terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Titus - O herdeiro de Gormenghast



Mervyn Peake (2010).  Titus - O herdeiro de Gormenghast. Porto Salvo: Saída de Emergência.

Há um tremendo ar de grandiloquência barroca neste clássico de Mervyn Peake. O texto é excessivamente trabalhado, filigranado, caricatural a roçar o grotesco. É um ambiente pesado, profundamente gótico no sentido sturm und drang. As personagens são caricaturais, arranstando-se em acção teatralizada por palco decadente, vasto e semi-arruinado. Isto não é fantasia no sentido clássico, de visões bucólicas e feitos heróicos. E é isso que torna este livro interessante.

Este primeiro livro da série Gormenghast (vá, pronunciem a palavra, saboreiem a sua arquitectura gutural, e percebem o barroquismo decadente do livro) é em essência um longo apresentar de personagens, dispondo-as num convoluto tabuleiro de xadrez narrativo. Ficamos a conhecer a incrivelmente disfuncional família senhorial do condado de Gormenghast, com o seu conde moroso, esposa que se interessa unicamente pelos seus gatos, filha semi-selvagem e irmãs gémeas com óbvia deficiência mental. Somos apresentados à caricata entourage de altos funcionários que de se dedicarem a funções fortemente ritualizadas, tornaram-se eles próprios ritualizados. Isto num castelo vasto, entre o sombrio e o assombroso, centro de uma terra que em si também encerra esquisitices quanto baste.

A história, contada com uma lentidão agonizante, narra-nos os primeiros anos de Titus, o filho varão do conde e grande esperança do reino. Um herói que nada faz, é um personagem secundário na sua própria história. O grande personagem é Steerpike, um inteligente e ambicioso anti-herói, jovem que consegue encontrar forma de se erguer de mero escravo de cozinha até se posicionar para se tornar o de facto dono do poder em Gormenghast. Sinuoso e implacável, capaz de manipular com fina inteligência aqueles que o rodeiam, um líder apropriado para a decadência ritual do condado.

A lentidão narrativa é em si outro artifício literário. Sublinha o filigranado barroco do texto, o caricatural das personagens e o teatral das peripécias da narrativa.

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