quinta-feira, 31 de março de 2016

Fósseis das Almas Belas



Mário Freitas, Sérgio Marques (2015). Fósseis das Almas Belas. Lisboa: Kingpin Books.


Um fim de semana de praia entre pai e filhos é o ponto de partida para uma história encantadora onde os mitos históricos são revistos à luz das pequenas mitologias familiares, inspiradas pela geografia própria dos espaços. Os rochedos da praia da Adraga, em Sintra, transformam-se em fósseis de seres míticos, vestígios adormecidos de uma epopeia secreta vinda dos tempos em que os portugueses ousaram ir mais além, e enfrentaram essa temida metáfora para os medos interiores que é o Adamastor.

Não consigo dissociar este argumentista dessa coisa patética que é Super Pig. Lamento, não lhe percebo a piada, honestamente não quero perceber, mas hey, liberdade de expressão acima de tudo. Posso abominar a coisa, mas defendo o seu direito a estar editada, e de ter fãs e essas coisas todas, embora suspeite que os fãs o são mais por causa do papel de Freitas como editor, dono de loja dedicada à BD e organizador de eventos do que pela qualidade intrínseca da super-coisa. Assinale-se que na sua actividade editorial tem sido consistentemente responsável pela edição de alguns dos melhores álbuns de BD contemporâneos. Recordemos O Baile ou as obras de Tony Sandoval, entre outras de um catálogo de crescimento comedido mas ambicioso. Rezinguices com porcos agentes secretos à parte, este Fósseis é um livro com um argumento muito belo, cuja capacidade de mitificar a história portuguesa, tocando nessa vertente ao mesmo tempo tão recordada e esquecida que é o fantástico tradicional português, se traduz numa história encantadora, de um fantástico inocente e luminoso.

Essa inocência é sublinhada pelo carácter dos desenhos de Sérgio Marques, mais dentro do estilo de ilustração para livros infantis do que do realismo inerente à banda desenhada. É uma combinação que funciona bem, sublinha o lado intimista de um livro que se sente ter começado como uma história inventada de pais para filhos. O traço oscila entre o simplismo intencional e momentos de enorme expressividade, a canalizar um toque de Chagall. As pranchas dos monstros são espantosas.

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