sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Bill, The Galactic Hero



Harry Harrison (1976). Bill, The Galactic Hero. Hammondsworth: Penguin.

A ficção científica é assunto sério, certo? Especulação futurista, minuciosos mundos ficcionais, aventuras audaciosas. O humor não tem lugar no meio de tanta coisa que deve ser levada a sério. Claro, pode haver por aí alguns livros mais a apostar nas piadas do que na essência do género, mas nunca farão parte do seu cânone. Se pensarem assim, peguem neste clássico de prosa satírica sem rédeas nem travões, a demolir com gosto os princípios mais comuns da FC, que mostra como utilizar o género para crítica social corrosiva, e auto-crítica bem humorada que expõe os vícios de forma e pressupostos culturais que lhe estão subjacentes.

Li algures en passant que Harrison começa por destruir o militarismo de Heinlein e depois desmantela as utopias de Asimov. É, de facto, uma descrição que assenta como uma luva a este livro, que também não tem medo de ironizar com os chavões da ficção de terror ou a grandiosidade da space opera. As desventuras de Bill, um camponês proveniente de um planeta provinciano que se vê induzido a prestar serviço nas gloriosas forças do império são uma sátira destravada à importância inflada de valor militar, sentido de dever e patriotismo que caracteriza a FC militarista. As tropes habituais - a recruta, os laços de companheirismo forjados no combate, o valor e heroísmo nas batalhas, são implacavelmente satirizados e ridicularizados. O que se segue não é melhor. Bill vai-se descobrir no centro do império, uma cidade-planeta reluzente de falso metal, que sob a sua gloriosa aparência oculta caos urbanístico, infantilidade política, burocracia infernal e formas absurdas de gerir o ingerível. Claramente, o oposto aos Trantor e Coruscant que brilham no centro dos impérios galácticos da FC. A guerra é interminável, e existe porque o Império tem de lutar uma guerra, não porque a espécie antagónica de pequenos lagartos inteligentes seja especialmente aguerrida ou ameaçadora. É toda uma máquina ferrugenta, a pingar óleo e a desmanchar-se em peças, que se mantém em movimento para se justificar a si própria.

Só me recordo de ter lido outro livro que ridiculariza de forma tão certeira o militarismo ficcional. Ao contrário do Valente Soldado Chvek (outra história de um camponês simples que se vê de uniforme nas trincheiras da I guerra, acompanhando a derrocada do Império Austro-Húngaro), aqui mais do que a exaltação de sentimentos patrióticos ao serviço da visão de grandeza de elites está  em evidência. É também toda uma sátira à FC como género, às suas estruturas narrativas, conceitos, temas e tipos de prosa.

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