quinta-feira, 9 de julho de 2026

Magnifica Humanitas


Leão XIV (2026). Magnifica Humanitas: Sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial. Lisboa: Paulinas.

Das coisas que não estavam nas minhas cartas para este ano, e no entanto, aconteceram. Eu, empedernido ateu, a ler, meditar e apreciar uma encíclica doutrinária papal. Se isto vos surpreende, recordem-se: estamos a perder em guerra aberta pelo capitalismo predatório,  e precisamos nas trincheiras de união apesar das diferenças. Mais importante que a diferença entre não acreditar e acreditar em mitos como se fossem reais, é a igualdade do humanismo, a única arma que temos contra aqueles que se estão a apropriar de uma tecnologia fascinante para enriquecer ainda mais. Piorando as condições sociais, ambientais e laborais, extraindo riqueza que fica concentrada nos seus fundos offshore e outros malabarismos fiscais em vez de circular na sociedade. 

Ou não vos dá uma certa vontade de começar a afiar a lâmina da guilhotina sempre que um ceo ou bilionário proclama alegre e orgulhoso que os  benefícios da IA serão tantos que vai já despedir uns  milhares de trabalhadores, sorrindo ao falar-nos de futuros onde áreas laborais inteiras deixem de precisar de mão de obra hunana? E, talvez, com a água racionada, se se levar ä letra a ideia de um certo bilionário que começou por enriquecer a vender livros e agora é dono da infraestrutura que sustenta grande parte da internet, e passar a investir os recursos hídricos escassos no desenvolvimento da IA, que trará ainda mais prosperidade ao seu já gargantuesco bolso, em vez das necessidades básicas dos meros humanos.

Sim, eu sei. Estou a falar do dono do Goodreads. Percebo a ironia. Mas estou a divergir.

Parte desta encíclica lê-se na diagonal. É una encíclica doutrinária, e o seu texto reflete sobre os pressupostos do edifício intelectual da teologia católica. É, certamente, fascinante para crentes, fiéis e teólogos, mas não muito importante para o meu objetivo de leitura.

Apesar da sua origem e destino teológicos, tocou-me o fundo profundamente humanista desta encíclica. Após os necessários rodeios doutrinários, enfrenta o tema de frente: a forma como a IA, e a tecnologia em geral, está a ser apropriada pela elite financeira capitalista para fazer crescer ainda mais desmesuradamente os seus ganhos, em detrimento da sociedade humana, das pessoas, do próprio planeta. Vindas de onde veem, as palavras não têm o tom viva la revolución que lhes coloco, são mais os apelos de um sacerdote sábio ao amor e solidariedade. Mas é isto que se destila da leitura: uma revolta profunda contra a forma como a tecnologia está a ser usada para piorar o mundo em que vivemos.

O texto não é uma negação da tecnologia, ou um apelo à paragem do desenvolvimento da IA. Bem pelo contrário. A importância da ciência e tecnologia é sublinhada, e quanto à IA, é observado o seu potencial. O foco, e aqui o papado entra na trincheira partilhada por todos os críticos conscientes da IA, está na forma como esta tecnologia está a ser apropriada pelas piores forças do capitalismo - as que buscam a primazia do lucro acima de tudo, cilindrando os trabalhadores, as famílias, a sociedade, os recursos naturais, o ambiente, a nossa casa planetária comum. É uma revolta dupla, feita contra o asco perante este novo excesso de desumanidade, mas também pela frustração de ver o potencial libertador da tecnologia a ser cooptado para a opressão, quer a financeira, quer a politico-militar.

É uma encíclica de palavras sábias, que certamente tocarão no âmago dos crentes. Como ateu, não me deixam indiferente, bem pelo contrário. O humanismo do amor ao próximo, o reconhecer que podemos e devemos lutar por um mundo melhor, que a tecnologia deve ser ferramenta para que todos enriqueçamos, mostram que este papa está do lado certo da história. Que, infelizmente, dado o poder dos bilionários, talvez não seja o lado vencedor. Mas pelo menos, estamos do lado dos que procuram lutar pelo mais correto, pelo bem da humanidade. Valha-nos isso.