Choques culturais, daqueles a sério, não dos de desafio gastronómico ou cenas do dia a dia. Na viagem Erasmus a Kastamonu, dei por mim num auditório em Pinarbaşı, numa cerimónia muito oficial celebratória da batalha de Çanakkale. O como é que lá fui parar é toda uma outra história, de favores cobrados e devidos e da forma como políticos locais excercem a arte da política.
Por cerimónia entendam um auditório cheio de camponeses locais, pais das crianças que frequentavam a escola de uma pequena cidade do interior da região. Pessoas que esbugalharam os olhos quando viram entrar um óbvio grupo de estrangeiros, que foram encaminhados para as primeiras filas. Descobri-me sentado ao lado de óbvio homem de elevada importância local, com um bigode de bizarria assinalável e um estilo de vestimenta formal decalcado dos anos 80. Estando numa região rural perdia na imensidão da Anatólia, é o que podemos esperar.
O como lá fui parar, com os colegas e alunos do projeto, prende-se com aquela velha máxima de não haver almoços gratuitos. Suspeito que um dos nossos anfitriões puxou de uns favores para que o grupo pudesse almoçar na cantina da escola de Pinarbaşı. O impressionante desfiladeiro de Hourma, nessa localidade, era o nosso destino. A refeição, diga-se, foi deliciosa - um simples arroz branco e frango desossado, com um tempero saboroso. Como contrapartida, tivemos de assistir a cerimónias oficiais. Imaginem, um grupo de estrangeiros incapaz de compreender turco sem perceber patavina do que se estava a passar em palco, e um auditório cheio de camponeses que nos contemplava com ar incrédulo. A regra que adotei foi bater palmas sempre que todos batiam palmas, levantar-me respeitosamente sempre que alguém com ar importante ia ao palco.
Como a minha sorte é macaca, os anfitriões fizeram questão de me colocar na primeira fila, ao lado de pessoas que vim a perceber posteriormente serem os políticos da liderança local. O posteriormente explica-se pela parada que um deles nos fez pelos edifícios do poder turco. Inclui uma subida a um terceiro andar para nos mostrar o seu gabinete de trabalho, postando-se à porta e acenando. Um momento algo inquietante em que o governador local nos recebeu, naquele fausto asiático em que os visitantes estão confortavelmente sentados em cadeirões a ouvir o homem importante cuja secretária se encontra num estrado sobrelevado, num sinal discreto de poder. Foi o único momento em que me senti apreensivo em toda a viagem, não pela postura do governante, gentil e determinada na forma propagandística com que os governantes turcos nos falam do seu país, mas pela presença discreta de seguranças visivelmente armados. Um sublinhar vívido que não estava na nossa safe european home.
Ainda tivemos direito a visitar o presidente da comarca local. Poderia ter referido que tal como ele, eu também tenho responsabilidades autárquicas como membro de assembleia de freguesia, mas suspeitei que não era boa ideia, num país cujo regime é eufemisticamente descrito como uma "democracia iliberal", revelar que fui eleito como socialista. Além disso, juntei-me ao desafio autárquico como experiência de aprendizagem e contributo para uma comunidade que me tem enriquecido imenso, não para alardear uma aparente importância que de facto não tenho. De qualquer forma, apesar de ter sentido um espírito de tolerância durante toda a visita, achei que era asisado ser discreto do meu esquerdismo enquanto no país de Erdogan.
A visita à comarca foi um momento de clássica hospitalidade turca, tendo o ritual de lavagem de mãos com água de colónia e um bombom de chocolate, com oferta de uma deliciosamente aromática garrafa de perfume localmente produzido. Recordo, do final desse momento, o ar satisfeito do anfitrião local, ou o frio a bater no rosto enquanto tirávamos as obrigatórias fotos com os políticos, no exterior do edifício da comarca, num momento em que se ouvia o adhan.
Confesso. Apesar de ser um impenitente ateu, respeitador na necessidade individual de religião mas fortemente crítico da religião institucional, e nada confortável com crenças religiosas que limitam a liberdade humana, a memória mais forte que trago da Turquia foi a comoção interior sempre que ouvia o chamamento à oração. Não pelo seu exotismo, mas pela sua beleza, e talvez aquela emoção de sentir que há algo na cultura humana que nos transcende. Também me emocionei quando pisei a Praça de S. Pedro e tive um assomo de Síndrome de Stendhal quando ao entrar na Sagrada Família a beleza da luz no seu interior me despertou lágrimas. Podemos ser ateus e críticos, mas não significa que sejamos insensíveis às simbologias e significados.
Já me falaram aqui por várias vezes da importância da Guerra da Independência. Assumi que se tratou daquele momento no pós-I guerra em que os gregos invadiram a costa turca no mar Egeu para a anexar, e por pouco iam conseguindo. "No, no, it was when the british, the french and the italians invaded us", disse-me uma das minhas anfitriãs. Isso não bate certo com a história global que eu conheço, e depois de passar umas horas surreais rodeado de poderes locais que ouviam muitos deferentes teşekkür do povo num palco decorado com desenhos de crianças alusivos à batalha, tive de ir ler sobre o assunto.
Percebi que se trata de Gallipoli, uma das batalhas mais sangrentas da I Guerra. E vem aí o choque cultural - o que para eles é a guerra da Independência, para nós é a I Guerra Mundial. O conceito de independência estranha-se, sabendo que o então império Otomano era perfeitamente independente e alinhado ao lado das potências centrais. Gallipoli foi a tentiva aliada falhada de controlar os dardanelos e ocupar a então Constantinopla, capital otomana. Por ironia, um dos arquitectos do ataque foi Churchill. O derrotado de Gallipoli viria a ser uma das peças fundamentais da firmeza aliada nos momentos mais perigosos da II guerra.
Soa estranho, para quem leu a versão ocidental da história global, esta visão de um conflito global. Mas a História nunca é simplista e linear. Se um país que era independente há muito regista a I guerra como mito fundador, há razões para isso. Ler um pouco mais recordou-me que a vitória turca trouxe à ribalta Mustafa Kemal, é o ponto onde principiou o nascimento da república turca e o fim do império otomano.
É o choque cultural de perceber que a nota de rodapé da nossa história é a peça central da história de outros povos.
Não estão a ver a importância que por cá se dá a isto. É como se nós celebrássemos constantemente a batalha de S. Mamede e tivessemos um busto ou uma pintura de D. Afonso Henriques a cada esquina. Isso aqui é literal. Todas as salas de aula que visito têm o rosto de Ataturk, há um busto dourado à entrada de cada escola. Nós, com a nossa herança pesada do estado novo, vemos com reticência esta mitificação da história e cultos de personalidade. Por aqui os ares são outros.
Este é um dos pontos que faz valer as viagens em Erasmus. Isto não é turismo. Não estamos a passear pelas atrações, a ver e saborear o very typical encenado para vender ímanes de frigorífico. Emparceiramos com escolas de terras fora do circuito turístico, visitamos os locais que os da terra dão importância, passamos tempo a trabalhar e a brincar (especialmente as crianças). Não tenho a veleidade de achar que se fica a conhecer profundamente os povos e as gentes, mas lidamos com gente como nós.
É enriquecedor ver as nossas alunas alegres, a passar o serão a conversar com os seus colegas turcos no centro comercial aqui da terra. O Starbucks é o grande ponto de encontro. Ah, adolescentes, iguais em todo o lado. Já eu prefiro o chá e o café - à moda turca, obviamente, nas tascas locais. As de banquetas baixinhas e decoração orientalista normal, não de falsa iconografia para turista consumir, e que apesar de limpas dariam chiliques aos habitués dos nossos estabelecimentos comerciais luminosos e normalizados. "We have to get you some prayer beads and you will completely fit in", riem-se as minhas colegas turcas ao verem-me devorar os cafés turcos, dado que sou um tipo barbubo com tez mediterrânica. Na verdade o que preciso mesmo é de cafeína, dado que as três horas de diferença pesam particularmente forte de manhã.