quinta-feira, 24 de novembro de 2016

S.H.I.E.L.D. by Lee & Kirby



Stan Lee, Jack Kirby (2015). S.H.I.E.L.D. by Lee & Kirby: The Complete Collection. Nova Iorque: Marvel.

Nestas histórias originalmente publicadas nos anos 60, o pormenor que saltará à vista dos que conhecem a Marvel através do universo cinematográfico é o tom de pele de Nick Fury. Se no cinema é afro-americano, nos comics sempre foi branco. Com o sucesso do universo cinematográfico a editora adoptou uma origin story com o filho afro-americanoe homónimo do lendário personagem a substituí-lo. Algo que não causa estranheza no convoluto mundo dos comics, capaz de volteios aparentemente impensáveis às suas personagens.

Fury, originalmente, era um veterano da II Guerra, saído dos títulos de histórias de combate da editora para ingressar como líder da organização de agentes secretos SHIELD. Não veio sozinho, trazendo alguns dos destemidos personagens das histórias de violência inocente da  Sgt. Fury and his Howling Commandos. Quão inocentes? São o tipo de histórias de combate onde os intrépidos heróis zurzem metralha a torto e a direito, aparentemente imunes às hordes de soldados inimigos que lhes devolvem a cortesia.

No mundo dos comics, propriedade intelectual é coisa que nunca fica desaproveitada. Quando um género de histórias perde a predilecção do público, os personagens são recicláveis para os novos gostos. Faz parte da linguagem dos comics.

Como líder supremo da SHIELD, traz o seu espírito combativo a uma organização de combate a ameaças baseada nas armas de alta tecnologia. Kirby e Lee parecem satirizar James Bond, de Ian Fleming, com este espião de queixo quadrado, barba por fazer, propensão para rasgar os fatos de fino corte em combates directos. Fury é em tudo o oposto do gentleman spy de Fleming.

O outro pormenor que saltará à vista dos conhecedores do género é o traço de Jack Kirby, tão rude na figura humana e tão abstracto na tecnologia. As histórias, criadas em parceria fatídica com Stan Lee, são maravilhas de uma era de narrativas mais simplistas, constantemente inconclusivas para manter acesa a curiosidade dos leitores. A Marvel demorou décadas a reconhecer o direito de Kirby a receber provimentos de direitos de autor ou a controlar os originais do trabalho que fez para a editora Elementos que se tornaram fundamentais para o universo Marvel, como as organizações HYDRA e AIM, tiveram aqui alguns dos seus primeiros passos em direcção às tentativas sempre rechaçadas de domínio do mundo. Fury e os seus agentes são implacáveis, com acesso a armas mirabolantes para enfrentar as terríveis ameaças. Estes comics funcionam muito na associação livre de ideias tecnólogicas.

Outro elemento notório ao longo das páginas é a evolução da linguagem visual utilizada, passando do desenho como ilustração da narrativa ao uso de enquadramentos e ângulos de visão como elementos de reforço narrativo que conferem mais dinamismo às aventuras.

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