quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Visões


Miss Peregrine's Home for Peculiar Children (Tim Burton, 2016)


Quaisquer que sejam os méritos do livro, Miss Peregrine Home For Peculiar Children passará a ficar marcado como um filme de Tim Burton. A estética deste realizador topa-se à légua, e adequa-se a histórias peculiares. Explica a escolha, mas não o falhanço. Burton é capaz de mais e melhor do que o que este filme nos dá. Apesar de tentar e se esforçar muito por tornar o filme interessante. O cuidado estético é enorme, num cruzamento suave entre o goticismo do realizador e o visual vintage assumido pela história original. As aventuras, dramas e peripécias estão lá, mas sem alma, a história vai - se contando sem preocupações de criar empatia no espectador. A banda sonora épica que se vai ouvindo está dissociada das meias tintas que vemos no ecrã. O realizador limita-se a filmar e sequenciar, sente-se que não há ali preocupações de ritmo ou empatia. Nem se dá ao trabalho de gerir a linguagem cinematográfica. Diálogos funcionam em intercalado, como nas telenovelas, e em boa parte das cenas os ângulos e movimentos de câmara são previsíveis. De Burton, espera-se muito mais do que este filme sem alma.


Já o trabalho dos atores não é muito melhor. Limitam-se a recitar, sem interferência de emoções. Eva Green está sub-utilizada, numa personagem sem profundidade. Samuel L. Jackson passeia-se pelo filme com aquele ar de que se lixe, este trabalho é dinheiro fácil no bolso que os actores icónicos têm naqueles filmes onde sentem que não vale a pena se esforçarem, porque foram contratados apenas como nome sonante. Os jovens actores que representam as crianças peculiares parecem autómatos. A única excepção é a fugaz aparição de Judy Dench. Quando o personagem que mais agarra o espectador é um rapaz invisível, em excelente CGI, percebe-se que este filme foi uma tarefa incumbida a Burton e não um projecto que lhe despertasse a criatividade. Agruras do lado financeiro do cinema, gerido por executivos mais interessados na maximização de lucros do que nas obras em si. Se o livro teve sucesso e é peculiar, arranje-se versão cinema ASAP, chame-se o realizador peculiar do momento e com sorte ainda nasce dali uma série televisiva. Nem as homenagens de Burton a Ray Harryhausen, quer na cena da luta final com esqueletos (a referência óbvia) quer nas criaturas animadas que lutam entre si, uma delas com corpo de sapateira (esta é menos óbvia) , o grande easter egg para os conhecedores do cinema fantástico, chegam para tornar este filme interessante.

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