quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Visões


Arrival (Denis Villeneuve, 2016)

Tenho uma relação complicada com a obra de Ted Chiang. É um excelente escritor de ficção científica, daqueles que nos deixa de cabeça a andar à volta com o brilhantismo dos seus contos. É muito bom, e difícil de ler. Não é autor que se leia de ânimo leve. Sempre que o leio, sinto que deixei ficar algo para trás, algum elemento dos seus densos textos que me dificulta a percepção e impede a total compreensão das suas ideias. Chiang é um minucioso artífice da FC. Não é um autor prolífico, dedica-se apenas a contos. O livro que os colige, Stories of Your Life and Others, é daqueles que languesce nas minhas estantes da vergonha (para os não-bibliófagos que eventualmente leiam isto, são aquelas prateleiras que albergam os livros que estão à espera do momento para ser lidos).



O primeiro mérito do filme Arrival é ter conseguido transpor a frieza cerebral de Chiang para o grande ecrã, com um equilíbrio entre a base literária e a narrativa cinematográfica que requer ritmo mais rápido e acção. O primeiro, de muitos. Fiquei logo agarrado no início do filme, quando este subverte todas as expectativas de uma obra sobre primeiro contacto e possível invasão alienígena. O grande acontecimento que dá o mote ao filme é-nos mostrado em fragmentos e vislumbres, através das consequências. Aquilo que noutros filmes é imediato, o surgir das naves e das criaturas, neste é-nos dado após uma longa introdução. Funciona. Retira-lhe a conotação de FC espectáculo popcorn, e prepara o espectador para um mergulho numa história sobre linguagem e estilhaçar da percepção do tempo. A não-linearidade da percepção temporal e a hipótese que as línguas que aprendemos alteram fisicamente a forma como o cérebro funciona são os pontos centrais desta história, onde só nos momentos-chave nos apercebemos que foi contada de forma não linear, esbatendo as fronteiras entre passado e futuro. Cruzei-me pela primeira vez com a hipótese de relatividade linguística de Sapir-Whorf no romance Babel 17 de Samuel R. Delany, onde serve de base a uma exótica space opera.

Este filme é daqueles que consegue mostrar até onde pode ir a Ficção Científica em termos de especulação e estrutura narrativa. A relativa vitalidade do género no cinema tem passado muito pelo seu lado de espectáculo e aventura, assente em visuais deslumbrantes e efeitos especiais de espantar, entre o serialismo de Star Wars e o barroco de Jupiter Ascending. Arrival recusa-se a seguir esse caminho, sujeitando o espectáculo visual esperado no ecrã aos ditames de uma narrativa que foge do contar historias e desafia à reflexão. Não que o lado visual não seja contemplado, entre a estranheza deliberada das naves, o lado tentacular lovecraftiano dos alienígenas, revelado entre névoas, ou a genialidade da estrutura logográfica da língua dos extraterrestres. Conhecedores profundos da Ficção Científica compreendem este filme, e percebem que é, sem dúvida, dos melhores filmes do género dos últimos anos.

1 comentário:

marta morais disse...

Vim à procura da tua 'crítica' - porque decidi há uns tempos que só leio textos sobre filmes e livros depois de os ter visto ou lido - e só vi este filme no fim de semana passado. Foi dos filmes (Sci-fi or not) que mais me encheu as medidas nos últimos anos. Saí do cinema a sentir-me tão repleta, de uma maneira que normalmente só os livros conseguem. E quando falo de livros é de um bom romance, que eu sci-fi o máximo que leio é o Murakami e o Kurt Vonnegut.