terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

História Prodigiosa de Portugal: Mitos e Maravilhas



Joaquim Fernandes (2012). História Prodigiosa de Portugal: Mitos e Maravilhas. Vila do Conde: QuidNovi.

Este seria um livro que me passaria despercebido senão por uma entrevista do autor que ouvi, por completo acaso, na antena 2. Nem a ouvi por inteiro. Algo que captei no zapping radiofónico da auto-estrada, e me prendeu a atenção até ter chegado ao destino. Na entrevista, Joaquim Fernandes falava do segundo volume destas histórias prodigiosas, contando pormenores mirabolantes de cometas e charlatães do século XIX que me despertaram a curiosidade. É provável que já tivesse visto esta capa algures num escaparate de livraria, aglomerando-o, erradamente, como mais um daqueles livros patéticos sobre a influência do ocultismo na grandiosa história deste pequenino portugal. Conhecem o estilo desvairado dos novo-acropolitanos, quinto-imperistas iluminados, von-danikenistas, defensores da história, fãs dos misticismos à la Daehnhardt, templaristas e similares? Não perdem nada ao não mergulhar nas obras destes saudosistas de eras douradas que nunca existiram. Notem que isto é escrito por um fã confesso de leituras que questionam o real.

História Prodigiosa de Portugal atreve-se a olhar para os mitos e lendas, tradições de fundo obscuro, superstições, factos fantásticos tidos como credíveis, feitos miraculosos, prodígios inacreditáveis, nefandos bruxedos, raízes atlantes da lusitaneidade e outras coisas do género. Lê-se como uma intrigante recolha histórica que sublinha o papel que as superstições desempenharam ao longo dos tempos, como fornecedoras de factos dúbios impossíveis de rebater, tidos como verdadeiros pelos nossos antecessores. Algo que nos dias de hoje, tempos de espírito mais científico e lógico, nos parece estranho e bizarro, apesar de muito desse pensamento misticista persistir nos dias de hoje. Também nos faz sorrir com a ânsia dos antigos escribas em legitimar poderes políticos na pseudo-história mítica herdada da antiguidade clássica.

Todo o livro é uma recolha fantástica de mitos e curiosidades que traça a evolução das mentalidades sensivelmente até à época do iluminismo. O segundo volume vai olhar para os séculos XIX e XX, e suspeito que continuará a ser intrigante.

A má surpresa deste livro prende-se com a prosa do autor, pouco clara e demasiado dada a interjeições. Não coloca em causa a erudição e o interesse da obra, mas dificulta a leitura. Tendo em conta que o autor vem do mundo académico, conhecido pelo rigor que coloca na comunicação escrita, esta falta de clareza na prosa estranha-se.

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