quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Persepolis Rising


James S. A. Corey (2017). Persepolis Rising. Nova Iorque: Orbit.


No final de Babylon's Ashes, o universo de The Expanse parecia em risco de colapso. Com a Terra devastada por ataques com asteróides, as facções de Belters em guerra entre si e a aperceberem-se do tremendo risco de colapso económico, com a única fonte de materiais biológicos do sistema solar em risco de extinção, uma aliança militar entre marcianos e terrestres para dar caça aos rebeldes. Lá longe, muito longe, para lá do portal alimentado pelas estranhas tecnologias da civilização desaparecida que o criou, que nas fímbrias do sistema dá acesso a outros sistemas solares, cada qual com os seus mistérios, um grupo de colonos parece estar a criar uma civilização emergente.

Esperávamos em Persepolis Rising a continuação desta história, talvez uma aventura difícil por entre o ambiente de recuperação em tempos muito difíceis. Mas os autores trocam-nos as voltas, seguindo um outro caminho que não é de si inesperado, focando-se nas acções e ambições dos colonos que, no sistema solar de Laconia, estão a criar uma civilização emergente. Pistas que os Corey nos tinham deixado ao longo dos últimos volumes da série, com os habitantes de Laconia (rebeldes marcianos que roubam um terço da frota militar planetária) a formar importantes narrativas secundárias. O que é inesperada é a deslocação temporal. Entre Babylon's Ashes e Persepolis Rising passam-se trinta anos.
Isto significa que o Rocinante já não é a nave novinha em folha, ex-cruzador marciano apropriado pelo intrépido capitão Holden e sua divertida tripulação. A poderosa nave começa a dar sinais da sua idade. Também os aventureiros já não caminham para novos, a meia idade começa a fazer-se sentir, os cabelos a esbranquiçar. Pelo menos, somos poupados aos minuciosos dramas e politiquices da evolução da sociedade de The Expanse, a fórmula que os Corey sempre exploraram nesta série. Passaram-se trinta anos e as sociedades estabilizaram, a Terra recuperou do desastre ecológico, Marte mantém o seu poder, a sociedade Belter organizou-se numa união que controla a zona de transporte entre sistemas solares, e a sociedade terrestre espalhou-se por entre os mil e trezentos planetas acessíveis a partir do portal.

A princípio, parecemos ir mergulhar em mais uma história-périplo, com o Rocinante a ser enviado a um planeta colonizado por libertários em missão punitiva e Holden, como sempre, a fazer as coisas à sua maneira. Levamos o primeiro baque quando este anuncia que está cansado, quer retirar-se da vida de aventuras, e entrega o comando da nave à ex-marine marciana Bobbie. Como leitores, ficamos intrigados sobre como será a série Expanse sem o seu personagem principal e ponto de charneira. Poderemos esperar uma história com a tripulação do Roci a adaptar-se a uma nova vida, com Holden e Naomi a viver uma tranquila reforma longe de aventuras?

Os Laconianos são as grandes personagens deste livro. Ficamos a saber que, em isolamento voluntário do sistema solar e colónias, desenvolveram uma sociedade militarista e ambiciosa. Sem limites éticos, exploram ao máximo os potenciais das tecnologias alienígenas e da protomolécula. Winston Duarte, o ex-almirante marciano que fundou a sociedade laconiana, está a injectar-se regularmente com um soro destilado a partir do sangue de vítimas da protomolécula. Aos que são considerados criminosos na espartana sociedade laconiana, espera-os um destino atroz nos laboratórios de pesquisa, onde são infetados com a molécula para morrer e, no processo, servirem de colheita de dados e fluídos. Controlando a interacção da molécula alienígena com o corpo humano, Duarte almeja tornar-se imortal, líder único do que pretende ser um império humano que abranja todos os sistemas estelares de The Expanse. Depois de consolidar o seu poder e fazer avançar as suas armas, com incorporação de muita possibilidade tecnológica exótica trazida pela protomolécula, resta-lhe dar o primeiro passo de conquista.

Bastam duas naves. As modificações e tecnologia exótica dos laconianos estão demasiado à frente de tudo o que o sistema solar tem. Com muito pouco esforço, ocupam Medina, a antiga nave geracional Nauvoo, agora estação que orbita o portal entre sistemas solares. Uma das naves segue em direção ao centro nevrálgico do sistema solar, derrotando todos os esforços para a travar. O poderio combinado das potentes frotas terrestre, marciana e da união é incapaz de fazer frente a uma única nave laconiana. A derrota é previsível, a capitulação torna-se a única forma de salvar vidas. Apesar de militaristas e assentes em poderoso armamento, os Laconianos tentam projetar uma aparência de benevolência, mostrando que a invasão é apenas uma forma desagradável de criar uma inevitável e desejável união de toda a humanidade. A situação é desesperada, agravada pela violência da ocupação de Medina. Aos antigos belters, junta-se a tripulação encalhada do Roci. A resistência é inevitável, Holden e o seu bando de aventureiros honrados tem, mais uma vez, um papel decisivo a travar. Para complicar um pouco mais a narrativa, o uso extensivo de tecnologias baseadas na protomolécula atraiu uma atenção indesejada. Algures no passado, a civilização que criou a protomolécula foi extinta por algo ainda mais avançado. Algo que Holden intui quando visitou pela primeira vez o artefacto que se tornaria o ponto de contacto entre mundos, e que volta agora a surgir. Mais do que o risco do universo de The Expanse se tornar uma hegemonia ditatorial militarista, haverá algo ainda mais terrível a caminho.

Como sempre, esta série é escrita comercial no seu melhor. Não perde tempo com grandes especulações sociais, assenta num mundo ficcional muito sólido e plausível, e o encadeamento narrativo é daqueles que não nos deixa parar a leitura. O virar de páginas é compulsivo, queremos sempre saber o que está mais à frente, que aventuras ou desventuras esperam os nossos personagens. É este o grande ponto de interesse de The Expanse. Apesar de muito bem feito, não pretende ser mais do que é, ficção científica de puro escapismo.


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