terça-feira, 4 de agosto de 2015

Re: Colonised Planet 5, Shikasta


Doris Lessing (1979). Re: Colonised Planet 5, Shikasta. Nova Iorque: Knopf.

Torna-se óbvio, logo nas primeiras páginas, que este Shikasta é mais do que uma metáfora do nosso planeta. É um recontar dos nossos mitos e história com um pesado sentido crítico. Falar de um planeta que perdeu a sua era dourada e evoluiu num profundo negativismo violento, apesar da ciência, cujas populações iludidas por ideiais repressivos vivem sem esperança curtas vidas de dor e ilusão.

Poderia ser um mundo perfeito, mais um da constelação de mundos de perfeição de Canopus, senão pela interferência negativa dos agentes de um tenebroso planeta, sede de um império desestabilizador. A fonte de essência cósmica que permitiria aos habitantes desta colónia aceder às perfeições paradisíacas dos seres superiores que dominam a galáxia é pervertida e desviada pelos agentes do mal, para desespero dos agentes da perfeição. E esta, talvez, tenha sido a mais bizarra metáfora para a dualidade metafísica bem-mal com que me cruzei na ficção científica. Lessing remete os mitos que nos torneiam para uma cosmologia onde os interesses e esforços de seres alienígenas. É uma intrigante variante das propostas sobre astronautas antediluvianos com um toque de proto-mitologia.

Shikasta é um romance fragmentário, contado a partir dos relatórios progressivamente desesperados dos agentes do bem que assistem impotentes ao regredir das raças inteligentes do planeta para a triste humanidade. Nestes, relatando a queda da era dourada e a incipiência de uma espécie cujo desenvolvimento negativo tentam, através da religião, manipular. Progressivamente, quando as mitografias de eras douradas do passado com os seus seres de perfeição moral vão dando lugar a uma história enviesada de degradação, percebemos que o véu da metáfora se vai levantando, com Lessing a transmitir uma visão muito negativa da contemporaneidade. Aqui o ponto de vista altera-se do dos agentes espaciais para as experiências dos humanos, que vão relatando a cataclísmica transformação final da humanidade, arrasador guerras num planeta esgotado que, finalmente, poderá aceder à perfeição.

É neste ponto que se situa o momento mais inquietante do livro, aquele que o escritor Fábio Fernandes referiu ao falar dele nos colóquios Próximo Futuro: o julgamento da humanidade, que começa por ser um julgamento de aproveitamento político que coloca a raça branca no banco dos réus, mas que à medida que os crimes dos brancos vão sendo enumerados leva todos os presentes a perceber que não lhes são exclusivos, que as relações violentas entre opressores e oprimidos, a ganância, a exploração, são transversais às etnias. É, de facto, o julgar de uma espécie que há muito perdeu a inocência.

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