sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Our Robots, Ourselves: Robotics and the Myths of Autonomy


David Mindell (2015). Our Robots, Ourselves: Robotics and the Myths of Autonomy. Nova Iorque: Viking.

O ponto mais interessante dos argumentos sobre robótica autónoma deste livro é o equilíbrio que mantém entre visões de deslumbramento e apocalípticas do impacto social e histórico destas tecnologias. Coisa rara. O mas habitual é ler-se um deslumbramento total, com a robótica como mito salvífico que irá libertar a humanidade do jugo do trabalho sem sentido (pensem Hans Moravec, e todos os que postulam vidas de ócio possibilitadas por servos mecânicos). Ou, corrente mais contemporânea e influenciada pela crise global que atravessamos, visões tenebrosas onde software de automação e robots pulverizam empregos e carreiras, beneficiando elites dominantes enquanto condenam uma grande parte da humanidade à indigência. Já Mindell tem os pés mais assentes na terra, especialmente porque se torna notório ao longo do livro que não é teórico ou economista, mas sim engenheiro com uma larga experiência nalguns dos mais icónicos projectos de robótica autónoma. Quando se participa nas equipas de trabalho multidisciplinares que constroem e operam robots autónomos, a visão do omnipotente robot overlord desvanece-se face às fiabilidades, avarias, inconsistências, bugs de sistemas que obedecem primariamente às leis de Murphy.

Mindell conduz-nos através de algumas das vertentes de investigação neste campo, passando pela automação de sistemas aeronáuticos, robots submersíveis, drones militares, veículos autónomos e exploração espacial. São retratos que tece com detalhe por vezes excessivo (há parágrafos que são melhor legíveis na diagonal, o argumento está feito, os exemplos dados, o resto é acessório, interessante mas não fundamental). A imagem que transparece é uma de simbiose entre máquinas e humanos, em vários níveis. Sublinha o quanto a dependência de sistemas automatizados pode prejudicar o sentido crítico de quem os utiliza, com consequências potencialmente fatais. Mostra que as possibilidades da telepresença criam um sentimento de imersividade nos utilizadores. E, fundamentalmente, aponta para a omnipresença do factor humano mesmo na robótica mais avançada. Somos nós que a concebemos e programamos, e as nossos pressupostos influenciam directamente a sua concepção. Este é o argumento mais pertinente de um livro intrigante, que segue um caminho sóbrio e intermédio, ancorado na experiência prática, na reflexão sobre práticas e consequências da robótica e automação.

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