sexta-feira, 5 de junho de 2015

Megalon #63


Esta edição do fanzine brasileiro quase se diria ser um artefacto histórico da FC portuguesa. Edição especial dedicada à FC portuguesa, contou com contos de João Barreiros, Luís Filipe Silva e Ricardo Rebelo. Também publica um poema de Jorge Candeias. Nunca suspeitaria que por cá se tivesse feito poesia de FC, algo que, por exemplo, a Asimov SF publica regularmente.

O que torna este fanzine interessante e relevante são os artigos que traçam um panorama da FC em Portugal que, quinze anos volvidos sobre a sua publicação, não mudou em nada. É curioso contrastar o editorial optimista de Marcello Branco, entusiasmado com o que imaginou ser uma cultura vibrante de FC do lado de cá do atlântico, e com as possibilidades das pontes culturais luso-brasileiras, com a visão devastadora dos panoramas traçados por Jorge Candeias e João Seixas.

Seixas centra-se na fragmentação e disputas de personalidade que arrasaram o fandom português, clivagens essas hoje mais discretas, porque a idade talvez tenha acalmado os intervenientes, mas nem por isso a deixarem de se fazer sentir. Algo que, pessoalmente, sempre achei algo ridículo. Quase arrasar um nicho cultural minoritário num país onde já de si a cultura é um nicho reduzido por algo que do que sei me parecem disputas causadas por choques de personalidades é um enorme tiro no pé. Para quem está de fora, como estive nesses anos em que a Simetria prometeu e depois derrocou, é uma sensação muito estranha ver que houve uma altura em que a coisa cultural de FC prometia ser séria e depois deu no que deu, nesta míngua editorial e impossibilidade de formação de novos públicos. Mas para mais do que isto não sei o suficiente para me pronuncia. E, honestamente, não quero saber. A FC implica olhar em frente.

Mais pertinente, porque actual, o que é deprimente, são os traços com que Candeias caracteriza a possível FC portuguesa. Deprime, ler e perceber que quinze anos depois os grandes nomes são os mesmos, vozes novas há poucas, o género continua com descrédito, que não há canais que assegurem publicação contínua (excepto o Imaginauta), que as publicações continuam como pontuais, não deixando mais do que traços efémeros. Quinze anos. Aliás, catorze, porque o fanzine é de 2001, mas enfim.

E, como em tantas coisas portuguesas, é preciso vir de fora o olhar para aquilo que temos de bom. Lodi-Ribeiro analisa Terrarium e conclui que é o melhor romance de FC escrito em português. Algo que, francammente, deprime, porque passados estes anos todos continua a ser o melhor romance de FC portuguesa. Não só pela qualidade, como por exclusão de partes. Porque não há outro. Talvez, perdido numa gaveta ou num disco rígido, algures, longe dos olhos dos leitores...

O Megalon #63 está disponível no Fanzinarium. Tem o seu quê de sincronicidade este Megalon, cuja capa reproduz uma das ilustrações do brasileiro Alvim Corrêa para a Guerra dos Mundos de Wells ter sido ressuscitado digitalmente sensivelmente na mesma altura em que a internet redescobriu o trabalho do ilustrador.

2 comentários:

OCTÁVIO DOS SANTOS disse...

Não vou contestar que «Terrarium» é, continua a ser, «o melhor romance de FC escrito em português»; ainda não o li, mas, considerando quem o escreveu e os elogios que continuamente recebe, tal qualificativo muito provavelmente é merecido.

Agora o que não é verdade é que «não há (haja) outro» romance de Ficção Científica em língua portuguesa.

artur coelho disse...

ok, bem visto. há outros, de facto. mas não há, ainda, outro grande romance de FC para ombrear com o terrarium. pelo menos que me tenha cruzado o radar, não reclamo omnisciência...