quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Interzone #261


Há pouco de notável nesta edição da Interzone. Um conto interessante, apesar de derivativo, e um editorial onde Nina Allan assume uma posição de feminismo extremista a defender a obrigatoriedade da próxima regeneração de Doctor Who ser feminina. Descontando os compreensíveis argumentos a favor de ficção científica mais diversa em termos culturais e de género, creio que Allan falha completamente o alvo. Possivelmente por ser inglesa, e por isso cega ao que torna a personagem tão fascinante: o ser um gentleman excêntrico, encarnação de uma certa ideia de anglicidade dentro dos contextos fantasistas de uma série que explora muito bem os seus limites. É isso o que encanta os fãs internacionais da série, o que a destaca da larga mediania da FC televisiva. Ter uma Doctor Who pode satisfazer os desejos de diversidade de género, mas desenquadra-se largamente da personagem.

Five Conversations With My Daughter (Who Travels In Time), Malcolm Devlin: Um homem à deriva é endireitado pelas aparições regulares da filha, vinda do futuro para o levar a reconstruir a relação com a mulher e fazer algo da vida.

We Might Be Sims, Rich Larson: Um conto curto muito bem montado, sobre um grupo de prisioneiros que é lançado ao espaço como cobaia para uma experiência de colonização de um planetóide do sistema solar. Enclausurados na cápsula, começam a duvidar se estão de facto a sulcar os vazios estelares ou estão imersos numa sofisticada simulação.

Heartsick, Greg Kurzawa: Um homem amargurado consulta um estranho médico que o alivia dos piores males, excisando-lhe o coração. Mas a vida sem coração não é a mesma coisa, como irá descobrir ao interagir com o ambiente que o rodeia.

Florida Miracles, Julie Day: Com as cidades dedicadas à engenharia aeroespacial como pano de fundo, três criaturas revelam-se como seres milenares, dragões que caminham na terra disfarçados de humanos. O que é que um conto destes está a fazer numa revista dedicada à FC é ideia que me ultrapassa.

Scienceville, Gary Gibson: Apesar de similar no conceito a um filme recente, Tomorrowland, este conto onde um artista obcecado com o desenho de mapas de uma cidade ficcional que concentra os sonhos das utopias tecnológicas surpreende pelo seu carácter borgesiano. Após uma exposição, o artista vê-se envolvido com outras pessoas que também vislumbram visões fugazes dessa cidade fantástica. Um sacrifício acidental irá colapsar o real e o ficcional, tangibilizando a cidade imaginária com os seus andróides, edifícios modernistas, cidadãos que se deslocam em jetpacks e dirigíveis nos céus.

Laika, Ken Altabeff: E se... Laika, a primeira cadela no espaço, tivesse sobrevivido ao ordálio, regressando à Terra com uma estranha longevidade e algo de misterioso, talvez alienígena, dentro de si? É esta a premissa do conto que encerra a última Interzone de 2015.

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