terça-feira, 21 de março de 2017

The Inevitable


Kevin Kelly (2016). The Inevitable: Understanding the 12 Technological Forces That Will Shape Our Future. Nova Iorque: Viking.

É inevitável, de quanto em vez, ler um destes panegíricos de optimismo alastrante ao estilo de Sillicon Valley. Kevin Kelly é um conhecido incorrigível desta linha de pensamento tecnológico, deslumbrada com a acelaração e as promessas de tecnologias, vistas sempre sob um prisma de cândido optimismo. The future's so bright, I gotta wear shades, como na canção pop dos anos 80, e hoje os óculos escuros até podem ser um interface de realidade aumentada a enriquecer a nossa percepção do real com camadas de virtualidade.

Kelly não está errado. Identifica uma série de tendências culturais trazidas pela tecnologia, da inevitável automação e inteligência artificial, assunto hoje na ordem do dia, à desmaterialização dos bens culturais, ou a já bem estudada questão da colaboração assente em redes digitais. A sua intuição de inevitabilidade também está correcta, as suas visões de um futuro próximo assentam na percepção de transformações que já fazem parte do nosso dia a dia. O problema destas visões é a forma deliberada como são cegas perante outras interpretações, ou consequências previstas ou imprevistas destes avanços. Pintam o futuro com um optimismo a brilhar de tão polido, esquecendo que se há algo que caracteriza a evolução dos tempos é a complexidade e assimetria.

Uma pet peeve minha neste livro: ler todo um capítulo sobre a extinção do livro e da leitura linear trazida pelas hiperligações, livros digitais, multimédia e acesso constante à internet, celebrando o poder do salto entre ligações em detrimento da linearidade da leitura em parágrafos e capítulos... num capítulo linearmente estruturado de um livro. Ironias. São estes pequenos pormenores que revelam os pés de barro destes ídolos do futurismo contemporâneo.

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