terça-feira, 16 de janeiro de 2018

O Algoritmo do Poder

 

Pedro Barrento (2018). O Algoritmo do Poder. Edição de autor.

Parti para O Algoritmo do Poder sem fasquias elevadas. Auto-edição significa que tirando os amigos do autor não houve olhar crítico editorial sobre o texto, e as produções literárias de autores que estão fora dos núcleos mais activos da FC em Portugal raramente surpreendem pela sua qualidade ou inventividade. Isto não é um elogio a grupos, antes um apontar que criadores que se cruzam e discutem o seu trabalho conseguem levá-lo mais longe do que aqueles que estão isolados nos espaços. Seria este mais um daqueles livros bem intencionados, mal escritos e com ideias banais que fazem as delícias das editoras vanity predadoras?

No seu cerne, a ficção científica e especulativa não trata de prever ou imaginar futuros. A lente da FC não é um oráculo de Delfos, antes, é um espelho das pulsões sociais e culturais da sua contemporaneidade, alimentada pelo fascínio e possibilidades da ciência e tecnologia. Os futuros da FC são em essência uma redução ao absurdo dos momentos presentes, um tirar de travões aos contextos do tempo cultural e levá-los às suas conclusões lógicas. Este não é, claro, um raciocínio que caracterize toda a Ficção Científica, e ainda bem, senão não teríamos divertidas aventuras no espaço, cheias de raios laser, explosões e estrelas da morte. Divertidas, mas inconsequentes, que não nos surpreende e deixa a reflectir como faz o lado mais maduro do género. Podemos apreciá-lo pelas naves espaciais, mas o que verdadeiramente apaixona é o raciocínio sobre possibilidades que nos desperta.

Este tipo de especulação está no cerne de O Algoritmo do Poder. Apesar de estruturado como romance-périplo, um daqueles livros que pega nas mãos do leitor e o leva através do mundo ficcional (utilizando a definição de Aldiss em A Billion Year Spree), é em essência um longo infodump sobre a forma como Pedro Barrento vê algumas questões estruturais que já hoje caracterizam a sociedade global. Infodump, mas daqueles bem feitos, em que os dados que informam o leitor sobre as premissas do mundo ficcional são elementos da narrativa e não aqueles longos discursos onde um personagem perora longamente para nos ajudar a perceber as premissas do universo.

Se não estivermos particularmente sintonizados com questões como a influência dos algoritmos nos comportamentos sociais, bolhas de informação, inteligência artificial e automação, ecologia e alterações climáticas, pode ser fácil desconsiderar O Algoritmo do Poder como uma banal distopia. Um mundo futuro fragmentado, regredido, onde a globalização foi substituída por uma hiperlocalização, com a heterogeneidade social eliminada pela existência de regiões habitadas exclusivamente por quem partilha de ideais ou religiões específicas. Imaginem que os países não são ricos cadinhos culturais onde diferentes grupos se cruzam e interagem, mas regiões de monocultura social. Que a memória colectiva é limitada a uma espécie de constante agora, sem memória do passado nem vontade de projetar futuros. Que os níveis de vida e de tecnologia tinham de facto regredido, mas ninguém se importa com isso porque não imagina sequer que haja alternativas ao mundo onde sempre viveram. Pessoas que não imaginam sequer que o mundo seja mais vasto do que a pequena região que habitem, onde viajar é passar entre localidades próximas. Um estado de coisas facilitado por um governo global automatizado, baseado em algoritmos, que redistribui a riqueza por todos e assegura uma normalidade global. Um mundo que é de facto uma gaiola, não dourada, até bastante enferrujada, mas quem nela está encerrado julga-se no melhor dos mundos porque a memória colectiva é controlada pelos omnipresentes algoritmos.

Agora, olhem à vossa volta. A discussão pública está cada vez mais dependente de redes sociais onde nos agrupamos em bolhas de informação, verdadeiros enclaves de ideias que geram em cada um de nós a falsa sensação de um consenso global. Fluxos de informação controlados por algoritmos cada vez mais avançados, e que sem que nos apercebamos transvasam para as nossas vidas. Quantas das nossas decisões não foram influenciadas por algoritmos invisíveis? Não são entidades espirituais, são ferramentas industriais usadas em nome da eficácia dos serviços e da interconexão global de que todos dependemos. E se a nossa memória comum não foi riscadas e esquecida, até que ponto o estado de constante atemporalidade gerado pelos media e internet nos leva a esquecer a rica textura do fluxo histórico?

Certamente o maior desafio do nosso momento contemporâneo são as alterações climatéricas. É um problema tremendo, que coloca em risco o planeta e a nossa viabilidade como espécie a longo prazo, e o nosso estilo de vida a curto prazo. Debate-se muito, faz-se pouco, aposta-se na tecnologia que ainda está por inventar para nos salvar dos desastres ambientais. Mas, e se a resposta for regredir? Isolar as comunidades, esquecer a globalização, produzir localmente, encontrar formas de reduzir drasticamente a população? Este é outro dos alicerces de O Algoritmo do Poder, que Barrento explorou muito bem numa variante da metáfora que Elon Musk chama o problema da fábrica de clipes de papel. Imaginem uma inteligência artificial criada para optimizar a produção de clipes, que percebe que a conclusão lógica para uma produção de eficiência perfeita passa pelo extermínio da humanidade. Não é uma inteligência artificial criada para aniquilar, antes, a aniquilação é uma consequência dos seus processos lógicos. Sem querer entrar em muitos spoilers, Barrento usa esta lógica para algoritmos sociais que combatem a pressão demográfica através da eliminação selectiva daqueles que se tornam um fardo social, idosos ou doentes prolongados.

Estas minhas observações fazem parecer que O Algoritmo do Poder é um longo tratado filosófico. Pelo contrário, é uma história, e uma boa história, cuja estrutura me fez recordar o romance O Último Europeu de Miguel Real, com o qual também tem similaridades temáticas, especificamente ao nível da desestruturação do mundo como o conhecemos e erradicação da memória histórica coletiva. Uma história que se passa em dois tempos, mas essencialmente numa só cidade.

Estamos em Lisboa de um presente e futuro próximo, berço implausível de um movimento global que visa revolucionar a política, substituindo a democracia parlamentar por um governo automatizado, controlado por algoritmos e indivíduos interconectados em rede. Um movimento utópico, alicerçado na computação, que será cooptado por um homem arguto à beira da morte, e que irá acabar por dominar o globo, derrotando governos e a oligarquia um percentista com a inexorabilidade das redes digitais.

Estamos também na Lisboa de um futuro mais distante, uma cidade que já não tem o nome de sempre numa língua original que foi esquecida na homogeneização linguística trazida pela rede, irreconhecível numa região que sucedeu a um fragmento de Portugal (e se me permitirem o comentário, belíssima piada a que Pedro Barrento faz com a região a sul do rio Tejo). Uma cidade onde reside a única força que escapa à rede omnipresente, o legado também em si esquecido de uma das programadoras originais dos algoritmos que sustentam este pouco admirável novo mundo, que cedo se apercebeu do seu potencial distópico. Uma força que, graças ao ponto fraco desta sociedade futura, poderá ser a sucessora no domínio global, embora num recanto do globo os herdeiros da velha sociedade se preparem para o momento em que a rede global falhar.

É esse o ponto fraco de uma sociedade automatizada, que não evolui nem se renova. Com uma população dócil, dividida em grupos de interesse e com as sua necessidades cuidadas por um sistema automático que não tem ninguém que zele por ele. Onde o progresso científico parou e as conquistas da tecnologia são uma memória esquecida. Um colapso que se começa a gizar no final do romance, mas que Barrento não nos revela, recusando-se a continuar o livro a partir do ponto em o leitor monta por completo o puzzle do seu mundo ficcional.

O resto é história, são os dramas e aventuras de um grupo de personagens eclécticos cujas ações têm consequências à escala global. Confesso que não empatizei muito com os personagens, fiquei mais seduzido pelo espaço de ideias que sustenta o livro. Barrento tem uma técnica narrativa muito directa, encadeando bem a acção com a necessidade de explicar ao leitor o que a sustenta. A leitura é rápida, divertida, apesar de uma certa sensação de estranheza pela colisão da familiaridade dos locais da história com o ambiente de ficção científica do livro.

A olhar para um ecrã divido em várias janelas enquanto termino esta recensão, com um olho no editor de texto e outro no navegador onde vão passando as novidades que os algoritmos das redes sociais escolhem para o meu olhar, a partir do perfil da minha bolha de informação, percebo onde Pedro Barrento quis chegar com a sua distopia. Não podemos confiar cegamente em quem desenha os algoritmos. Nem correr o risco de perder a memória colectiva. Não leiam O Algoritmo do Poder como mais uma aventura distópica. Este livro é muito mais do que isso.

Fiquei surpreendido. Confesso que não tinha grandes expectativas para este livro. Uma auto-edição, de um autor que não está, tanto quanto sei, associado aos núcleos necessariamente amadores da ficção científica em Portugal que reúnem autores e fãs e têm funcionado como redes de apoio à melhoria do nível literário das novas vozes do género. Do autor, recordo vagamente uma fugaz e algo controversa passagem por um painel dedicado à auto-edição e promoção numa edição já longínqua do Fórum Fantástico. Fiquei ainda mais de pé atrás quando fui contactado por ele para fazer uma leitura ao livro, por me considerar um influenciador de opinião. O teu algoritmo precisa de ser afinado, respondi. O meu blog é um caderno de apontamentos, tal como as páginas do Goodreads, e estamos muito bem assim. Já tenho uma carreira que me valoriza o suficiente, não preciso nem quero entrar nos jogos de promoção de autores e editores para ganhar notoriedade. O meu blog é um espaço livre daqueles posts ctrl+c -> ctrl+v de promoção de editoras, as minhas leituras são as que me apetece fazer e não dependem de agendas editoriais. Tão pouco me interessa se tenho muitos ou poucos leitores, ou estar posicionado nos rankings.

Apesar desta proposta ter o seu quê de entrar no jogo de promoção de uma obra literária, aceitei. É tão grande a escassez, por cá, de produção literária neste género que me inspira e é tão querido que não deixo passar oportunidades de descobrir novas leituras. É uma vertente que explica algumas leituras bizarras e algo inesperadas de tentativas goradas de obras no domínio da FC YA que vou encontrando esquecidas nos fundos da prateleiras de livrarias, embora ainda não tenha decaído ao ponto baixo de ler livros da Chiado. No caso de O Algoritmo do Poder, valeu a pena a leitura.

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