quinta-feira, 4 de junho de 2015

A Hora de 80 Minutos


Brian Aldiss (1992). A Hora de 80 Minutos. Lisboa: Edições 70.

Peguei neste livro com a expectativa de ler uma história clássica de apocalipse atómico dos tempos da guerra fria e saiu-me algo completamente inesperado, um delírio experimentalista high weird que pega no influente ideário de destruição mutuamente assegurada da guerra fria e o mistura com viagens no tempo, linhas narrativas histriónicas e um forte experimentalismo linguístico que mesmo em tradução se faz sentir.

Não é facil definir este livro. Digamos que estamos num futuro pós-conflito atómico, com os dois antigos blocos unidos numa união capitalista-comunista e um conjunto de países não alinhados que se recusa a fazer parte da tecnocracia, controlada por uma rede de super-computadores que se vai tornando cada vez mais dominante sobre as decisões da humanidade. As animosidades em fronteira difusa vão se espalhando ao longo do sistema solar, e para complicar a situação as armas usadas na guerra nuclear causaram progressivas instabilidades no tecido do espaço-tempo, o que causa curiosas anomalias com regiões inteiras do planeta a serem transplantadas para outros tempos, com o presente a escorregar para o passado e o passado a materializar-se no presente futuro. Ainda temos o proverbial líder mundial de ética duvidosa que se oculta num universo paralelo contido num medalhão, espalo cobiçado pelas inteligências artificiais para se protegerem das instabilidades espácio-temporais, e uma guerra surda entre nações não alinhadas e bloco principal que ameaça resvalar para uma guerra. Esta tarda porque uma das naves de espionagem dos não-alinhados cai numa anomalia temporal para um passado tão profundo que acabará por colonizar um planeta que se situou há milénios atrás entre as órbitas da Terra e de Marte, desintegrando-se sem deixar rasto, excepto por ruínas milenares sob a superfície marciana e a modificação genética aos primeiros mamíferos antepassados dos antepassados dos antepassados do homem que introduz o hipocampo nas espécies, forma bio-engenhada de um dispositivo de controle de mentes que está a ser prototipado neste estranho futuro. Marte, claro, é uma espécie de campo de concentração para inadapatados e, simpático, Aldiss pulveriza as ilhas britânicas, transformando os ingleses numa nação sem território.

Um livro estranho, que salta as fronteiras de género da FC com um forte experimentalismo linguístico e conceptual, que se atreve a rir-se de si próprio com um profundo sentido de humor escatológico.

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