quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

The Gas


Charles Platt (1980). The Gas. Londres: Savoy Books.

Tenho de culpar o Damien Walters, com as suas sugestões de leitura, por ter tropeçado nesta bizarria. Não a teria descoberto de outra forma. Walters partilhou-a como inesperada leitura fora da caixa, e, de facto, é-o. Não é um grande livro, apenas algo de inesperado. Nome menor da FC britânica, Platt esteve envolvido com a lendária New Worlds. Este The Gas... bem, como o qualificar? 

Apesar de ter sido escrito por um autor de FC e ter elementos do género, The Gas é um romance pornográfico, típico material masturbatório escrito a metro para excitação dos leitures num tempo antes da internet, onde era mesmo preciso ler segurando o livro com uma das mãos e imaginar para, enfim, creio que percebem. Hoje, com a proliferação banalizada da pornografia online, cada vez mais a extremar-se para despertar interesses adormecidos pela generalização, este tipo de livros parece-nos algo inocente e peculiar. 

Como descrever este livro? Imaginem a premissa do clássico The Purple Cloud, mas em vez de um gás mortal que se espalha pelo mundo temos um acidente num laboratório que liberta uma nuvem que se espalha por toda a Inglaterra, cheia de uma substância que exacerba o desejo sexual. O resultado é um colapso social, com toda a gente a sucumbir ao desejo desenfreado e meter-se em orgias cada vez mais violentas. Talvez a melhor forma de descrever isto seja imaginar o típico cenário de histórias de zombies, mas com hordes de pessoas esfaimadas por sexo em vez de mortos-vivos. Aliás, há muitas cenas no livro que poderiam ser transportadas para filmes de zombies.

Claro que tudo isto é uma desculpa para se sucederem descrições explícitas de atos amorosos, com uma decadência progressiva nos mais proibidos tabus. Apesar disto, há um romance, uma lógica no livro, uma linha narrativa de merguho na insanidade. Algo que o livro tem aos rodos - à medida que se aproxima do final, as tropelias tornam-se cada vez mais bizarras e as descrições mais insanas. Platt certamente que se divertiu a imaginar o que aconteceria se estudantes de ciência perdessem todas as inibições e usassem as experiências em modo secxual, numa sequência que termina com uma das cenas mais insanas que já li - o colapso de uma catedral usada por bandos de lésbicas enraivecidas de desejo, que se dedicam a torturar homens até à morte. 

É ainda pior do que imaginam, naquele surrealismo da má literatura em que é tão mau que se torna interessante. Não é que o livro seja um mau livro. É algo que ultrapassa a mera qualificação de material masturbatório escrito a metro, com um aceno à ficção científica numa história de apocalipses em versão deboche.