terça-feira, 7 de março de 2017

Four Futures



Peter Frase (2016). Four Futures: Life after Capitalism. Brooklyn: Verso.

O futuro não nos parece animador, neste início de 2017. Four Futures olha para o futuro combinando dois desafios à  humidade cujo impacto se faz sentir, hoje. Primeiro, o espectro das alteraçõe climáticas, com as suas consequências nos recursos e vida humana. Depois, a automação e seus impactos nas relações laborais. O livro pega nestas duas forças e analisa os seus impactos numa matriz que assume como premissa que, condicionantes físicas à parte, as principais consequências destas forças sobre as sociedades se deverão às escolhas sociais e políticas que são feitas por aqueles que têm poder de decisão. Um conjunto que, como sabemos, está cada vez mais nas mãos de plutocratas  e gabinetes corporativos do que em decisores eleitos.

A primeira visão é a mais risonha, postulando um futuro de adaptação às alterações climáticas e onde a riqueza gerada pela automação permite dar qualidade de vida às massas. É um futuro comunista, não um comunismo de gulags  e metas económicas fictícias, mas da utopia futurista pós-escassez de Star Trek. É um futuro de tecnologia, ócio e rendimento básico garantido, onde as desigualdades foram abolidas.  É o único futuro optimista do livro, e diga-se que o mais improvável, por estar tão dependente da vontade de decisores que, tanto quanto sabemos hoje pende para outros caminhos que não a de um mundo equalitário onde a riqueza seja distribuída.

Os futuros restantes são mais plausíveis e espalham tendências presentes na nossa sociedade contemporânea. Ainda na categoria futurismo optimista, por se basear no mitigar  das consequências das alterações climáticas,  embora sem redistribuição de riqueza, temos uma economia rentista, com élites a colher os frutos dos rendimentos trazidos pela automação, com algum fluir para classes laborais não automatizáveis (serviços de segurança e advocacia) , para protecção contra convulsões sociais. Um optimismo relativo, com a prosperidade de alguns e pobreza progressiva para os restantes. A partir daqui,  a visão piora.

Colidindo consequências das alterações climáticas nos ecossistemas e automação de indústrias, mitigando impactos sociais, é postulada uma sociedade de escassez socialista, com alguma redistribuição de riqueza para garantir paz social. Pior do que isso é a visão final deste autor, a de um futuro exterminista, onde a plutocracia assegura prosperidade e sobrevivência num planeta em decadência apoiada em militarização e extermínio expresso daqueles que não têm lugar na nova ordem social.

Four Futures inspira-se na ficção científica e tendências sócio-económicas contemporâneas para especular uma matriz de quatro futuros possíveis. Deixando sempre claro que a escolha do que faremos face aos desafios das alterações climáticas e automação da economia são, em última análise, o que irá ditar consequências e impactos sociais. Se a visão de um futurismo limpo pós escassez ao estilo de Star Trek parece o mais desejável, o mundo contemporâneo aponta para as distopias de desigualdade e colapso ambiental. Independentemente do futuro que construirmos, algo é evidente: a corrente ordem global de capitalismo neoliberal é danosa à escala planetária, e procurar alternativas implica também olhar para a Ficção Científica, analisando as suas especulações em busca de contraditório ao mantra de "não há sistema social e económico alternativo" que impera.

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