domingo, 17 de janeiro de 2016

Sustos às Sextas 2.0 (I)

João Castanheira, a abrir o primeiro (ou o sétimo?) Sustos às Sextas.

Rumar novamente, numa noite gelada de janeiro, ao assíncrono Palácio dos Aciprestes, com a sua curiosa arquitectura neo-gótica implantada no meio do sprawl suburbano da periferia lisboeta. There, and back again, e esse é o único tolkienismo que me ouvirão proferir. Regressou o Sustos às Sextas, a tertúlia dedicada ao terror literário e noutras artes, acolhida no grande salão deste palácio com o sempre erudito António Monteiro como anfitrião.  A segunda edição desta iniciativa que nos cativou no ano passado promete ser mais ambiciosa, mantendo o formato de cruzamento entre artes e presença de convidados para entrevista ou palestra, mas apostando num visual mais cuidado e no registo das sessões. Também investiram numa série de adereços, que diria que são uns coleccionáveis interessantes. Especialmente as canecas, que se tornaram no troféu a atribuir aos convidados do evento.

 António Monteiro, Vanessa Fidalgo e João Castanheira à conversa sobre o lado mais leve do sobrenatural da tradição popular contemporânea.

A sessão arrancou com uma interpretação em piano a quatro mãos da Danse Macabre de Saint Saens, que surpreendeu pelo talento e capacidade técnica das pianistas. Confesso que tenho alguns traumas com este tipo de "momentos musicais" (expressão que abomino). Recordo com um muito arrepelado carinho um em especial, com uma menina balofa de oito anos a assassinar inocentemente Bach sob o olhar babado de pais, professores e burocratas da Direcção Geral de Educação numa cerimónia de entrega de prémios educativos. E nem foi dos piores a que já fui submetido. Por isso, sempre que leio "momento musical" num programa de evento, temo o pior. Não tem sido o caso dos Sustos, e o de ontem foi surprendente, e muito bom. Quatro mãos, um piano bem afinado na acústica envolvente do salão, o distante ruído da lareira a crepitar, e impossível não reparar no pormenor fantasmagórico das mãos reflectidas no verniz negro do piano, a dar a sensação de desincorporação.

Seguiu-se a conversa entre António Monteiro, João Castanheira e Vanessa Fidalgo, a convidada da primeira edição desta segunda temporada. Vanessa Fidalgo é jornalista e demonstra uma ponta de carinho com as histórias e tradições do sobrenatural português, que tem recolhido em livros editados pela Esfera dos Livros. Na conversa, a autora falou-nos de como nasceu o seu gosto pelo sobrenatural, nutrido pela literatura fantástica, e partilhou algumas histórias das suas reportagens e investigações de recolha de tradições, lendas orais e histórias de maldições, assombrações e outras inquietudes. Aqui por este blog o tom dominante é ficção científica e tecnologia, apesar de não se desdenhar um bom susto, desde que não seja filamento derretido a entupir o extrusor. Desconheço os livros de Vanessa Fidalgo, mas a curiosidade ficou desperta. Intrigou-me a postura de curiosidade e fascínio, explorada num registo jornalístico com toques de recolha antropológica, mas sem os espartilhos trazidos pela necessidade de rigor académico.

 Release the bats?

Os morcegos estão de regresso. Confesso que não os provei. Dediquei-me a devorar fantasmas. É este o outro bom pormenor desta tertúlia, o permitir reunir fãs do fantástico literário e reencontrar amigos e conhecidos que partilham este interesse, para conversar sobre estas ideias que nos fascinam entre uma dentada num morcego e um gole de café. Sempre muito café, no meu caso, que isto as sextas-feiras são sempre longos dias no final de longas semanas.






António Monteiro invocando monstros na serra do Caramulo.

Para encerrar esta primeira sessão, António Monteiro sublinhou o lado literário deste evento lendo um dos seus contos, recordando-nos do papel que a literatura em geral, e a fantástica em particular, tinha nos tempos passados, onde os serões eram passados à luz bruxuleante da vela a ouvir ler. Um toque de dead media, nestes dias em que o cérebro tem muito à escolha para se distrair, em que a ubíqua electricidade conquistou há muito as trevas da noite e já mal recordamos o princípio elementar de todas as histórias: a voz humana a cortar o silêncio.

Bolas, isto soou algo pretensioso. Suspeito que esteja a precisar de reabastecer a chávena de café.

Sabe bem ter de volta este evento. Momentos em que os fãs destes géneros culturais se encontram rareiam. No ano passado a informalidade do Sustos às Sextas afirmou-o como mais um espaço de encontro, este ano a proposta renova-se, com algumas novidades. Uma delas deixa-me incerto. A colaboração de uma empresa de multimédia corporate na recolha de imagens e posterior edição vídeo das sessões traduz-se na presença de técnicos de câmara ou microfone em punho às voltas por entre os participantes. É distractivo, quebra a informalidade, e tem o seu quê de irritante estar concentrado nos momentos do evento mas ter na visão periférica aquela sensação de vigilância que se sente quando uma lente está nas proximidades. Os técnicos não foram muito subtis na sua presença, ontem. E, já agora, uma dica técnica: talvez não seja boa ideia usar sistemas sem fios de comunicação entre projector e computador para projectar. Questões de largura de banda.

A próxima sessão está marcada para dezanove de fevereiro. Está na agenda, claro.

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