quinta-feira, 11 de agosto de 2016

A Oeste do Éden


Harry Harrison (2005). A Oeste do Éden. Lisboa: Gradiva.

Uma das marcas da má ficção científica é o tipo de história em que homens primitivos, boa parte deles com a fisionomia de actrizes blonde bombshell de filmes de série B, coexiste com dinossauros. A menos, claro, que estejamos a falar de histórias de viagem no tempo. Recordo-me de pelo menos uma, excepcional, de Ray Brabdury, onde a coexistência de homens e dinossauros em caçadas temporais vai provocar subtis mas determinadas alterações ao fluxo da história humana.  Mas estou a divagar.

Todo o mundo ficcional de A Oeste do Éden parte de uma curiosa questão. "E se", pergunta-se Harry Harrison, não tivesse ocorrido o impacto do asteróide apontado como causa para a extinção dos dinossauros? Sem os desequilíbrios ecológicos trazidos pelo impacto, teriam estas criaturas evoluído até adquirirem inteligência, desenvolvido uma sociedade de base tecnológica? E teria sido possível aos mamíferos iniciarem o processo de evolução que deu origem à humanidade? Neste intrigante romance, as respostas a estas questões são positivas. O resultado é um fantástico voo especulativo, que coloca duas civilizações visceralmente antagónicas em contacto.

Este livro não se aguentaria senão pelo fortíssimo detalhar das suas premissas. A construção do mundo ficcional assenta em bases especulativas sólidas e num meticuloso pormenorizar dos seus elementos. Harrison imaginou civilizações plausíveis, mas suficientemente estranhas para mostrar que o mundo não evoluiu como o conhecemos.

Toda a civilização sáuria é um espantoso voo de imaginação, assente no explorar de possibilidades científicas. Harrison cria uma sociedade avançada, apesar de fortemente estratificada e assente no respeito incondicional pela vontade dos superiores. Elementos advindos dos condicionamentos biológicos de uma espécie matriarcal, que nasce para o mar, e que não é uniforme no desenvolvimento dos indivíduos. Poucos são capazes de atingir as competências intelectuais superiores, caracterizadas pelo desenvolvimento de um sistema de linguagem complexo que mistura vocalizações e postura corporal. A sociedade tem uma base científica curiosa, assente na capacidade de manipulação genética de organismos. Os seus utensílios, veículos e equipamentos são animais cuja evolução foi manipulada para se tornarem objectos tecnológicos. Organizam-se em cidades bio-construídas, manipulando a natureza para se organizar em espaços arquitectónicos.

O desenvolvimento da espécie espelha e condiciona o dos indivíduos. Após nascerem, as criaturas desenvolvem-se naturalmente nos oceanos, sem sistemas formais de treino, gerando com isso laços fortíssimos entre ninhadas e assimetrias de desenvolvimento. Na base da pirâmide social ficam aquelas que não são capazes de desenvolver as capacidades linguísticas, com uma sucessiva estratificação onde a inteligência depende da linguagem. Os machos são considerados seres inferiores, meros cuidadores dos ovos das futuras crias. Harrison imagina esta intrigante civilização a espalhar-se pelos continentes, colonizando-os com a expansão das suas cidades. Uma expansão que está a atingir os seus limites, tornados mais estreitos pelo avizinhar de uma era glaciar, que provoca o caos numa civilização de criaturas que não suportam o frio.

A necessidade de expansão para sobrevivência em climas quentes vai colocar estes saurópodes inteligentes em contacto com outra civilização. Desenvolvendo-se num continente isolado, os mamíferos irão gerar uma espécie humanóide inteligente. Esta também está a desenvolver civilizações. Harrison cria os primeiros contactos com tribos nómadas de caçadores-recolectores. O choque entre civilizações de seres antagónicos dará o mote a este livro fascinante.

De certa forma, este é um romance-périplo, em que as peripécias em que o personagem principal se vê envolvido são as maneiras do autor pegar na mão do leitor e levá-lo a descobrir os seus mundos ficcionais. Primeiro na avançada mas homogénea civilização saurópode, depois a humanóide, com os seus vários estádios civilizacionais, entre caçadores-recolectores nómadas e incipientes civilizações agrárias. O conflito é inevitável. Apesar de inteligentes, ambos os seres partilham sensações de revulsão. O impulso é forte, primitivo, de nojo profundo perante o estranho. Ambos se vêem como pouco mais do que animais. Algo especialmente sublinhado no lado sáurio, onde raros são aqueles que não recusam ver os proto-humanos como algo mais do que animais selvagens, apesar dos óbvios sinais de inteligência.

Civilizações antagónicas em choque, num mundo primitivo que nunca existiu. A partir de questões bem formuladas, Harry Harrison construiu um mundo sólido e intrigante, palco de conflitos em que somos mergulhados acompanhando um jovem humano que, capturado por saurópodes, aprende a sua língua e civilização, mas tornar-se-á o seu inimigo mais mortal. Uma leitura surpreendente, de um nome clássico mas algo esquecido da Ficção Científica.

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