quarta-feira, 23 de março de 2016

A Costa das Sirtes

 

Julien Gracq (1979). A Costa das Sirtes. Lisboa: Edições António Ramos.

Há um fortíssimo sensualismo ao longo deste romance sobre decadência plácida. Sente-se isso na introspecção face ao mundo que rodeia os personagens, constantemente traduzida em longas metáforas que preenchem os espaços vazios do deserto e do mar. Estes elementos, bem como o urbanismo decadente, são opressivos e constantes ao longo deste romance desolador.

Acompanhamos o jovem idealista Aldo, filho de uma das melhores famílias de Orsenna. Potência militar e económica que se desvanece, muito inspirada nos antigos estados Venezianos, Orsenna vive num imobilismo decadentista, recordando velhas glórias, mantendo as aparências enquanto espera que o passar do tempo não traga a derrocada das suas carcomidas estruturas. Farto da vida fútil de jovem aristocrata, Aldo escolhe a vida militar no posto mais distante da velha república, a colónia do golfo das Sirtes, mantida num imobilismo graças ao estado de guerra que dura há três séculos com o vizinho território do Farguestão, encimada pela fortaleza decrépita à beira da cidade lagunar corroída pelo tempo de Maremma, protegida por uma guarnição que se afadiga na lavoura dos campos dos agricultores da colónia, cujos canhões estão impróprios para disparos e o cais alberga a jóia naval do entreposto militar, o navio Temível, é uma decrépita embarcação costeira que de temível tem o nome. Aldo, idealista, que se busca no isolamento das Sirtes, acabará por ser o catalisador de forças conspiratórias que, a qualquer custo, querem tirar Orsenna do marasmo.

Desenganem-se se esperam de um enredo destes alta aventura e peripécias palpitantes. O mais aventureiro que acontece no livro é um cruzeiro do navio de guerra que se afasta das fronteiras marítimas e tem como resposta o zunido de balas de canhão mal apontado. Este é um romance de paisagens, de uma mitificação geográfica de um sul mediterrânico intemporal, algures entre a aridez siciliana e as espaldas do deserto norte-africano, sob a omipresença dos azuis dos céus e dos mares. É um livro de decrepitude arquitectónica tisnada pelo sol, habitadas por povos de arreigados hábitos centenários.

No jovem Aldo, que se deixa levar para o isolamentos dos confins, revemo-nos na desolação da solidão que procuramos, por vezes, na natureza. Já as forças sociais, as pulsões políticas, as imensas maquinarias que se movem com lentidão remetem para um passado quase bucólico de uma europa antiga, antes de ser levada de rompante pelas pulsões da história do século XX. Quer neste aspecto, quer na geografia mediterrânica, este livro faz pensar muito em O Leopardo de diLampedusa.

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