quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Spacehawk



Basil Wolverton (2012). Spacehawk. Seattle: Fantagraphics.

Há um delicioso surrealismo não intencional neste comic clássico de Basil Wolverton. Conta as aventuras de um herói do tipo clássico, alienígena humanóide de queixo quadrado, dotado de enorme coragem e tecnologia que faz parecer que tem super-poderes, dedicado a proteger este sistema solar das ameaças de criminosos. São histórias deliciosas na sua inocência, típica do género à época, mas espantosas no que toca ao grafismo. Wolverton povoa o sistema solar de criaturas feéricas, disformes, bizarras como sonhos de Hyeronimus Bosch em quadricromia. As paisagens, sempre desoladas em rochedos e montanhas, dão-nos vinhetas quase abstractas. A sua visão da tecnologia e urbanismo futurista está em contraste com o barroquismo de fetichização tecnológica característico da FC. As cidades são reduzidas a planos geométricos abstractos e multi-coloridos, os artefactos tecnológicos têm uma estética simples de brutalismo industrial. São elementos que têm todas as condições para não funcionar, mas que se tornam eficazes graças ao traço e uso garrido de cor por parte de Wolverton. Spacehawk não tem o poder icónico de um Flash Gordon ou de um Buck Rogers em despertar o imaginário de mundos fantásticos. As suas premissas e mundo ficcional são muito elementares. É o traço do ilustrador, surreal e vibrante, que lhe confere vida.

Se não soubesse que se tratam de comics publicados nos anos 40 do século XX, diria que este livro se trataria de um excelente revivalismo irónico e de estilismo surreal das estruturas narrativas da era dourada dos comics. É o que mais surpreende neste livro, esta mistura de onirismo não intencional com o simplismo do género, à época. Retire-se-lhe estes elementos de imaginário à solta, e o comic perde o interesse. Algo notório na segunda parte deste livro, em que o autor coloca o seu herói cósmico ao serviço da propaganda de guerra. Frente às representações de forte toque racista dos inimigos da américa, em combate contra as forças do Eixo, nota-se que o interesse diminui. As historias são banais, e o próprio grafismo do autor, deslumbrante nas aventuras espaciais, se fica por uma ilustração rotineira dentro dos padrões estilísticos deste género de comics.

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