segunda-feira, 22 de junho de 2026

Obsession

Vim parar a este filme sob influência de Backrooms. Li, algures, que este teve um impacto diminuído por ter saído em simultâneo com Obsession para os cinemas, sendo ambos considerados como obras que quebram o padrão e trazem ao grande ecrã as estéticas digitais. Como Backrooms é um filme que não sai da cabeça, quanto mais se pensa nele mais fascina, fui espreitar o seu aparente concorrente.

Obsession não é tão radical na sua estética como Backrooms. Apropria-se de algumas estéticas nostálgicas e faz uso das sonoridades suaves levemente dissonantes que vêm do vaporwave ao horror core. Os carros e casas parecem ser dos anos 80, mas não como anacronismos, dado que a modernidade da internet, telemóveis e IA estão presentes no filme. É um dos indícios do uso de códigos visuais que os conhecedores do vídeo nas redes socias reconhecem muito bem. Como história, não é especialmente inovador, é uma variante do clássico enredo dos desejos concedidos que se revelam maldições. Vê-se como um cruzamento entre The Monkey's Paw, talvez a mais célebre história desta vertente do terror, e o meme da overly attached girlfriend levado a extremos gore (e diga-se que a atriz que desempenha o papel de monstro/vítima incorpora muito bem o ar de alegria inquietante deste meme). 

A história segue os desamores da pós-adolescência, com uma teia intricada que une quatro amigos que trabalham numa loja de música. Aqui, já toparam dois arcaísmos da estética das nostalgias, a história de crescimento dos jovens adultos e a loja de música como ícone atemporal que evoca um mundo onde o comércio era local e não dominado por multinacionais. Um dos jovens, Bear, está claramente apaixonado por Niki, uma rapariga muito independente. Esta está casualmente envolvida com Ian, o melhor amigo de Bear, sem que este desconfie. A compor o círculo está Sarah, filha do dono da loja, amiga de todos, e claramente apaixonada por Bear. Entre jovens tímidos e ainda a descobrir o mundo, há muitos sentimentos não ditos, e momentos de falta de coragem para dizer o que se sente. 

Parece uma típica comédia romântica, até à introdução do elemento sobrenatural, na forma de um produto colecionável que garante um desejo. É vendido em lojas esotéricas, e a maior parte dos que o compram nem sequer o usa, em mais um aceno às estéticas digitais do consumo de objetos icónicos que foram concebidos para ser mostrados mas não, realmente, usados (as Kodak Charmera são o exemplo mais recente dessa tendência). Amargurado  pela sua falta de coragem em assumir os sentimentos, Bear dá uso ao amuleto dos desejos, e fica logo surpreendido quando a reação da sempre distante Niki se transforma numa busca de proximidade imediata. A partir daí as coisas começam a correr de maneira estranha, até descambarem numa progressiva espiral de violência obsessiva. O desejo parecia inócuo, fazer a rapariga amar o rapaz, mas a personalidade da rapariga fica esmagada pelo efeito mágico, e o amor torna-se numa obsessão que ascende a extremos de violência, até um final quase irónico e muito infeliz. 

Para além das estéticas da nostalgia entrecruzadas com a modernidade tecnológica, o outro elemento que coloca este filme com um pé firme no terreno do momento contemporâneo é a sua temática. A história do desejo amaldiçoado é uma nada subtil metáfora para as relações tóxicas, amores obsessivos e desiquilibrados. É uma visão muito contemporânea que assenta no castigo que o rapaz sofre por estar a viver a sua fantasia de ser plenamente adorado por uma rapariga, embora com imensas nuances. Os rapazes não são machos tóxicos, há uma preocupação constante com o respeito mútuo, enquanto é muito sublinhada a perda de identidade das relações tóxicas de excessiva co-dependência. O horror não é a maldição dos desejos concedidos (algo que até é levado de forma muito leve por todos os que conhecem a história do objeto que os concede, chega a haver uma linha de apoio ao cliente que, como todas as linhas de apoio ao cliente, é disfuncional). Está, sim, na diluição da personalidade individual numa relação amorosa obsessiva.

Este filme é claro terror da geração millenial. Não é perfeito, tem momentos de tédio e outros de claro overacting, mas consegue um crescendo de tensão que explode num final portentoso, com gore q.b.. Uma nota especial para Inde Navarrette, que protagoniza a infeliz Niki. Começa de forma distante e discreta e acaba por levar todo o filme nos seus braços, com um desempenho alucinante que oscila entre o absurdo, o inquietante e o verdadeiramente arrepiante, num trabalho brilhante.