quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Os Melhores Contos Brasileiros de Ficção Científica

 

Roberto Causo (ed.) (2007). Os Melhores Contos Brasileiros de Ficção Científica. São Paulo: Devir Livraria/Pulsar.

É estranho. Temos história comum, falamos a mesma língua, temos acordos ortográficos para normalizar a grafia, temos comunidades integradas. Mas a presença cultural do Brasil por cá faz-se sentir maioritariamente pelos produtos culturais de baixíssima qualidade televisivos e musicais. Talvez seja distracção ou ignorância minha, mas tirando alguns nomes de renome a literatura brasileira é por cá pouco conhecida. Então no que toca à literatura fantástica, o desconhecimento é quase total. Se estiver muito errado nesta minha opinião, sintam-se livres para a comentar em força. De preferência com links que provem o contrário.

Escrevo isto sabendo que há publicações online e editoras que fazem pontes e leva autores de cá para o público brasileiro ou nos dão um vislumbre do que lá se faz. Tenho acompanhado algumas. Mas é paradoxal. Com pelo menos duas editoras dedicadas à FC e Fantástico com presença nos dois lados do atlântico, seria de esperar um maior intercâmbio de edições e autores. Uma das coisas que me intrigou com a presença da Saída de Emergência no mercado brasileiro foi a possibilidade de ver nas livrarias portuguesas literatura fantástica de autores do lado de lá do atlântico (e, já agora, o contrário). Tal ainda está para acontecer, e aposto que há excelentes razões de lógica do mercado e financeira para isso. A Devir trouxe para cá algumas antologias, que se vão encontrando em feiras do livro. Apanhei esta no Amadora BD, exemplar algo raro de encontrar.

A antologia em si destaca-se por prometer o que não cumpre. Suspeito que tal como em Portugal, a FC brasileira tenha de se abrir ao realismo mágico, ao fantástico e ao terror para ganhar gravitas. Aquela FC mais pura, dura, de cerne na especulação de base científica, está quase ausente da antologia. Talvez, e agora estou a especular na corda bamba, tal como por cá, uma tradição cultural pouco virada para as ciências não as tenha tornado fonte de inspiração para os autores que arriscaram as ficções fantásticas. Se a qualidade dos contos é elevada, é discutível que sejam os melhores no campo da FC, a menos que estiquemos muito as fronteiras de género.


O Imortal, Machado de Assis: É impossível não ler este conto sem pensar em Mary Shelley ou Borges. Assis segue o caminho do imortal cansado da vida, farto de perder entes queridos e ver o mundo passar sem que nada mude, realmente. Dá-lhe uma variante tipicamente brasileira, com a imortalidade conferida por um elixir ciosamente guardado por uma tribo amazónica a um nobre filho de pai holandês e mãe espanhola cujo ardor pela vida o leva às maiores aventuras pela europa e américas. O conto torna-se interessante precisamente pelo que não nos conta, sugerindo ao invés de detalhar as peripécias que o nobre e progressivamente fatigado imortal vive. Incluir este conto numa colectânea de FC parece-me esticar demasiado o conceito. A narrativa é belíssima, mas não tem nada a ver com o género, e o antologista justifica-se com uma rebuscada interpretação do elixir primevo à luz da para-ciência homeopática. Pode não ter elementos de FC, mas é uma belíssima variante de temas explorados nos mais bem conhecidos contos The Mortal Immortal ou El Immortal (sublinhando-se, claro, que o conto de Borges é posterior ao de Assis).

Meu Sósia, Gastão Cruls: O antologista refere que Cruls ganhou o lugar no panteão da FC brasileira com um romance de história alternativa sobre Amazonas na amazónia. Para esta antologia seleccionou um conto bem construído sobre doppelgangers, sublinhando o paralelismo com William Wilson de Poe. O conto de Cruls segue um outro caminho, mais psicológico, com um escritor a deparar-se com seu duplo rival enquanto pesquisa material para um novo livro. A conclusão do conto aponta para o artifício fácil de resolver a narrativa como uma alucinação do protagonista.

Água de Nagasáqui, Domingos Silva - Sobreviver ao impossível deixa marcas. Um sobrevivente dos bombardeamentos nucleares de Nagasaki descobre que é portador de uma estranha maldição. Aparentemente não afectado pela radiação, provoca a morte de todos os que o rodeiam.

A Espingarda, André Carneiro - Um típico relato pós-apocalíptico, com um personagem a vaguear pelas ruas das cidades destruídas, sobrevivendo por entre as ruínas e cadáveres. A solidão é-lhe dolorosa, e quando finalmente encontra um outro sobrevivente, o encontro decorre de forma muito inesperada e acaba resolvido a tiro.

O Copo de Cristal, Jerônimo Monteiro - Um conto de fortes conotações políticas, compreensíveis mesmo para aqueles que têm um conhecimento difuso da história brasileira. Um homem idoso, a recuperar do trauma de uma prisão por motivos políticos, encanta-se com um copo de cristal que o acompanha desde a sua infância. Quando a noite cai, estranhas cores são visíveis no cristal transparente. Mas a sua mulher e sogro vêem mais, vêem imagens de guerra e morte no futuro ou passado trazidas pelo crista cristalino.

O Último Artilheiro, Levy Menezes - Mais uma aventura pós-apocalíptica, com o último sobrevivente de uma pandemia coligada com ataques nucleares automáticos a disparar um canhão do alto do abrigo bem abastecido que encontrou. Aparentemente dedica-se a exterminar répteis que talvez estejam a tornar-se bípedes.

Especialmente, Quando Sopra Outubro, Rubens Scavone - Essencialmente uma reescrita de contos de Ray Bradbury nesta história sobre uma rapariga que tem o poder de criar manifestações físicas do que sonha.

Exercícios de Silêncio, Finísia Fideli - Um dos contos mais sólidos na abordagem clássica à FC. Um astronauta com a sua nave avariada aterra numa colónia perdida cujos habitantes regrediram em consciência para formas de vida e organização social pré-tecnológica. Obra sólida, com um intrigante mundo ficcional.

A Morte do Cometa, Jorge Calife - Outro conto a aproximar-se da Hard SF (têm sido raros, nesta antologia). Num futuro próximo, uma missão para salvar o cometa Halley da erosão causada pelos seus múltiplos volteios pelo sistema falha redondamente. Intrigante como homenagem a um cometa que é símbolo do progresso científico.

A Mulher Mais Bela do Mundo, Roberto Causo - Um conto incómodo, que parece ser uma banal história de romantismo entre um fotógrafo brasileiro a viver em Nova Iorque e uma bela mulher, mas que ganha toda uma nova dimensão quando um alienígena entra em cena. Alienígena esse que decide abandonar a Terra após ver o trabalho do fotógrafo, que registou uma miséria e desigualdade tão comum quer às civilizações humana quer à extraterrestre.

A Nuvem, Ricardo Teixeira - A encerrar a antologia, um conto delicioso na forma como urde narrativas tradicionais com ficção científica pura. A história é sobre uma cidade do interior brasileiro desaparecida e esquecida pela memória, após longos anos de seca e o surgir de uma estranha nuvem que parece recupera o viço aos terrenos mas se revela como uma experiência falhada de colonização alienígena. A antologia encerra como inicia, com um conto de extraordinária qualidade literária.

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