quarta-feira, 12 de abril de 2017

The Stars Are Legion



Kameron Hurley (2017). The Stars Are Legion. Saga Press.

Sabemos o que esperar de uma Space Opera. Vastas paisagens espaciais, civilizações exóticas, intrigas capazes de provocar cataclismas à escala galáctica, aventuras entre naves e cidades alienígenas. É, na sua essência, uma fórmula narrativa, e grande parte da FC Space Opera segue-a à risca. Este livro de Kameron Hurley não é excepção.

The Stars Are Legion mergulha-nos num universo distante, onde diferentes civilizações feudais guerreiam entre si pelo controlo dos seus mundos. Temos intriga, com uma convoluta conspiração pelo controle dos principais planetas por parte de duas mulheres com ambições que não se inserem no habitual espartilho da sede de poder. Temos o obrigatório périplo de auto-descoberta por mundos estranhos, com novas personagens e relações que colocam em causa os pressupostos iniciais. Temos batalhas espaciais, naves, tecnologias. Tudo conforme o expectável na fórmula Space Opera. O que o torna tão especial, então?

A subtileza com que Hurley começa a subverter os pressupostos é impressionante. Começamos a leitura pelo que em tudo aparenta ser mais uma história de FC , mas depressa começamos a notar pormenores que ultrapassam as premissas esperadas. Começamos por perceber que não há personagens masculinas na história, aliás, em todo o livro. Isso não nos é dito explicitamente. Como leitor, iniciei a leitura com os meus habituais pressupostos e fui apanhado de surpresa pela forma como a autora os fez desmoronar. Mas há mais. Os planetas são de facto estações espaciais, mas são tecnologias vivas, tudo no universo deste livro são biotecnologias. Naves, armas, utensílios são formas de vida ou excreções de formas de vida, parte integrante do ecossistema das naves-planeta. Como iremos descobrir ao longo da leitura, os próprios humanos são elementos do ecossistema, essencialmente utensílios ao serviço da nave, embora se julguem controladores dos ambientes em que habitam. É por isso que não há homens nesta história. As mulheres, os seus úteros, são utensílios ao serviço das naves, produzindo os bens, materiais ou elementos de que a nave necessita. Que podem ser outros humanos, ou peças de equipamento. A simbiose é tão completa que a morte implica a reciclagem dos elementos corporais pela nave, tornando-se nutrientes que irão alimentar os seres vivos no seu interior.

Este desvio inesperado para a biotecnologia, construindo um universo ficcional plausível sem os elementos tradicionais da FC mais hard, é o grande ponto de interesse deste livro. Surpreende, pegando nas fórmulas do género mas atrevendo-se a uma abordagem inesperada, que intriga pela sua frescura.

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