terça-feira, 7 de julho de 2026

Lusitânia: A vida dos Cássios, uma família na Lisboa Romana


André Simões (2026).  Lusitânia: A vida dos Cássios, uma família na Lisboa Romana. Lisboa: Planeta.

Um mergulho didático e interessante no cruzamento da nossa história com a do império Romano. Através da ficcionalização da vida de uma família Olissiponense, André Simões leva-nos a conhecer a fundo os tempos áureos de Roma. Não com o foco na grande história dos imperadores e da cidade eterna, tentando sempre olhar para o nosso recanto romano à beira-tejo, com os seus modos de vida, economia e governo. 

Claro, dado que a quantidade de vestígios do império nos vem de fora e não do território português, pese embora a nossa riqueza arqueológica, boa parte da história da vida destes Cássios é extrapolada do que se sabe vindo de outras paragens. Faz sentido, dado o amplo espectro do império e a forma como a romanização enraizou os seus costumes nos povos e territórios conquistados. Tal como o prova a língua que hoje falamos, ou muitas das festas que celebramos, que nos chegam desses tempos.

O foco deste livro está na vida dos romanos, daí o uso de uma família meio imaginada (os nomes foram criados a partir dos vestígios das estelas funerárias que se encontraram em Lisboa). Este estratagema, mais pedagógico que literário, permite-nos acompanhar a vida quotidiana dos romanos, tal como se sabe hoje que eles viviam. E, no fundo, perceber que apesar das vastas diferenças entre os seus tempos e os nossos, não eram pessoas fundamentalmente diferentes do que nós somos. Através deste livro, vemos como os nossos antepassados comiam, se divertiam, socializavam, estudavam, geriam os seus negócios, quais os seus ritos religiosos e superstições.

Apesar do enorme gosto deste livro em falar-nos dos romanos, não há nele o deslumbramento cego que demasiadas vezes se vê ou lê por aí quando se fala da grandeza do império e da sabedoria dos cidadãos. Não há pejo em mostrar-nos que os modos de vida e atitudes dos romanos são radicalmente diferentes das nossas, e nalguns aspetos que hoje consideramos direitos humanos elementares, são-nos repelentes. As suas atitudes perante a mulher, vista como útero para procriar e sempre submissa aos homens da família, são um óbvio exemplo.  Ou, ainda mais gritante, a condição dos escravos, meros objetos sujeitos aos donos, em que só uma minoria poderia aspirar à condição de liberto (e mesmo assim não se livrava da tutelagem familiar dos seus antigos donos). Apesar disto, o livro tem uma perspetiva otimista, recordando que as pessoas comuns tentam vivera as suas vidas em equilíbrio.

Como nota final, registo o trabalho notável do seu autor. Não só neste livro, escrito como de divulgação histórica acessível, mas ao papel que assumiu como influenciador no TikTok. É quase um contrassenso que alguém que se dedica a falar da cultura romana, condição de neurodivergente e ativismo LGBT se tenha tornado uma figura influente graças às redes sociais, que costumam incentivar e recompensar os tipos de discurso que se encontram nos antípodas dos de André Simões. Num oceano de anti-intelecutalismo, conservadorismo extremista, proto-fascismo, masculinidade tóxica ou a promoção do mais elementar e pateta comportamento humano, é quase incrível que se tenha tornado uma voz influente e conhecida. Ainda bem que assim é, significa que apesar de toda a podridão algorítmica, as redes sociais ainda conseguem dar voz àqueles que vale mesmo a pena ouvir.