sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Aventuras Extraordinárias de Kiá, o Rei dos Repórteres



Reinaldo Ferreira (2007). Aventuras Extraordinárias de Kiá, o Rei dos Repórteres. Carnaxide: Livros do Brasil.

Suponho que para os fãs de literatura policial a vida e obra mirabolantes de Reinaldo Ferreira não sejam de todo desconhecidas. Sendo eu mais amante de foguetões e rayguns do que crimes e castigos, tinha uma ténue ideia de quem era o lendário Repórter X. Este livro pareceu-me uma boa oportunidade de descobrir a sua prosa. Não desilude. É escrita a metro, sem preocupações estilísticas ou literárias, focalizada apenas no despertar de sensações no leitor. As aventuras são sempre histórias de espanto, estruturadas de formas que roçam a incoerência. Percebe-se na personagem do repórter anónimo, conhecido como Kiá porque ao começar a carreira importunava as redacções perguntando o que há de notícias a dar, uma certa projecção de um escritor e jornalista que, convenhamos, não ficou famoso pela isenção e veracidade das suas reportagens. Esta pequena antologia é uma boa forma de ficar a conhecer um clássico da literatura policial pulp portuguesa. Nota de leitura: as histórias passam-se na Lisboa dos inícios do século XX, entre os anos 20 e 30. É uma temporalidade a ter em conta na leitura.

O Homem dos Três Braços: uma aventura mirabolante, em que o repórter anónimo desmascara um agente soviético que leva, oculto dentro de malas, um general russo raptado para os quartos luxuosos do hotel lisboeta Avenida Palace. O lendário agente soviético tem um braço mecânico que lhe confere uma força sobre-humana e sequazes apropriadamente violentos, mas nada detém o engenho do repórter, apostado em ajudar a bela filha do general e conseguir manchetes para o jornal onde trabalha.

Os Cinco Cadáveres do Doutor Máximo: um jovem funcionário do ministério vê-se embrulhado numa misteriosa trama, ao chegar a casa e encontrar o que parece ser o cadáver de uma mulher com que esteve envolvido no passado. O cadáver desaparece, deixando rastos de cera, e a trama adensa-se quando o funcionário é preso e acusado de roubar segredos de estado. Felizmente, o repórter Kiá é seu amigo de infância, e coloca os seus poderes dedutivos a trabalhar no mistério. Não lhe é difícil desmascarar o espião francês Dr. Máximo, especialista em bonecos de cera que, com a sua atraente companheira, envolvem incautos funcionários em ardis para roubo de informações secretas que vendem ao melhor preço.

A Mulher Águia: os amores malquistos entre um príncipe sérvio e uma bailarina francesa levam-nos a refugiar-se em Lisboa, onde Kiá os ajudará a derrotar uma conspiração que visa obrigar o príncipe a regressar à Sérvia, forçado pelo rapto do filho do casal.

A Regra de X em Vermelho: duas mulheres mortas de forma violenta, uma num tasco perdido das ruelas de alfama, outra nos quartos requintados do Avenida Palace. Haverá ligação? Kiá consegue descobri-la, ligando os seus amantes, comparsas de crime internacional, curiosos companheiros de ilícito, em que um é um vulgar ladrão do povo, e outro um requintado senhor.

Um Romancista e um Fantasma: a encerrar a antologia, aquele que é o conto mais surpreendente, e mais interessante do ponto de vista literário. Contado sob o olhar do próprio romancista, dissolvendo as fronteiras entre o escritor/narrador e a sua personagem. O mistério prende-se com o sentimento de solidão ao terminar a escrita de mais um romance, e a suspeita que alguém lhe está a mexer nas notas e apontamentos. Está, de facto, alguém, um homem cuja mulher que ama adora os romances do escritor, e que numa noite escura o ameaça, querendo influenciar o enredo do último romance para que a mulher se sinta segura em escolhê-lo como marido. Conto entre o policial e o surreal, similar a Misery de Stephen King, que antecede em décadas.

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