terça-feira, 3 de maio de 2016

O Declínio de Marte



Alexei Tolstoi (1961). O Declínio de Marte. Lisboa: Ulisseia.

O levar da revolução proletária aos oprimidos marcianos será tarefa que recairá nos ombros inesperados de dois aventureiros. Um, Gussev, homem terra-à-terra, antigo combatente do exército vermelho, junta-se ao mais alheado e determinado engenheiro Loss, inventor de um método de propulsão que permitirá sulcar o golfo interplanetário em horas. Ao descolarem de Leninegrado, não imaginam o que irão encontrar na superfície marciana. Marte revela-se o lar desolado de uma civilização destruidora, que mantém o seu oásis de prosperidade num planeta devastado por guerras, e cuja superioridade assenta na força de trabalho de trabalhadores oprimidos que servem uma casta tecnocrática superior. A chegada dos homens da Terra irá desequilibrar uma civilização sob tensão, provocando revoltas que poderiam levar ao estender da revolução vermelha para os astros, mas falha sob o poderio militar da casta dominante.

O povo marciano oculta ainda outro intrigante segredo. É descendente de terrestres, refugiados da Atlântida que fugiram para o espaço aquando da queda da sua civilização. Uma história aqui revista sob pressupostos de materialismo dialético, com os atlantes retratados como herdeiros sangrentos de civilizações antecedentes, exterminados por forças bárbaras vindas do oriente. Uma vez chegados a Marte, os sobreviventes ocupam-se a submeter os povos autóctones, bem como a usar a sua ciência e tecnologia para construir a famosa rede de canais marcianos. Como os atlantes não trouxeram mulheres consigo, têm de encontrar um acordo com os nativos, miscigenando-se e dando origem aos marcianos humanóides que os dois intrépidos soviéticos irão descobrir. Não resisto: espalhar a revolução pelas estrelas é muito bom e bonito, mas há que temer os bárbaros não caucasianos que, sedentos de sangue, aguardam a oportunidade de violar e pilhar.

Ficamos a conhecer o mundo marciano através das palavras de Aelita, não uma princesa marciana ao estilo de Burroughs, mas a filha do tecnocrata mais poderoso do planeta, uma mulher etérea, preocupada com as suas visões e premonições, que acabará por se apaixonar pelo engenheiro criador da nave espacial.

Aelita assegurou o lugar na história como um dos primeiros, e influentes, filmes soviéticos de Ficção Científica, apesar de se desviar muito da base literária original. É notável pela sua estética, onde o construtivismo russo se cruza com o futurismo. O romance de Alexei Tolstoi, parente distante desse outro Tolstoi, funciona entre o romance de aventuras no espaço, com toques de especulação científica, e de proto-utopismo soviético nas estrelas, como história de intrépidos revolucionários que, neste caso por acidente, mas noutros romances como destino civilizacional, espalham a revolução proletária nos solos extra-terrestres. Algo que é todo um género dentro da FC russa dos tempos soviéticos, bem visto e aceite pelas estruturas de controle cultural pela forma como funcionavam como propaganda da superioridade do sistema soviético, e do seu destino revolucionário de libertação dos oprimidos.

A tradução é de Mário Henriques Leiria e a data de edição portuguesa, em 1961, surpreende. Como é que os senhores do lápis azul deixaram escapar uma tão óbvia obra cheia de traços de propaganda ao que o Estado Novo via como o seu pior inimigo? Talvez pela mesma razão com que muitos autores soviéticos conseguiram escapar aos espartilhos culturais do regime: é ficção científica, não era coisa para se levar a sério. Desta edição portuguesa destaca-se também a fantástica capa, um mimo do design da época.

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