quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

REI




Rui Zink, António Jorge Gonçalves (2007). REI. Lisboa: ASA.

Há uma história neste volumoso e surprendente livro. Um jovem português, com uma relação tormentosa com a sua mãe, apresentada como pessoa muito influente e importante, parte para o Japão em viagem de auto-descoberta. Parte inspirado pelo seu professor de artes marciais, um poeta japonês que naufragou em Portugal no 25 de abril e foi ficando, abrindo uma escola de artes marciais sem que realmente seja destas especialmente adepto porque nessa altura os restaurantes de sushi ainda não eram moda. O choque da chegada ao Japão é suavizado pelo encontro inesperado com Rei, uma menina rebelde, talvez a galgar a fronteira entre o real e o virtual, entre a goth girl e a idoru. A história adensa-se quando a mãe decide ir ao Japão procurar o filho, obrigando o seu mentor a regressar ao país onde nasceu. Mas se esperam deste livro uma história de drama familiar, desenganem-se. Finaliza num bizarro toque de ficção científica, com o jovem viajante transformado num banho de nano-partículas onde a sua mãe irá mergulhar, finalizando uma experiência manipulada por uma sombria elite de homens poderosos em que participou.

Mais do que a narrativa, o que deslumbra neste livro é a experiência visual. O seu volume e peso gráfico apontam logo para uma óbvia tentativa de fazer um mangá à portuguesa, replicando a estrutura mas não o estilo gráfico. António Jorge Gonçalves segue um estilo visual mais pictórico, próximo da pintura contemporânea, intersectado por elementos estilísticos de BD clássica, úteis mas pouco predominantes. Todo o livro é uma aventura visual, com um grafismo estimulante que traduz a sobrecarga de sentidos, entre a tradição e a hipermodernidade acelerada, que associamos ao Japão contemporâneo. É impossível não ler este livro sem recordar os vislumbres fugazes, tipo impressões ou vídeo-postais, que Wim Wenders colocou no filme Tokyo-Ga. Afirmando os autores no posfácio que este livro foi escrito após uma viagem ao Japão, tem o seu quê de exorcizar o impacto visual de um mergulho no mundo nipónico para os olhos dos europeus.

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