sábado, 1 de outubro de 2016

H grande, maiúsculo e másculo.


Isto já não se fazem prefácios como antigamente. Todo um parágrafo único, longa frase do humilde prefaciador, honrado pelo tão capaz e fantástico homem que do alto do seu talento, lhe pediu uma singela apreciação. Note-se o Homem. Com H. Grande, maiúsculo, másculo. É marca de época, com um toque de amador, saído das primeiras páginas de uma edição de autor de contos de ficção científica e policial. Pioneiro do Futuro, escrito e editado em 1970 por Pedro Boaventura com o subtítulo (Sonhos e Fantasias de Hoje, Realidades de Amanhã). Sim, o subtítulo inclui os parênteses. Pérola da FC e F portuguesa que suspeito que pouco se perde se ficar esquecida, mas à qual a minha curiosidade pela evolução do género em portugal não resistiu. Isso, e o contexto de aquisição, com o seu quê de transgressivo, da mala de um automóvel numa rua pouco movimentada.

Um dos sintomas de evolução de sensibilidades culturais é o hoje ser impensável, a roçar o ridículo, um prefácio destes. Hoje avalia-se a obra, a sua qualidade intrínseca e interconexões aos seus contextos culturais, não a sua excelsa simples existência. Abrir um livro editado recentemente com prefácio (ou ler uma crítica) neste tom significa que o prefaciador ou não leu o livro, ou não usa a mioleira.

Não me interpretem mal. Estes arcaísmos são o que são, marcas de época, passos na evolução das sensibilidades. Sem esperar maravilhas desta antologia, de certeza que encontrarei pontos de interesse. O ser edição de autor não é por si só marca de amadorismo extremo ou baixa qualidade. Ainda hoje, o exíguo meio literário de FC e F português sobrevive muito à custa deste género de edições, quer de autor, quer de pequenas editoras criadas por autores.

(Por outro lado, creio que me consigo recordar de pelo menos um caso de um escritor português contemporâneo do domínio da fantasia e pretensão à FC que exige que todas as críticas e apreciações à sua obra sejam sempre neste tom. Bem como a atribuição de pelo menos seis estrelas no Goodreads às suas obras that should not have been, porque a tal genialidade incompreendida cinco são manifesta insuficiência de reconhecimento. Não é caso único, mas é dos mais notórios. Porque... razões. Tipo, LOL. Whatever makes you happy, man.)

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