseguimos fazer, não nos torna automaticamente conhecedores. 

How Electrical Engineers Fight a War: Na guerra moderna, não há profissões imunes ao combate, especialmente se lidam com infraestruturas essenciais sob ataque constante. 

Meta Workers Say They’re Seeing Disturbing Things Through Users’ Smart Glasses: Sou só eu a pensar porque raios as capturas de vídeo tiradas por óculo inteligentes têm de ser enviadas para a Meta? Para além dos óbvios problemas de privacidade diretamente advindos do uso destes dispositivos, ainda há que contar com envio dos vídeos e imagens para serem usados nem se sabe bem para quê pela Meta.


The Secret Empire: Curiosas aeronaves. 

Alguien va a tener que dar explicaciones en España: una tienda de motos no solo vendía cascos, también material para los Eurofighter: Vá, é animador ver que a corrupção intermédia de baixo nível de inteligência não acontece só por cá. 

Enough With the Bros: Mas, sejamos honestos - os bros, quer sejam tech, culturais, da moda ou apenas bros, são verdadeiramente insuportáveis. 

Humans Sketched Oddly Precise Geometric Patterns Onto Ostrich Eggs 60,000 Years Ago: Geometrias euclidianas avant la lettre. 

Where Have All the UFOs, Yeti, Demons, and Ghosts Gone?: Sem grande surpresa, numa era onde abundam lentes, as evidências da existência de criaturas míticas continuam inexistentes. É mais uma coisa que a tecnologia veio estragar. 

España y Portugal se han aliado para lanzar satélites con una misión: monitorizar catástrofes en tiempo real: Notícias que não lemos nos jornais ou vemos nos telejornais - um consórcio ibérico ligado ao espaço que junta tecnologia e conhecimento português e espanhol. 

Surviving on Trump's Dangerous Planet: Como escapar às guerras pelo controle da energia petrolífera que os fachos trompistas andam a atear em zonas críticas? Apostar em recursos energéticos renováveis. O sol e o vento resistem a embargos, e a natureza distribuída da sua produção torna-os mais resilientes a ataques militares. Este violento canto  de cisne da indústria petrolífera (um dos sustentáculos de Trump) é lamentável e desolador, mas não tem de ser inevitável. 

La turbia historia de Fanta: el bloqueo de ingredientes a la Alemania nazi llevó a Coca Cola a tirar de suero y pulpa de manzana: Confesso que não imaginava que a história da Fanta estivesse ligada à II Guerra Mundial. 

Bridgebuilders and Historians Turned Metal Into Myth: A iconografia, estética e impacto cultural de uma técnica de construção. 

El futuro de la defensa aérea europea pasa por KFS: el nuevo caza que Suecia prepara es un "avión de aviones": Nestas andanças das geopolíticas europeias, é interessante ver o papel ambicioso que a sueca Saab está a assumir no ecossistema industrial militar europeu. Enquanto os projetos transeuropeus ou se arrastam, ou falham, como o FCAS (por birra da Dassault, note-se), esta empresa sueca tem ao mesmo tempo um historial de excelência e capacidade industrial, muita experiência no desenvolvimento de aeronaves avançadas e a custos muito inferiores dos das empresas mais tradicionais. Ou seja, num quadro em que a Europa tem mesmo de desenvolver alternativas credíveis, é a Saab que parece mais bem posicionada para o fazer, apesar das grandiosas declarações de intenções de países e consórcios mais tradicionais. 

America’s Invaluable Ally: De um ponto de vista estritamente militar, há que admirar a capacidade e criatividade dos israelitas, quer em termos de guerra convencional quer de operações secretas. São capazes de operações arrsicadas mas bem sucedidas, e a sua visão tática é ímpar. Claro, toda esta capacidade está ao serviço de genocidas e a sociopatia dos responsáveis é clara. Como escrevi, é admirável de um ponto de vista estritamente militar, não, como é óbvio, dos pontos de vista legais e sociais. Mas há uma lição que nós, nas democracias ocidentais, deveríamos reter: a clara implacabilidade com que os israelitas se defendem.

Nimas, Ideal e Cinemateca: os últimos “palácios” que desafiam a morte do cinema em Lisboa: Não sei se o cinema estará a morrer, mas como experiência de massas, diria que isso já aconteceu. As massas viraram-se para o sofá e o conforto dos serviços de streaming. Haverá sempre uma imensa minoria que continua a apreciar o ritual de ver cinema, mas essa é uma minoria que não liga ao mainstream e também não tem por cá muitos espaços com programação atrativa.