terça-feira, 12 de junho de 2018

Tex: A Pista dos Fora-da-Lei



Mauro Boselli, et al (2018). Coleção Bonelli #06 Tex: A Pista dos Fora-da-Lei. Lisboa: Levoir.

Sendo a mais popular das personagens Bonelli, com uma forte comunidade de fãs por cá, não surpreende que a Levoir esteja a dar um especial destaque a Tex. Algo deprimente, para aqueles que não são especialmente amantes do western. Nota: escrevo isto não por desdém, apenas por falta de afinidade com o género, e não é um comentário depreciativo à qualidade da série. Pelo contrário, a leitura das histórias selecionadas para esta coleção mostram um elevado nível de qualidade gráfica e narrativa. Algo especialmente patente na primeira aventura deste volume.

Os gostos de género têm o seu quê de geracional. Recordo ler alguns romances populares da viragem do século XIX para o XX, o chamado romance de capa e espada, editados em coleções acessíveis, literatura de um género  que fez palpitar os corações dos nossos avós, do pulp ao cinema, e que hoje desapareceu por completo. A geração que apreciava os feitos dos espadachins extinguiu-se. Associo muito o western, com aquelas visões libertárias do velho oeste, à geração dos meus pais. Suspeito que quando essa geração se for, o western decairá por completo. Na literatura pulp e nos comics já se foi, no cinema tem breves lampejos. Também poderia fazer um paralelo com as ficções de aventura nos mares ou aventuras de pirataria, outros géneros que deleitaram leitores e encheram páginas, hoje ausentes do panorama literário. Não é um bom augúrio, pensando como fã de ficção científica. Nisto, o sucesso de Tex é um curioso anacronismo, ou talvez o canto de cisne de um género que nos legou ícones da cultura popular.

Se não forem fãs de Western, A Pista dos Fora-da-Lei é a aventura perfeita para se ler. O argumento de Mauro Boselli desenrola-se como um filme passado no velho oeste, com um fortíssimo dinamismo e um ritmo implacável. O trabalho gráfico de Carlos Gomez sublinha bem a intensidade da história. Um argumento que, dentro dos limites de um género popular, tem uma multilinearidade bem estabelecida, que conflui num confronto inevitável de linhas narrativas com um final inesperado. Tex e os seus companheiros dão caça a um bando de ladrões, no mesmo território onde um bando de apaches enraivecidos estão à solta. No centro da acção está uma cidadezinha mineira, alvo potencial dos ladrões para mais um assalto, desculpa perfeita para uma atrocidade vingativa dos índios rebeldes, e cujos habitantes se mostrarão mais corajosos do que o esperado. A história conta-se em múltiplos pontos de vista, não se centra na progressão linear de um personagem.

O Assassino de Índios, a segunda história coligida nesta edição, segue uma estrutura narrativa mais clássica, com os heróis a desvendar o mistério de um assassino em série de índios, que leva consigo os seus escalpes. As pistas levam-nos a uma cidade isolada, quase esquecida, onde irão descobrir quer o culpado das mortes, quer o segredo escondido pelos homens mais importantes da cidade. Narrativa linear, muito procedimental, com os obrigatórios cowboys violentos a soldo e uma história trágica do passado a motivar os crimes do presente.