quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Da Impossibilidade do Horror


Estava a adorar o filme. Cenas sangrentas, daquelas que despertam exclamações colectivas de aaaargh vindas dos espectadores. Corpos seccionados ao meio, com sangue a jorrar dos troncos enquanto os torsos rolavam pelo chão. Um típico momento over the top, daqueles que os amantes de filmes de terror tanto gostam. Seguido por sequências inacreditáveis de perversidade sangrenta, também daquelas que os amantes de filmes de terror tanto gostam. Mas, algures a meio do filme, o fio de suspensão de descrença que nos permite desfrutar deste tipo de cinema suspendeu-se. Não durante muito tempo, felizmente regressei depressa ao mundo ficcional do filme. Mas ficou a sensação.

Na cena, um grupo de professoras disciplinadoras impunha a ordem à força de tiros de metralhadora. As salas de aula enchiam-se de cadáveres de adolescentes tagarelas, e a cena termina com grupos de jovens em debandada pelos pátios da escola enquanto os professores disparam a eito das janelas. Foi esse o momento que me congelou. Crianças a ser abatidas a tiro, requerendo até um obrigatório momento point of view da espingarda a apontar e disparar. Ridículo, consentâneo com o absurdismo assumido do filme. Congelei, mas não sou particularmente pruriente ou sensível para ficar chocado com filmes de terror. Há uma razão para esta sensação, e prende-se com os dias difíceis desta contemporaneidade do sangrento parto do século XXI.

O cinema de terror, especialmente o mais sangrento e cruel na forma como desmembra e trata o corpo humano, depende muito da percepção da sua impossibilidade real. Chocamo-nos, rimos, apreciamos aquela tensão macabra que estes filmes nos transmitem sabendo que na vida real não há hordes de zombies, assassinos macabros a desmembrar vítimas em sucessão rápida, criaturas mortíferas com especial apetite para entranhas humanas aquecidas à temperatura corporal, ou crianças abatidas a tiro nos recreios. É demasiado incrível, ultrapassa em barroquismos sangrentos os crimes chocantes que sabemos que acontecem. Esta é uma percepção que colide violentamente com as imagens que nos chegam nos media.

A nossa percepção do cinema de terror é profundamente alterada quando sabemos que uma organização como o Estado Islâmico produz vídeos de propaganda que rivalizam quer nos valores de produção quer nas atrocidades com os filmes mais extremos de horror gore. Só que as atrocidades não são aplicadas sobre próteses de efeitos especiais. São-no sobre pessoas. O sangue, as cabeças decepadas, os horrores da morte a acontecer ao vivo são bem reais e filmados com técnicas directamente inspiradas no cinema para ampliar o efeito propagandístico. As imagens que vemos das torrentes de refugiados que fogem das zonas de guerra são arrepiantemente similares à iconografia do cinema zombie. Basta trocar mortos-vivos a uivar nas vedações pelas massas de homens e mulheres desesperados nos bloqueios fronteiriços. Não são alvejados na cabeça, mas as violentas reacções de repúdio e rejeição do outro que grassam na opinião pública não andam longe disso.

Fica-se com a sensação arrepiante que não seria inaudito, e talvez aconteca com regularidade, que bandos armados abatam crianças a tiro nos recreios das escolas. Talvez na Síria devastada pelo IS, no norte nigeriano às mãos do Boko Haram, ou no Darfur pelas milícias sudanesas. O genocidio tornou-se uma notícia habitual nos telejornais. As forças negras da realidade apropriaram-se da estética do cinema de terror para prosseguir as suas políticas de terror sobre as populações. E a sensação de isto não pode nunca ser real abandonou as salas de cinema. Não deixarei de ser fã deste género de cinema, mas sinto que se perdeu a sua inocência, o seu carácter de irreal.

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