terça-feira, 1 de novembro de 2016

Portugueses na Grande Guerra



Carlos Mendes (2014). Portugueses na Grande Guerra. Lisboa: Babel.

Fiquei com uma sensação ambivalente ao terminar este livro. Trata-se da obra de um autor clássico da BD portuguesa, praticamente desconhecido por pertencer à geração que desenvolveu  seu trabalho nos tempos do estado novo, onde a edição de BD estava condicionada como forma de entretenimento infantil, entre o lúdico simplista e o pedagógico assumido como incentivo a comportamentos correctos e transmissão do ideário nacionalista do regime. O pouco gosto das nossas intelligentsias por memórias incómodas ditou o progressivo esquecimento destes autores e suas obras, apesar de alguns ainda editarem e outros terem reeditado obras icónicas em iniciativas pontuais.

A condição de autor de outros tempos nota-se no profundo arcaísmo estilístico, gráfico e narrativo desta BD. O estilo visual é profundamente datado, apesar de rigoroso e bem desenhado. O tipo de narrativa em BD fica-se pela imagem de ilustração de textos. As histórias contam-se apenas nas palavras, sem que o grafismo e os enquadramentos desempenhem qualquer papel narrativo. Estes arcaísmos são especialmente notórios na forma como a temática é abordada. Não há qualquer tentativa de sentido crítico, apenas narração pura de feitos heróicos, sublinhando aquelas virtudes militaristas de honra, abnegação, sentido de missão e amor à pátria tão queridas aos ideólogos do antigo regime.

Daí a minha ambivalência. Respeito o classicismo do livro, lendo-o como um resquício de outras épocas, com valor histórico não pela temática, mas pela forma como a aborda. De resto, isto lê-se como aquelas histórias de valor e coragem que os velhos militares anafados gostam de contar após o jantar na messe de oficiais, seguros nos seus cadeirões, bravos guerreiros de paz entre degustações de brandy e fumaça de charuto, acenando a cabeça perante tais exemplos de bravura. Agora, é um arcaísmo. Só o tempo lhe retira o carácter de reaccionarismo panfletário, entre a pedagogia de uma história simplificada e o instilar de ideários nacionalistas.

Os tempos mudam. Ao ler as histórias de combate em África, por detrás de todo o elogio à coragem dos soldados brancos sente-se o peso do colonialismo, no início da sua derrocada. Não é o texto que nos conta isto, é o devir histórico. O mesmo se passa nas histórias de feitos valorosos nas trincheiras, um primor de ideários militaristas, que reduz os homens à condição de mecanismos na máquina militar, que os destaca não pela sua humanidade mas pela dedicação à condição. Algo que tem o seu quê de fanatismo, diga-se.

Livro a arquivar ao lado da obra monumental de Tardi, não por semelhanças, mas pela profunda diferença. Este Portugueses na Grande Guerra e o Foi Assim a Guerra das Trincheiras estão em opostos absolutos.

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