sexta-feira, 26 de maio de 2017

O Último Europeu



Miguel Real (2015). O Último Europeu. Lisboa: D. Quixote.

Há algo de incongruente quando lemos as tentativas de escritores mainstream na ficção científica. Alguns nem vale a pena lê-los, pelo óbvio desrespeito a um género que ironizam com desprezo. Depois, há aqueles que se nota que levam o género a sério, fizeram um esforço, algumas leituras bem escolhidas, e perceberam a mecânica da ficção científica e a sua iconografia. O leitor mais conhecedor não consegue deixar de sorrir com as construções de mundos ficcionais, com as descrições de tecnologias e sociedades futuristas. Percebemos o esforço do escritor mainstream, mas não conseguimos deixar de pensar que tantos escritores de ficção científica já fizeram algo semelhante, e melhor. Parte deste livro de Miguel Real é assim, um futurismo que se aguenta enquanto obra de um escritor que não pratica FC, mas que não sobreviveria dentro do género. Mas estaria a ser injusto se reduzisse a apreciação desta leitura a este aspecto, porque se Miguel Real é, do ponto de vista de um leitor apreciador de FC, bastante desastrado no seu futurismo, compreende perfeitamente uma das principais funções da ficção científica especulativa: compreender melhor o mundo que nos rodeia, projectando-o em futuros prováveis ou improváveis.

A reflexão de Miguel Real neste Último Europeu é sobre em que Europa pensamos que vivemos, o que é isso, realmente, de ser europeu no mundo contemporâneo. A resposta é difícil, e não surpreende que o final do livro seja amargo, com a extinção final de uma Europa encarnada no último homem que leva consigo para a campa, imutáveis, os seus valores e ideais, extintos ou corrompidos num mundo implacável.

Neste futuro imaginado de Miguel Real, a Europa é um bastião de perfeição num mundo convulsivo. A Europa representa a sociedade perfeita, pós-escassez, tecnologicamente avançada, rigorosa, humanista e liberta das piores pulsões da alma humana, com o individualismo suprimido e o racionalismo como valor maior. Mas é também rarefeita e de elite, coexistindo no seu território com uma outra europa, bárbara, nacionalista, guerreira e dividida. A analogia ao nosso ideário de Europa e unidade europeia face à realidade da europa contemporânea, onde as velhas pulsões que se julgavam extintas face ao imperar de elites esclarecidas se sentem a regressar ao de cima, é óbvia. Uma Europa que se encontra ameaçada pelos asiáticos, social e tecnicamente inferiores, mas que encontram forma de invadir a europa e dizimar os europeus. A utopia europeia, pacifista, indefesa e que não ser verga, perece aí, sem sobreviventes. A escolha para a sobrevivência era entregar os seus avanços tecnológicos a uma sociedade bélica que almeja o domínio planetário, e ver os seus cidadãos entregues ao esclavagismo na sempre explorada África.

Sobrevive um punhado de europeus, escolhido pelo conselho de dirigentes europeus para não deixar extinguir a chama do ideal europeu. O local escolhido para refúgio fica numas ilhas semi-arruinadas por vulcanismo, no meio do oceano atlântico, um território que pertence ao império americano, um dos outros grandes blocos políticos deste futuro ficcional. Será nos açores que a europa perfeita poderá renascer, seguindo um plano rígido de crescimento demográfico e transmissão de valores. Mas as circunstâncias tudo mudam e o que se julgava a reconstrução de uma sociedade perfeita altera-se em função das vontades dos indivíduos, longe do racionalismo original, e terminará em genocídio.

Num mundo violento, quer na ásia desesperada por territórios e recursos, na américa isolada e tecnocrata, na oceania racista ou na américa do sul dominada por esclavagistas, o ideal progressivo de uma sociedade que se aperfeiçoou é um perigo. A escuridão não tolera raios de luz, e as utopias têm, inevitavelmente, de sofrer a amargura da sua derrocada.

É esta reflexão que torna o livro de Miguel Real como obra que vinda de alguém claramente externo ao campo da ficção especulativa, merece ser lida com atenção pelos fãs de FC (uma comunidade que, diga-se, por cá está mais em vias de extinção do que os novos europeus do romance). Real toca no que nos incomoda no mundo do século XXI, em que os ideais progressistas e humanistas do século XX parecem ter falhado, onde a globalização é desculpa para novos totalitarismos e desrespeito pela condição humana. A própria Europa sofre da dicotomia que Real caracteriza no romance, a separação entre um ideal progressista e uma realidade cada vez mais fragmentada, com a divisão entre elites esclarecidas e um conjunto cada vez maior de cidadãos que se sente alienado e procura a sua voz no recrudescer das velhas pulsões violentas. Sem ilusões, a amargura da utopia é o conhecimento que para lá dos portões, os bárbaros aguardam-nos, sempre, recusando redenções e elevações. Certeiro e surpreendente, este romance, apesar dos desajeitos de género que lhe acabam por conferir um certo encanto de inocência num género literário específico.

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