quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Casos de Direito Galáctico



Mário-Henrique Leiria (2016). Casos de Direito Galáctico E Outros Textos Esquecidos. Silveira: e-Primatur.

Talvez esteja a querer ver relações onde elas não existem, mas é-me muito difícil dissociar os Casos de Direito Galáctico de Mário-Henrique Leiria de The Star Diaries por Stanislaw Lem. Ambos são livros em que os temas da ficção científica são o ponto de partida para explorações literárias no domínio do surrealismo. De exotismo e especulação bem humorada no caso de Lem, e de surreal puro na obra de Leiria. Os seus casos de direito analisam as consequências dos choques culturais, exacerbados em civilizações imaginárias onde o nosso estranho e impensável é o seu normal.

Esta edição da e-Primatur não se fica pelos contos de Leiria no domínio de uma FC experimental. Publica também Fragmentos de Josela, um quase-romance episódico que se sente como expressamente construído para nunca ser mais do que um conjunto fragmentário de elementos que poderiam condensar-se num romance. Reedita a poesia surreal ilustrada de Imagem Devolvida - Poema Mito. Faz também regressar ao público a provocadora colagem de textos e fotografias do Conto de Natal para Crianças, contrapondo imagens politicamente carregadas ou violentas com a inocência da quadra natalícia. Termina com os comentários do autor para o ensaio fotográfico Lisboa ao Voo do Pássaro, de João Freire. Esta reedição de obras originalmente publicadas entre 1974 e 1979, mais do que recordar os contos do autor, redescobre parte do seu espólio literário e iconográfico.

E ainda... como se não bastasse o mergulho em boa parte do espólio literário de Mário-Henrique Leiria, com destaque para o seu lado de FC surreal, este livro inclui as ilustrações originais de Cruzeiro Seixas para os contos de Leiria. Com isto, ultrapassa o foco em obra revivalista de um autor esquecido de culto e torna-se num documento representativo do Surrealismo português.

Não resisto a registar a forma como encontrei este livro na livraria. Não estava onde esperava, nem em literatura portuguesa ou novidades literárias. Dei com ele, de relance, nas novidades de livros técnicos, acompanhado de manuais de psicologia pop, ensaios sobre política, obras de análise financeira e manuais de auto-ajuda. O casos de direito no título confundiu claramente a curadoria da livraria. Antes de resmungarem sobre a incompetência dos livreiros, recordem-se que Leiria foi, antes de tudo, um surrealista. Apreciaria de certeza este surrealismo não intencional no regresso das suas obras ao radar dos leitores.

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