quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Welcome to Night Vale


Josef Frink, Jeffrey Cranor (2015). Welcome to Night Vale. Nova Iorque: Harper Perennial.

Confesso que não esperava que este livro me desiludisse tanto. Para quem desconhece, Night Vale é um genial podcast que, mimetizando um programa de informação na rádio, transmite as notícias sobre a estranha comunidade de uma cidade perdida no tempo. A voz alegre de Cecil, o apresentador, discute os terrores da vida, anota as tragédias que assolam constantemente os habitantes, e transmite as instruções rigorosas da polícia secreta cujas ordens não devem ser ignoradas. É um podcast brilhante, que brinca, cheio de elegância e absurdismo, com as iconografias e pressupostos da ficção de terror.

Escalar o conceito de formato áudio para livro é um passo lógico, que permitiria explorar mais a fundo o interessante mundo ficcional de Night Vale. Nesse sentido, o livro é bem sucedido, mergulhando mais a fundo nalgumas das bizarrias da vila, que formam a base do podcast. Como, por exemplo, as criaturas aterrorizantes que são as bibliotecárias da biblioteca, local onde raros são os bibliófilos que entram e sobrevivem para contar a história.

Há uma tremenda dissonância entre o carácter absurdista do mundo ficcional e um romance que depende de linearidade narrativa. É aqui que o livro falha. Tenta envolver-nos nas histórias confluentes de duas personagens, atraídas por palavras indeléveis misteriosas e que ganham coragem para enfrentar os vários perigos e desvendar o mistério, mas não consegue. Estas passagens são duras de ler, pesadas, e não envolvem o leitor nem despertam a sua curiosidade. O que vai safando a leitura são as interjeições saídas do podcast, com o omnipresente programa de rádio que domina a vida da cidade.

Como romance de terror, Welcome to Night Vale falha. Morno, fraquinho, sem especial interesse. Funciona melhor como expansão do mundo ficcional, com o formato narrativo a permitir aprofundar elementos que, necessariamente, ficam difusos no podcast. Talvez a real falha do livro seja a manifesta incapacidade dos autores de transpor para o livro o elemento que dá ao podcast o seu toque especial, a liberdade associativa de ideias assente na oralidade. Convenhamos, também não é uma tarefa fácil.

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