sexta-feira, 24 de junho de 2016

Juiz Dredd Mega Almanaque #02

 

John Wagne, et al (2015). Juiz Dredd Mega Almanaque #02. S. Paulo: Mythos.

Um pouco por acaso, encontra-se nalgumas bancas e livrarias este segundo almanaque da revista brasileira Juiz Dredd, reunindo uma segunda temporada de seis números de uma publicação que foi cancelada ao fim de vinte e quatro edições. Fica no ar a questão se a Mythos planeia continuar a tendência e lançar em almanaque as doze edições que restam.

Depois de uma leitura divertida, fica-se a perceber que esta revista brasileira era, de facto, muito interessante (e, cortesia das anomalias temporais no meio do atlântico que atrasam em mais de seis meses a edição do que lá se publica por cá, ainda a chegar aos poucos espaços que vendem comics em Portugal). Podiam ter optado pela simples tradução da continuidade actual da lendária revista britânica 2000AD, mas a escolha recaiu sobre uma curadoria cuidada. Para os leitores, ficou uma tradução para português caipira de algumas das melhores histórias do Old Stoney Face. Não os relativamente banais arcos épicos que se espraiam ao longo de semanas pela 2000AD ou pela Megazine britânica, cheios de intricacias e que diluem o carácter da personagem. O editor optou por trazer o lado ácido, fortemente corrosivo, de um personagem abusivo que funciona como caricatura do autoritarismo institucional, apreciado por fãs que em larga maioria lhe admiram o carácter neo-fascista sem se aperceberem da fortíssima estalada conceptual que estão a levar. A sobre-povoada Mega City One, os seus patéticos cidadãos e o exacerbar do espírito da lei na ponta do bastão ensanguentado (ou da bota suja de miolos, ou da lawgiver a dispensar justiça com balas hi-ex), são uma subtil caricatura às utopias autoritaristas com que muitos sonham. Os argumentos corrosivos de Jonh Wagner, a evoluir de uma rebeldia de contra-cultura dos anos 70 à nossa contemporaneidade de hipervigilância e perda de direitos civis em nome da segurança, sublinham bem essa ironia. É uma vertente que nas mãos de outros argumentistas costuma estar ausente, diluindo a personagem como mais um policial futurista.

A revista não se esgota em Dredd. Publica também os lendários Future Shocks da 2000AD, um verdadeiro recreio conceptual onde argumentistas e ilustradores dão corpo às histórias mais bizarras num estrito limite de duas a quatro pranchas. Os de Alan Moore são lendários, mas não são os únicos a surpreender os leitores.

Acenando ao alinhamento contemporâneo da 2000AD, também podemos encontrar a excelente Hard SF de Grey Area, escrita por Dan Abnett, e o divertido Nikolai Dante, outra série que atravessa limites com o seu anti-herói modelado nos personagens de capa e espada, de moralidade duvidosa e num futuro onde a casa imperial Romanov reina sobre todas as Rússias. Os fãs de sword and sorcery também não ficam desapontados com Sláine, esse outro personagem fortemente irónico de Pat Mills, que deturpa todos os pressupostos da fantasia épica.

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